Arquivo do mês: janeiro 2010

Está lá, escrito, mas não vale nada

Cena nada rara quando o assunto é o tratamento ao consumidor brasileiro – neste caso, o torcedor. A federação de futebol do Rio de Janeiro, com os clubes, decidiram não vender as entradas em dias de jogos. O objetivo era evitar tumultos.

No entanto, para combater cambistas, que vendem ingressos mais caros e inclusive falsos, Maracanãos organizadores do campeonato de futebol fixaram uma placa na bilheteria do Maracanã, na qual está escrito isso mesmo que você está conseguindo ler: “Torcedor, para sua segurança, somente compre seu ingresso na bilheteria”.

Está lá, escrito, mas não vale nada mesmo. Quem foi assistir o jogo Fluminense contra Bangu, no dia 20 de janeiro, não conseguiu comprar entradas no dia da partida. Cerca de mil pessoas ficaram do lado de fora.

O criador da Internet começa a dar novos usos à própria criação

Tim Berners-Lee é considerado o criador da internet – a world wide web. Em junho do ano passado, foi contrato pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown para conduzir o Reino Unido por um caminho que alguns países já tinham começado a trilhar poucos anos antes – abrir os dados dos governos para a sociedade fazer uso privado ou comercial deles. Tim foi contratado por Brown por ser um crítico do costume dos governantes de trancarem informações públicas nos armários. Como ele mesmo explicou, bem-humorado, as desculpas de presidentes, secretários, governadores e prefeitos para não entregar informações são surpreendentes e incríveis.

Hoje, na Inglaterra, Tim Berners-Lee lançou o data.gov.uk, cujo objetivo é oferecer acesso a bancos de dados com informações públicas que possam ser transformadas em serviços por desenvolvedores da área de tecnologia da informação. Começa com 2.500 conjuntos de dados. Não interessa se as informações serão usadas de forma privada ou comercial – o princípio é que a sociedade (pessoas, famílias e empresas) já pagou por elas e tem direito a elas.Sir Tim Berners-Lee idea

No lançamento, o data.gov.uk terá bancos de dados com informações sobre visitas a museus, preços de habitação, pontualidade de ônibus e qualidade do ar em todo o país.

Veja a frase de Tim Berners-Lee, numa tradução livre, dita para um repórter o portal da BBC, de Londres: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” Incrível, certo? Imagine o prefeito de São Paulo, então, dizendo o mesmo a respeito de disponibilizar à sociedade e aos jornalistas o banco de dados com endereços de alagamentos dos últimos dez anos na capital paulistana. Imagine o presidente da República fazendo o mesmo com o banco de dados do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, que o governo federal diz estar melhorando a infraestrutura do Brasil e que os partidos políticos de oposição dizem ser uma bela peça de propaganda.

O Reino Unido entrou de cabeça em um movimento que cresce no mundo inteiro: o Open Data Moviment, que significa algo como dar ao público as informações públicas. Entre os ingleses, há campanhas que datam de anos atrás, como a Free Our Data, do jornal The Guardian, para que uma política governamental fosse implementada neste sentido, como já vinham fazendo outros países, como Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. Ganharam.

As consequências positivas de uma política pública como essa são inimagináveis. Como explicou o coordenador do data.gov.uk, ao abrir os bancos de dados governamentais, seja para uso particular ou comercial, os desenvolvedores podem enxergar utilidade em lugares e coisas que o governo não vê e tudo isso pode se transformar em novos negócios e mais produtividade, o que resultará em ganhos de arrecadação tributária para os governos. Simples assim. Imagine, agora, um governo qualquer no Brasil dizendo isso.

Para conhecer mais, leia:

The Guardian: UK’s free data website ‘is a world showcase’

DataBlog The Guardian: Official government data sites around the world

BBC: Tim Berners-Lee unveils government data project

Onze anos depois, qual é o desempenho da ‘lei dos medicamentos genéricos’?

Graphic Drug Prices Uma das boas infografias do portal da The Economist, publicado dia 18, faz pensar a respeito do funcionamento do mercado global de medicamentos. Pode ser também um ponto de partida para a imprensa brasileira entender as estratégias e variáveis que implicam no preço dos chamados “remédios de marca” e “remédios genéricos” e mostrá-las à sociedade.

A pesquisa é da Health Action International (HAI), organização não governamental que atua nessa área. Mostra o custo de um antibiótico usado no mundo para o tratamento de um conjunto variado de infecções causadas por bactérias.

