Arquivo do mês: dezembro 2009

A melhor reportagem da semana: os mortos-vivos do INSS

A melhor reportagem da semana entre 20 e 26 de dezembro foi publicada pelo Correio Braziliense, no dia 21. O mérito do jornalista Lúcio Vaz foi trazer, em primeira mão, os resultados de uma investigação do Tribunal e Contas da União (TCU) que apurou e constatou desvio de recursos do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).  Correio 21dez

Os fraudadores sacavam pensões devidas a pessoas já mortas, cujos cadastros não tinham sido cancelados pelo órgão público. Depois de narrar dois casos, o jornal aponta: “Esses são apenas dois exemplos entre um milhão de benefícios em que foi identificada a emissão de crédito após a morte do titular, numa despesa total de R$ 2 bilhões. Mas nem todos os valores foram retirados.”

E continua: “Alguns ficaram parados nas contas. Em 503 mil desses pagamentos, o tribunal apurou que há mais possibilidades de o dinheiro depositado no banco ter sido sacado indevidamente, o que corresponde a um prejuízo potencial de R$ 1,67 bilhão. São os ‘mortos-vivos’ do INSS.”

Avatar será um dos filmes mais rentáveis de todos os tempos?

Só se fala de Avatar, o novo filme de James Cameron, cuja estréia mundial ocorreu em 18 de dezembro. A produção tem proporções gigantescas, tanto no orçamento quanto nas perspectivas de receitas com bilheteria.

Avatar A The Economist, a partir de três fontes diferentes, publicou os valores atualizados de arrecadação e de custos de produções cinematográficas e conseguiu a lista das maiores bilheterias do cinema de todos os tempos.

Avatar pode não ter dificuldade para entrar na lista dos mais comercializáveis. Faturou, no mundo inteiro, de 18 a 22 de dezembro, US$ 301,3 bilhões só com bilheteria (US$ 109,5 milhões no mercado interno dos EUA). Mas pode não ser campeão de rentabilidade, pois teve orçamento superior a US$ 300 milhões.

A infografia da The Economist é muito boa – aliás, gosto muito das artes da revista, pois são  fáceis de entender e trazem muita informação. Apesar de não organizar os filmes pelos mais rentáveis, é fácil comparar o custo e a bilheteria obtida por filme para visualizar os que mais renderam lucros (só com bilheteria).

Ao analisar três fontes diferentes, The Economist deve ter tido critérios para optar por um dado em detrimento de outro quando divergentes. No Box-Office Mojo, por exemplo, Titanic aparece com faturamento de US$ 600,8 milhões no mercado norte-americano e de US$ 1,84 bilhão em todo o mundo. Na infografia, que analisa somente a bilheteria que cada filme conseguiu nos EUA, os valores são maiores.

Teste do SAC: alguma empresa passa bem por ele?

O Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) tem uma nova regulamentação, milhares de vezes negligenciada pelas empresas. O Decreto Federal 6.523/08 deixa claro quais são direitos e deveres para aquelas que prestam algum tipo de serviço regulamentado pelo poder público federal.

Serviços bastante utilizados, como comércio eletrônico, compra de móveis e muitos outros, estão fora do decreto, pois não são regulamentos pelo governo federal. Nesta época de Natal, quando as compras crescem vertiginosamente, surgem os problemas. Se nos dias comuns as datas de entregas são descumpridas, com o crescimento da demanda os problemas explodem. Vira caos.

Valeria uma boa reportagem para estes dias de poucas pautas nos cadernos de cidades e de economia uma investigação rápida a respeito dos serviços não regulamentados que estão dando dor de cabeça aos consumidores. Os jornalistas poderiam rapidamente, por meio de redes próprias de contatos e por amigos, identificar pessoas que fizeram compras – pela internet ou fisicamente nas lojas – e a entrega já supera os prazos de entrega.

Ao mesmo tempo, os jornalistas poderiam testar os principais serviços de atendimento ao consumidor, verificando se há linhas disponíveis, tempo médio de espera e qualidade do atendimento.

Nesta época, o consumidor fica desamparado, sobretudo porque já sabe que reclamar não resolve. Quando reclama, fica sem resposta, sem a entrega ou sem qualquer coisa solicitada, pois as empresas sabem que os procedimentos para o consumidor recorrer na Justiça são burocráticos e a resposta, quando há, leva muito tempo. Isso desestimulando a abertura de processos e alimentando um círculo vicioso no qual quem perde é quem está com a razão.

