Sem notícias da fábrica de semicondutores


No dia 29 de junho de 2006, o governo federal organizou uma cerimônia para assinar o decreto de implantação da TV digital no Brasil. Os governos do Brasil e Japão, na mesma solenidade, também assinaram um acordo tecnológico. O objetivo era que, ao adotar o padrão japonês de tecnologia para TV digital, em detrimento do norte-americano, usado também na Europa, o Brasil abrisse as portas para receber, em contrapartida, investimentos japoneses na construção de uma fábrica de semicondutores. TV Digital

A fábrica não veio, o governo japonês foi cobrado em missão brasileira àquele país realizada em 2008, mas nada de investimentos concretos. Para os bons entendedores, o assunto continua em estudo.

Acredito que, da mesma forma que é importante avaliar o desempenho de políticas públicas, uma das principais funções do jornalismo é verificar o cumprimento de promessas, memorandos e protocolos de intenções.

O ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) representou o governo brasileiro nas negociações com o governo japonês ao longo de 2006 e poderia ser ouvido. Outras pastas envolvidas, como Ciência e Tecnologia, Comunicações e Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, podem ser convidadas a avaliar o que aconteceu. Sugiro um pequeno roteiro para uma reportagem séria e isenta:

1) O memorando de intenções assinado em abril de 2006 era mesmo realista? Que tal ouvir executivos e presidentes de grandes companhias, acostumados a conduzir investimentos elevados em novas fábricas, para entender que informações as multinacionais avaliam para determinar locais e mercados para a construção de uma nova planta industrial. Quais fatores estratégicos são levados em conta para escolher o país a receber uma fábrica para produzir o ciclo completo – ou partes – de semicondutores?

2) É possível ouvir o outro lado – o governo japonês? Em algumas ocasiões, autoridades do governo daquele país indicaram que o investimento estava ainda em fase de estudo. Que tal cobrar uma explicação, numa entrevista de fôlego, que envolva essa questão e outros fatores do relacionamento comercial entre Brasil e Japão? A fábrica de semicondutores foi trocada por outras contrapartidas?

3) Quais empresas japonesas tinham manifestado interesse potencial em instalar uma fábrica de semicondutores no Brasil? É possível ouvi-las?

4) Qual o tamanho do mercado brasileiro? Nem toda a população tem recursos para adotar, no curto prazo, o sistema digital de televisão. E na América do Sul? Quantos lares, em potencial, poderiam ser clientes e absorver a demanda de uma fábrica nova? As quantidades envolvidas na produção anual de uma fábrica dessas e de um mercado como o brasileiro ou sul-americano divergem radicalmente ou são compatíveis?

Aos jornais impressos, essa pauta poderia render uma boa página em um domingo. Emissoras de rádio e TV poderiam produzir séries ou uma reportagem mais extensa – um ou dois minutos a mais. Blogs e internet têm mais flexibilidade de tempo e espaço para repercutir.

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