Arquivo do mês: janeiro 2010

Metas na gestão pública: material para matérias é farto, mas a imprensa esqueceu o assunto

Graças ao Movimento Nossa São Paulo, organização não governamental que visa sugerir e cobrar das autoridades públicas paulistanas melhorias na gestão e na prestação de serviços, o prefeito passou a ser obrigado, desde 2009, a apresentar à população metas qualitativas e quantitativas para cada área da administração municipal.

Isso significa que os planos e políticas públicas da prefeitura precisam sair das gavetas – se é que estavam lá – e passam a ser um compromisso formal entre o eleito e o eleitor. O prefeito fica obrigado ainda a divulgar anualmente os resultados atingidos e dar publicidade a esses dados.

Na lei, não há previsão de punição em caso de descumprimento, mas é, sem dúvida, uma ferramenta importante de constrangimento e pressão sobre os governantes que, até então, não precisam apresentar metas – que dirá, cumpri-las.

A inovação adotada em São Paulo foi, após poucos meses, também absorvida por Ilhabela (SP), Ilhéus (BA), Teresópolis (RJ), Ribeirão Bonito (SP) e Mirassol (SP). Se bem apuradas, centenas de assuntos poderiam render boa cobertura da imprensa. Segue um breve roteiro:

1) A Prefeitura de São Paulo criou um portal para divulgar à população os resultados e o avanço no cumprimento das metas. Entre 2009 e 2012, a atual administração municipal se comprometeu com 223 delas. A população precisa ser lembrada dessa lei e dessa obrigação da prefeitura, até porque se trata de uma novidade política e sobretudo cultural na gestão pública brasileira.

2) Até a última atualização do andamento de cada ação (o que varia entre julho e dezembro de 2009), 6 metas já tinham sido concluídas, 18 não tinham sido iniciadas e o restante estava em andamento. Parece um resultado bom, mas somente um bom trabalho jornalístico conseguirá comprovar o desempenho. Cada meta oferece obras, imagens, pessoas que têm a perspectiva de receber melhorias, números e história. Há farto material para a produção de matérias especiais, didáticas, exemplificadas e ilustrativas sobre as principais metas e resultados.

3) A prefeitura, como toda administração pública, enfrenta também entraves que estão fora do alcance do gestor. Uma boa cobertura poderia ajudar a população a entender que muitas coisas não saem do papel por incompetência do gestor público, mas que muitas outras não são feitas porque há disputas políticas, dificuldades burocráticas, leis obsoletas e muitos outros fatores que interferem na condução bem-sucedida de uma obra, de um plano ou de uma política pública. Quais são os entraves? Quais especialistas podem sugerir soluções? Vale lembrar que após o lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em janeiro de 2007 pelo governo federal, a mídia e a população passaram a debater – e a entender em detalhes – entraves e soluções que pouco ou nunca entravam na pauta jornalística, como licenciamento ambiental, entraves em licitações e razões para paralisação de obras.

4) Algumas cidades já adotaram a mesma obrigação, como foi citado. Como está a implementação dessa novidade política e cultural pelas prefeituras de Ilhéus, Ilhabela, Teresópolis, Ribeirão Bonito e Mirassol? Como está o conhecimento e a aceitação da população? Há melhorias evidentes?

5) Quais grandes cidades não adotaram esse tipo de lei e política de gestão pública? Por quê? O Movimento Nossa São Paulo certamente sabe – ou conhece quem sabe – sobre o assunto.

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Quanto os EUA gastam para conter imigrantes? Como anda a liberdade no mundo? As preocupaçãos de Obama mudaram? The Economist mostra

As infografias da The Economist.com são muito boas pela enorme capacidade de serem simples e didáticas, auto-explicativas e bonitas. Informam facilmente por meio de barras, colunas e linhas. Selecionei quatro delas, publicadas no The Economist Freedomportal da revista.

1) Os números da organização Freedom House mostram que a democracia anda em baixa no mundo. A quantidade de países nos quais reina a liberdade política e de expressão diminuiu. No ano passado, em 40 países houve deterioração da liberdade. Em pouco acima de 45% das nações do mundo impera, de acordo com a organização, o princípio da liberdade. Os avanços foram mínimos nos últimos dez anos.