A pauta me veio à cabeça por cusa da minha experiência própria com a loja de comércio eletrônico Submarino. O pedido, atrasado em quatro dias úteis, não tem nem previsão de entrega. Acredito que as gigantes desse setor, como Americanas, Wall Mart, além do Sumarino. A lista ode incluir outros varejistas presentes no comércio eletrônico.

Fiz uma busca rápida pelos portais de notícias da Folha Online (Folha de S. Paulo) e Estadão.com (O Estado de S. Paulo). Não há menção a qualquer reportagem sobre este assunto. A busca não incluiu o espaço reservado para queixas dos consumidores. Então, que tal uma matéria ouvindo uns dez consumidores e testando o cumprimento dos prazos das empresas e o SAC delas?

O Brasil e o brasileiro uma década depois

O dia 31 de dezembro será o último dia de mais uma década – a primeira do atual século. Os leitores, geralmente, gostam de apreciar reportagens que analisem e resumam as transformaçãoes ocorridas em um período longo, de forma que eles LatinPanel 2mesmos possam se inserir mentalmente na matéria e comparar a evolução do País e do brasileiro médio com a dele próprio no período analisado. O dia 31 de dezembro, por isso, é bastante propício para este tipo de abordagem na imprensa.

Emissoras de rádio e TV, jornais impressos e portais na internet poderiam buscar as mudanças ocorridas no País em dez anos. Avaliar padrão de consumo, acesso a LatinPanel 1serviços públicos, taxas de criminalidade, natalidade, progressos na educação e na renda das pessoas e muitos outros indicadores. Essas informações estão  acessíveis em diversos órgãos oficiais e também em empresas privadas de análise de dados, como Nielsen e LatinPanel, que foram fontes para reportagens pequenas e descontextualizadas hoje, dia 22 de dezembro, na Folha de S. Paulo e outros jornais país adentro.

Ainda há tempo da imprensa organizar uma pauta neste sentido – e apresentá-la aos leitores, ouvintes, internautas ou Nielsen 1telespectadores, quando possível, em infografias e com personagens que sejam exemplos vivos das transformações. Na virada do ano, quando o noticiário usualmente fica chato, essa pode ser uma boa sugestão de pauta.

Além de fontes na área de consumo, como Nielsen e da LatinPanel, poderiam ser procuradas outras fontes que mensuram dados sobre o comportamento político (Tribunal Superior Eleitoral – TSE), educacional (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP) e urbanos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE), entre outras. A Anatel também divulgou que houve crescimento vertiginoso no acesso a telefones celulares, internet e TV por assinatura. É uma pauta que vale a pena.

Tem algo errado neste País

Duas reportagens: um furo de O Correio Braziliense, uma boa constatação de O Liberal. A reportagem do jornal do Distrito Federal traz em primeira mão que Correio 21dezuma auditoria do TCU constatou desvio de R$ 1,67 bilhão pagos pelo INSS a 503 mil mortos. Há caso de benefício depositado durante 20 anos em conta de pessoa falecida.  Já a matéria do diário paraense deixa claro, logo no título, que punição não é o forte nem para corrupção nem para a violência no campo.

O Liberal 21dez

Tempos atrás, O Globo também evidenciou a falta de impunidade no Brasil. Mostrou que a corrupção, mesmo quando descoberta, não leva os culpados para a cadeia.

A impunidade, como já foi bastante estudado, é uma das principais causas da persistência da corrupção, da criminalidade e da violência em níveis elevados. Quando o risco de se dar mal é baixo ou nulo, elas avançam.

A melhor reportagem da semana

OESP 17dez marajá É de Vannildo Mendes, jornalista de O Estado de S. Paulo, na minha opinião, a melhor reportagem da semana. Foi publicada dia 17 de dezembro. Leva o prêmio por alguns motivos:

1) Consegue fugir de uma amarra crescente no jornalismo hoje em dia: o excesso de notícias cuja origem é a fonte oficial ou política. Todos os dias são coletivas e OESP 17dez marajá2mais coletivas de imprensa em Brasília, para tudo quanto é plano, resolução ou decreto. Tem jornalista obrigado a participar de quatro coletivas por dia. Não tem como oferecer ao leitor um jornalismo dinâmico, com relevância e qualidade.

2) A pauta foi muito bem pensada e cumprida. Em todos os jornais, há um controle sobre os acontecimentos mais importantes em cada dia do passado, de forma que os leitores são costumeiramente contemplados com reportagens informando sobre o aniversário de vários anos de OESP 17dez marajá3um fato ou de uma personalidade. O aniversário de 20 anos da eleição de Fernando Collor, em 17 de dezembro passado, foi apenas a fagulha para uma boa reportagem.