Na coluna da esqueda do gráfico, o estudo da HAI mostra o custo do medicamento de marca. Nas linhas amarelas, é possível perceber a diferença de preço para o medicamento genérico. EUA e Brasil são os países onde a diferença é maior. Alguém pode pensar que isso é bom, mas não é. Basta verificar que em vários – desenvolvidos ou não – o preço do remédio de marca é muito, mas muito menor. E, consequentemente, o preço do genérico é menor ainda.

Do ponto de vista do usuário e cidadão comum, é difícil entender mutias dessas questões. Explicá-las pode render uma boa reportagem:

1) Quais as regras internacionais que ajudam a definir o preço de um mediamento vendido globalmente?

2) Como funcionam os acordos ou leis que resultam em quebras de patentes? Como e com qual intensidade o Brasil quebra patentes de medicamentos? Em comparação ao comportamento de outros países que fazem o mesmo, o Brasil é mais ou menos praticamente desse hábito?

3) O que faz o mesmo medicamento de marca ser extremamente mais barato em outros países, inclusive em nações pobres, nas quais não há fabricação destes remédios?

4) Como funciona a política de aprovação, formulação de preço e venda de medicamentos genéricos? Depois da enxurrada de matérias sobre o assunto, quando eles foram lançados, a mídia não deu mais muita atenção a esse assunto.

5) No dia 10 de fevereiro, a lei que autorizou a comercialização de remédios genéricos no Brasil, completará 11 anos. Especialistas médicos e de mercado, além de fabricantes e autoridades governamentais, poderiam ser ouvidos para fazer um balanço do desempenho desta legislação e listar os desafios que precisam ser superados.

Dica: um bom caminho para suscitar perguntas dos jornalistas é a leitura da cartilha elaborada pelo Ministério da Saúde para ensinar a população as informações que ela precisa saber sobre o assunto.

Zilda Arns: resta fazer uma matéria ainda

Zilda O Globo 1 A imprensa cobriu a morte de Zilda Arns, médica pediatra e sanitarista que se transformou em uma das mais principais personalidades brasileiras ao liderar com êxito as iniciativas da Pastoral da Criança, com relativo equilíbrio e eficiência, principalmente se for considerado que ela faleceu ainda no dia 12, mas a notícia começou a circular pela internet somente dia 13 – e os jornais impressos só tinham como noticiar no dia seguinte.

Houve pouco tempo para levantar informações relevantes. Mas, mesmo assim, os principais jornais brasileiros deram conta do recado, seja no dia imediatamente seguinte ou depois. Destaque para O Globo e O Estado de S. Paulo, neste último Zilda O Globo 2 caso, com um belo artigo de José de Souza Martins, professor emérito da USP na área de filosofia, que trouxe números a respeito do desempenho da Pastoral e Zilda.

A TV Cultura, de São Paulo, foi muito feliz em reprisar uma entrevista concedida por Zilda Arns em 2001 para o programa Roda Viva. Lá, ela detalhou, com didatismo e clareza, os princípios e os procedimentos que fizeram da Pastoral da Criança um sucesso internacional, com bases de operação em países pobres da Ásia, África e América.

Mesmo com o bom trabalho da imprensa, acredito que há espaço para mais uma reportagem, principalmente por revistas de economia e negócios como Exame e Época Negócios, que focam muito em gestão, mas também para Carta Capital e Isto É Dinheiro. Sugiro um roteiro simples:

1) Quais os números que demonstram o sucesso da atuação da Pastoral da Criança, preferencialmente divididos por regiões, como mostrou José de Souza Martins? É possível produzir boas infografias com esses dados? Há localidades ou comunidades que podem servir como ‘personagens principais’ para demonstrar o desempenho desse programa coordenado por Zilda Arns?

2) Quais são os princípios e métodos gerenciais que podem ser transpostos para outros desafios que o Brasil tem? Nas reportagens, a imprensa traz algumas pistas: simplicidade, comprometimento das pessoas (que são voluntárias), capilaridade (atendimento em mais de 4.000 cidades), fé na causa, aproveitamento dos saberes locais (como demonstra os ingredientes regionais da  multimistura).

3) Há empresas que se servem dos mesmos princípios e métodos? Quais os resultados? Em quais mercados ou companhias tais métodos poderiam ser aproveitados? Empresas como Natura, Nextel, Avon e muitas outras se servem de uma rede de vendedores que trazem os princípios praticados por Zilda Arns.

4) É possível comparar o custo de atendimento e o resultado alcançado pela Pastoral da Criança com outras políticas públicas dos governos federal ou estaduais?

5) Zilda coordenava também uma iniciativa relativamente recente: a Pastoral da Pessoa Idosa. Há resultados, desafios, metas e métodos para serem mostrados?