2) No discurso anual do presidente dos Estados Unidos para o Congresso norte-americano de 2010, a revista notou que houve uma guinada de Barack Obama para os problemas domésticos, em detrimento de assuntos globais ou The economist Obamas's speechesinternacionais. A constatação só foi possível porque a equipe de The Economist comparou as palavras mais usadas nos dois discursos anuais de Obama: em janeiro de 2009 e de 2010. Palavras como paz, liberdade e mundo foram menos usadas em 2010, cedendo espaço para americanos, América, empregos, contribuintes e família. Muito interessante e critivo mesmo.

3) Enquanto economias de países emergentes conseguiram sobreviver melhor aos solavancos da crise financeira internacional entre 2008 e 2009, os países ricos registraram fortes recuos no PIB. Dados mais recentes mostram que, na The Economist GDP contramão, alguns dos 20 países emergentes mais importantes se saíram melhor. A China cresceu 8,7% em 2009. O Brasil pode ter ficado estagnado. Esse G-20 emergente já representa 26,4% do PIB mundial em dólar e foi responsável por 62,8% do crescimento econômico que ocorreu em 2009, segundo o Brasdesco.

4) Está cada vez mais caro para os Estados Unidos combater a imigração ilegal. The Economist US border patrol O muro na fronteira com o México foi uma das mais recentes tentativas. A organização Center for American Progress calculou que o orçamento anual para esse trabalho aumentou de US$ 326 milhões em 1992 para US$ 2,7 bilhões em 2009.

5) A China ganhou o apelido de fábrica do mundo. Na produção de aço, não há contestação. O país já é responsável por 47% da produção mundial do insumo. The Economist World steel production Em 2009, quando a produção global caiu 8%, devido à queda da demanda derivada da crise internacional, o país asiático – e outras três nações – aumentaram a produção. Parte desse crescimento ocorreu a partir da compra de ativos no exterior.

Robinho no Santos: jornal consegue fugir do lugar-comum

Robinho O jogador Robinho, depois de uma temporada mal-sucedida no Manchester City, equipe inglesa, retornou ao Brasil para jogar novamente pelo Santos, time no qual foi revelado para o País.

O lugar-comum prevaleceu na cobertura midiática. As matérias lembraram o talento do jogador e lembram do risco de Robinho não integrar a convocação do técnico brasileiro Dunga visando a Copa 2010 na África do Sul. Alguns ainda reportaram que novamente o craque sai de uma equipe “forçando a barra: a terceira vez consecutiva.

A Folha de S.Paulo, com pauta e infografia bastante criativas, conseguiu surpreender o leitor e fugir do trivial. Lembrou que a equipe do litoral paulista também contratou o meia Giovanni, um ícone dos anos 90 para os torcedores, e ainda conta com o jovem Neymar, promessa de bom futebol. Depois da ótima idéia, “bastou” juntar os representantes das três gerações em uma linha do tempo, recurso pouco utilizado pelos jornais e apreciado demais pelos leitores. Parabéns.

Jornalismo também precisa de boas histórias

De Gilberto Dimenstein, colunista e integrante do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, dia 18 de janeiro, em São Paulo: “A gente aprende desde a faculdade que a boa notícia é a má notícia. Isso é muito bom, mas, ao mesmo tempo, a imprensa não desenvolve a mesma capacidade de descobrir coisas que funcionam. Os leitores querem saber quem  é uma pessoa legal, quem é o ministro legal.”

Esse é um dos vícios, mais dos jornalistas do que do jornalismo. Algumas iniciativas tentam remar contra essa corrente, A rádio CBN até hoje alerta o ouvinte para a boa notícia do dia. O jornal Folha de S. Paulo, até alguns anos atrás, também chamava a atenção do leitor para uma boa notícia do dia na capa do diário. Se o princípio do jornalismo é relatar, parece que há algo estranho – na verdade, um evidente desequilíbrio.Teleférico

Principalmente nas democracias, quando a imprensa assume um papel fundamental de fiscalização das ações e comportamentos das autoridades públicas e da sociedade, o noticiário direciona os holofotes para o desvio, para a má conduta, para o fato negativo. Parece uma maldição: notícia boa não é notícia. Surge até um certo constrangimento quando as redações precisam evidenciar um fato positivo.