3) Nada como ler uma boa história – e a reportagem é uma bela história. Narra como vive hoje o funcionário público considerado como marajá número um do Brasil, em Alagoas, que serviu como alavanca para alçar Collor para a Presidência da República.

4) Saiba mais. A matéria, ao resgatar um livro lançado sobre um personagem principal de um dos mais importantes fatos políticos da história do Brasil recente, oferece ao leitor, mesmo que subliminarmente, caminhos para que ele possa conhecer, por si só, mais informações. Basta procurar o livro.

5) O personagem principal falou. Depois de 20 anos, o marajá número um do Brasil de 1989 deu, em uma entrevista, respostas sem hipocrisia.

Os estudantes asiáticos e as universidades americanas

Os asiáticos, na concorrência pelo mercado mundial, principalmente contra os Estados Unidos, mandam seus filhos para estudar exatamente nas escolas e universidades americanas. Mais de 40% dos 106.123 estudantes estrangeiros que estudaram naquele país durante o período acadêmico de 2007-08 eram oriundos de três países asiáticos: China, Índia e Coréia do Sul.Economist Graphic

Além disso, a migração de estudantes de países asiáticos para os EUA cresce mais rapidamente. Basta verificar que, no topo da lista que mede a taxa de crescimento por ano e por país de chegada de estudantes estrangeiros, são novamente os asiáticos que figuram nas primeiras posições.

A infografia é simples, mas extremamente eficaz em transmitir muita informação.

A mais importante lição do jornalismo

O Novo em Folha, o blog do programa de treinamento da Folha de S. Paulo, publicou hoje depoimentos extremamente importantes, que poderiam ser entregues para alunos de jornalismo de todo o País. A idéia começou com a sugestão de sites com comunidades para jornalistas freelancer. Em seguida, a idéia melhorou. A coordenação do blog pediu ao jornalista Marcelo Soares que narrasse sua experiência como freelancer. Surgiu um depoimento rico e abrangente, uma espécie de roteiro para aqueles que querem trilhar o mesmo caminho.

Da interação com o público, surgiu uma idéia ainda melhor: porque não perguntar para os editores da Folha o que eles esperam de um jornalista freelancer. Fiquei muito feliz em ler que o que mais os impressiona é quando o pretendente se apresenta com um currículo e uma boa sugestão de pauta junto. Eu sou daqueles que considero a pauta o exercício mais importante do joronalismo. Separei os trechos de dois dos convidados entrevistados pelo Novo em Folha. Vale a pena beber na fonte e ler os depoimentos completos.

MARCO AURÉLIO CANÔNICO, editor do Folhateen:

"Eu espero de um frila basicamente o mesmo que espero de um repórter contratado: boas sugestões de pauta (novas, quentes, bem pensadas e desenvolvidas, com sugestões de personagens a ouvir, foto, arte etc.), texto bem apurado e bem redigido, agilidade, profissionalismo (inclusive para gravar entrevistas, guardar registros de sua apuração, pegar autorizações quando for necessário, cumprir os prazos acordados etc.) (…)”

BRUNA MARTINS FONTES, editora interina de Suplementos (Folhinha, Veículos, Empregos, Negócios, Imóveis, Construção): 

“A gente sempre pede que ela mande um trabalho que fez ou uma sugestão de pauta bacana. Mas a gente prefere a sugestão de pauta, que dá pra avaliar a potencialidade daquela pessoa. Porque se você manda um trabalho eu não vou saber se aquilo foi editado, se foi você que propôs, se você pautou a foto, se escreveu bem etc.”

“A gente vai valorizar o plano. Será que você conseguiria ser capaz de bolar uma reportagem legal? É um exercício interessante pra quem ainda não está trabalhando. Se você tem tempo, algum tema te interessa, pode se sentar e pensar melhor em como transformaria numa pauta interessante para um determinado veículo.”

“Tem que demonstrar para o editor como que você pretende fazer a pauta. Em vez de dizer: "Vamos falar de problema de trânsito?", dizer: "Olha, tem um estudo que mostra que o trânsito …" Essa pessoa tem que fazer uma pré-pauta, já vender para o editor com a pesquisa sobre o tema, mostrando que não saiu na Folha, com fontes.”

Da praga ao luxo

BolsaEstá em O Globo, hoje, dia 17. Antes considerado uma praga, campim vira matéria-prima para artigos de extremo bom gosto. São exemplos de produção e consumo sustentáveis, mesmo que não sejam feitos na escala supersônica que o consumo mundial demanda.