Melhor da semana: ótimo personagem ou ótima pesquisa?

A melhor reportagem da semana entre 10 e 16 de janeiro fica entre duas ótimas reportagens, ambas de O Globo. Mesmo em uma semana na qual o desastre Intentonacausado pelo terremoto no Haiti manipulou a cobertura da imprensa, houve abundância de boas matérias, incluindo a cobertura em solo haitiano. No entanto, seleciono duas que abordaram outros temas.

Uma contou uma maravilha de história, depois de o repórter José Meirelles Passos localizar um personagem – o únimo sobrevivente da Intentona Comunista – que o Brasil sequer sabia que existia.

A outra, de Chico de Gois e Luiza Damé, em um exercício bem-feito de uso de Gastos secretos estatísticas para produzir reportagem, analisou, no intrincado orçamento público federal, gastos dos cartões corporativos de três órgãos cujas operações são consideradas sigilosas: Abin (agência de inteligência), Polícia Federal e gabinete da Presidência da República. Constatou que os recursos pagos pelos cartões de crédito corporativos cresceram 52% de 2008 para 2009. A sociedade, como os jornalistas, bem sabe que onde há sigilo demais há sempre risco de falhas.

Votação difícil e minha escolha, nesta seara de duas ótimas reportagens, fica para a primeira, a história do último sobrevivente do levante militar contra Getúlio Vargas, em 1935. Justifico: está cada vez mais raro surgirem boas histórias de personagens incríveis na cobertura diária da imprensa. Infelizmente, ao lado de Antero de Almeida, 104 anos, que ilustra esta mensagem, os leitores tiveram de se deparar com a história de vida de Zilda Arns, ex-coordenadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, falecida no terremoto no Haiti.

Pouca gente viu, mas merece prêmio de arte no jornalismo

3jan OESP clima O jornal O Estado de S. Paulo publicou, dia 3 de janeiro, duas das páginas mais bonitas do jornalismo brasileiro dos últimos anos. Com duas abordagens sobre mudanças climáticas, fez uma diagramação que é uma verdadeira obra de arte.

Ousada e bonita, chamou a atenção para temas que muitas vezes passam despercebidos, mesmo em uma era que cresce a consciência da sociedade por temas ambientais. A fotomontagem é de autoria de Leandro Martins, da Agência Estado. Pouca gente viu, por causa do feriado de Ano Novo, mas que merece prêmio, merece.

Que fim levou o programa de construir 40 mil vagas em creches por PPP em SP?

O portal da Prefeitura do Município de São Paulo é claro na ação e na meta:

(…) por meio da Secretaria Municipal de Educação (SME), publicou Edital de Concorrência Pública objetivando a celebração de Parceria Público-Privada para oferta de 40 mil novas vagas em creches no Município de São Paulo (Diário Oficial da Cidade de São Paulo em 13 de maio de 2008, pag. 72). A concorrência será realizada nos termos das Leis Municipais (…) e das Leis Federais (…) bem como as demais normas que regem a matéria. As empresas interessadas deverão entregar os envelopes contendo os documentos de classificação e habilitação às 14:30h do dia 30 de junho de 2008 (…)”.

A política pública visa reduzir o hiato entre a quantidade de vagas existentes em creche e a demanda imediata. Dados recentes da SME indicam que há vagas para 105 mil crianças entre zero e três anos de idade, mas outras 110 mil ainda estão na fila de espera.

O problema é que o Tribunal de Contas do Município, em junho de 2008, mandou parar o processo – e a prefeitura o suspendeu.

Pelo modelo proposto pela prefeitura, caberia às empresas vencedoras da licitação conseguir e comprar o terreno, construir as creches de acordo com projeto e especificações determinadas pelo Poder Executivo municipal e se responsabilizar pela manutenção do prédio por 20 anos, em troca de pagamentos mensais da prefeitura assim que as instalações estivessem em condições de uso. Encerrados os 20 anos, o patrimônio passa a pertencer à cidade.

1) Por que mandou parar? Foi exagero do tribunal ou leniência e deficiência da prefeitura? Se uma ou outra alternativa, alguém tem ou pode ser responsabilizado pelo exagero ou pela deficiência, já que a sociedade está sendo prejudicada?

2) Quais os verdadeiros motivos do tribunal? Quais as ações subsequentes? Com quem está o processo atualmente?

3) Por que tanto tempo se passou e ainda não há uma resposta à sociedade?

4) Quais as perspectivas? Há data para os erros serem consertados e a licitação prosseguir? A licitação na modalidade PPP será abandonada?

As respostas a essas perguntas valem uma boa reportagem.