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. O fato de uma empresa, autoridade ou administração pública ser noticiada aos leitores e ouvintes por causa de uma boa ação em um dia não significa que o jornalista foi ludibriado se caso aparecerem fatos negativos relacionados a comportamentos antiéticos ou corruptos no futuro. Tudo merece ser reportado, partindo de alguns princípios que regem o jornalismo, como atualidade, abrangência e impacto do acontecimento.

Um caso típico está relacionado ao anúncio, início de construção e inauguração de obras públicas. Na maioria das vezes, o jornalismo prefere evidenciar as intenções e estratégias políticas por trás da obra em vez de reportar os benefícios dela para a população. Uma obra incipiente traz perspectivas de melhoria no bem-estar das pessoas. Uma obra pronta significa ganhos imediatos para as pessoas. Se, no entanto, as promessas mostrarem-se vazias, ao jornalismo cabe mostrar isso também.

Nesse contexto, merece elogio a reportagem publicada pela Folha de S. Paulo no dia 25 de janeiro. Mostra como funcionará uma das obras em construção no Morro do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de uma obra que trará enormes benefícios para a população e o jornalismo a ignorava propositalmente. Sim, o teleréfico é obra de governantes que toda hora são autores de manobras e atos duvidosos. Mas também traz benefícios à sociedade – e isso precisa ser mostrado.

Sites que eu recomendo, para todos os gostos

Sempre que achar interessantes, publicarei sugestões de sites.

CPJ – Cursos e Palestras sobre Jornalismo: Diversas dicas quase diárias sobre cursos sobre jornalismo, técnicas de redação, produção em TV, assessoria de imprensa, conceitos de economia, fotografia e jornalismo literário, esportivo e digital, entre muitos outros temas.

Blog do Amarildo: Charges e caricaturas, principalmente sobre comportamento  e cotidiano.

Charges do Bruno: Mais charges, com foco nos assuntos presentes na cobertura da imprensa.

Bolachas de cerveja: As famosas bolachas para copos de cerveja, dividos por países do mundo inteiro.

Distintivos: Para quem gosta de futebol, os distintivos que estampam as camisas de equipes do mundo inteiro.

Nova década, futuro? Cadê? O Calvin tem razão?

 

Nova década

Fonte: O Estado de S. Paulo, 25 de janeiro.

Melhor matéria da semana desvenda gestão pífia em plano de drenagem em SP

Apurar o desempenho de uma política pública nunca é fácil – exceto nos casos em que o resultado é sabidamente favorável ao gestor público. Mas é uma das principais e mais benéficas tarefas do jornalismo. Usualmente, as administrações públicas, em todos os níveis e regiões do Brasil, fazem de tudo para esconder ou fornecer parcialmente os dados que os jornalistas – e consequentemente a sociedade – desejam conhecer.FSP Plano drenagem 88

A tarefa fica ainda mais desafiadora quando esse trabalho precisa ser feito concomitantemente a tragédias ou situações de enorme prejuízo ou desconforto à população. Imagine um gestor público fornecer informações que demonstram a falta de investimento ou atenção em obras de manutenção de aeroportos após um acidente com aeronaves e com dezenas de vítimas. A melhor reportagem da semana enquadra-se nesse porta-retrato.

A equipe da Folha de S.Paulo conseguiu apurar informações a respeito do desempenho do mal conduzido plano de drenagem na cidade de São Paulo de 1988, que previa dezenas de novos reservatórios de água de chuva – os famosos piscinões – na capital paulista. Com boas infografias, a matéria deixou claro que a quantidade enorme de alagamentos em diversos bairros da cidade é também fruto da incompetência da administração pública, que não implementou nem metade do que anunciou naquele ano.

O trabalho ficou ainda mais difícil porque não é fácil conseguir tais informações em um momento em que a popularidade do prefeito despenca há dois meses por causa dos transtornos que as chuvas têm impingido aos moradores e motoristas de São Paulo.