Dom Viçoso, em Minas Gerais, tinha 3.118 habitantes em 2004. Em 2007, havia 3.020. Caxambu tinha 23.482 habitantes em 2004 e diminuiu para 21.009 três anos depois. Em Soledade de Minas, a população era de 5.271 pessoas em 2004 e cresceu para 5.518 em 2007.

A bolsa aí em cima gera empregos para 150 mulheres, como informa O Globo. Não sei o preço dela, mas em Caxambu, um portal vende alguns modelos com um preço bem acessível: R$ 15. Não testei a compra, nem pelo telefone nem pelo sistema online.

O jeitinho chinês e o jeitinho brasileiro de investir

O Valor Econômico publicou reportagem no dia 15 de dezembro com dados interessantes. Mostra mais um projeto de infraestrutura colossal construído pelo governo chinês, desta vez um gasoduto, com todo o gigantismo peculiar: capacidade absurda, prazo curtíssimo, tudo muito grande e rápido.  

– Capacidade do gasoduto: ultrapassa 16 milhões m3/dia já em 2010 e atingirá 110 milhões m3/dia em 2015. Gasoduto China 2

– Construído por mais de 8.000 trabalhadores ao longo dos últimos 27 meses. Foi inaugurado dia 14 de dezembro.

– O novo gasoduto tem mais de 6.300 km de extensão, percorrendo território chinês (4.500 km), mas também outras nações asiáticas que não são ditaduras, como Turcomenistão/Uzbequistão (1.800 km).

No Brasil, em dezembro deste ano, dois leilões de concessão – rodadas de licitação nas quais o poder público oferece para empresas a oportunidade de construir empreendimentos de infraestrutura – foram cancelados nas áreas de petróleo, gás natural e energia elétrica. O motivo: demora em obter as licenças ambientais, segundo os ministérios. Os estudos de cinco projetos de hidrelétricas de porte pequeno e médio foram entregues ao órgão ambiental, para análises e aprovação, em maio de 2004. Após mais de cinco anos de idas e vindas entre instituições públicas e empresas responsáveis pelos estudos, as licenças ambientais iniciais, que atestam que o empreendimento é viável do ponto de vista ambiental, ainda não tinham sido liberadas.

Esses dois cenários – lá na Ásia e aqui no Brasil – me fez lembrar de uma reportagem bastante abrangente que li na revista inglesa The Economist tempo atrás a respeito da impetuosidade dos programas chineses de investimento em infraestrutura. O título, inclusive, falou de ostentação: os chineses estavam construindo projetos gigantescos, fazendo o triplo que outros países e a própria China já tinham feito em metade do tempo.  Alguns números e fatos:

– Entre 2001 e 2005, a China investiu em rodovias e ferrovias mais do que nos 50 anos anteriores.

– Entre 2006 e 2010, os planos chineses incluíam investimento de US$ 200 bilhões, quatro vezes mais do que nos cinco anos anteriores.

– A China espera ter 70.000 km de rodovias de lata velocidade até 2020, fazendo  em 17 anos o que o Ocidente demorou 40 anos. No fim de 2007, já tinham 53.600 km.

– Entre 2006 e 2010, o plano de infraestrutura colocou como objetivo construir 300.000 km de estradas rurais, um aumento de 50% ante  a extensão do sistema então vigente.

– A China tinha 78.000 km de linhas ferroviárias no fim de 2007. Um plano de 2004 tinha como objetivo aumentar essa extensão para 100.000 até 2020. Em 2008, a meta foi ampliada para 120.000 km e prazo foi encurtado para 2015.

– A movimentação de passageiros nos aeroportos chineses aumentou de 7 milhões de pessoas em 1985 para mais de 185 milhões de pessoas em 2007. No fim de 2006, a China tinha 142 aeroportos. Em 2004, divulgou a meta de adicionar ao sistema mais 97 aeroportos até 2020.

O que me chamou a atenção foi a explicação por um oficial de um instituto do ministério chinês de comunicações, que cuida também dos sistemas de transporte. Ele lembrou que os projetos e planos de investimento não sofrem restrições de qualquer tipo na China, como ocorre na América – diga-se Ocidente. Uma vez que o plano é feito, ele é executado. Não precisa de audiência pública ou qualquer tipo de aval ou debate prévio. E concluiu: “Democracia sacrifica a eficiência.” É o jeitinho chinês de fazer as coisas.