Arquivo do mês: novembro 2009

Com boa pauta, jornais impressos dão espetáculo de jornalismo

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O Globo, 8 de novembro de 2009: fonte exclusiva, bom planejamento e enorme contribuição para melhorar a sociedade

É comum ler que o fim está próximo para os jornais impressos. Há muitas matérias chatas, baseadas no jornalismo declaratório ou oficial. As autoridades públicas sabem que muito daquilo que dizem acaba sendo publicado nos jornais no dia seguinte. Usam e abusam desse expediente. Os jornalistas, da mesma forma, sabem que acabam sendo reféns desse caminho unidirecional da notícia.

Algumas redações, no entanto, estão dando sucessivas provas do contrário aos apocalípticos. Uma rápida leitura pelos principais impressos brasileiros mostra que o jornal impresso está longe do fim. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, no dia 18 de outubro, que a quantidade de juízes investigados aumentou 653% em 2009 – e o ano ainda nem terminou. A punição máxima, quando há, no entanto, é a aposentadoria com direito ao salário.

Já a Folha de S. Paulo, dia 18 de outubro, divulgou que o brasileiro paga a mais pela conta de eletricidade há sete anos – inclusive, com conhecimento das autoridades. A matéria, de Agnaldo Brito, fez com que diversas instituições tivessem debater o problema e prometer publicamente solução à sociedade ao longo de duas semanas.

Selecionei mais dois casos do que considero jornalismo impresso revigorado. O jornal O Globo foi autor de duas das matérias que considerei mais atraentes e importantes para o cidadão. Na mais recente, em 8 de novembro, mostrou que deputados, que já se ausentam do Congresso nas segundas e sextas-feira para ‘atender as bases eleitorais’, agora também o fazem em dias ‘normais’.

Depois de receber uma dica, o jornalista Evandro Éboli e os fotógrafos Ailton de Freitas e Roberto Stuckert se posicionaram no plenário da Câmara dos Deputados e no aeroporto de Brasília para mostrar que diversos parlamentares chegavam bastante cedo, entre 8 e 9 horas, digitavam a senha de presença e seguiam depois para as cidades de origem sem risco de desconto no contracheque. Em uma quinta-feira, quase cem deputados foram flagrados nessa artimanha, fotografados registrando presença na primeira hora do dia no plenário e minutos depois já no aeroporto. Na Câmara, todos com expressão assustada. No aeroporto, sorrisos. A reportagem forçou líderes parlamentares e o pesidente da casa a darem explicações.

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Reportagem exclusiva mostra que carteira assinada é raridade em cidades com grande concentração de benefícios do Bolsa Família

No dia 25 de outubro, O Globo já havia publicado outra matéria interessante. Nas cidades com maior cobertura do Bolsa Família, emprego formal é raridade. Os repórteres Regina Alvarez e Sérgio Marques analisaram dados disponíveis em 85 dos 100 municípios com maior cobertura pelo programa, somando 1 milhão de habitantes e 259 mil domicílios. Descobriram que o benefício chega a 71% das famílias, enquanto somente 1,3% das pessoas têm emprego formal. As histórias colhidas em campo mostraram municípios com apenas quatro empregos formais falhas para fazer o benefício chegar até as famílias, abrindo espaço para aproveitadores. Especialistas e autoridades tiveram de debater sobre como fazer com que programas de renda não criem dependência e como garantir que as contrapartidas – geralmente relacionadas a educação e saúde – sejam cumpridas.

As reportagens acima deixam claro que há um nicho importante para o jornal impresso, que ganha musculatura a partir do momento em que apresenta temas ainda encobertos. Matérias exclusivas, que ultrapassem um pouco o excesso de declarações e informações de autoridades públicas e políticos em geral, asfaltam um bom caminho para a sobrevida dos impressos. Esse comportamento, um planejamento milimétrico, boas fontes, histórias bem contadas, ótimas fotografias e infográficos bem organizados estão oferecendo um verdadeiro espetáculo de jornalismo para o cidadão.

Jornais acertam em ouvir a sociedade civil ‘desorganizada’

Estadão

Reportagem do Estadão trouxe cidadãos comuns como especialistas

Costumo insistir que o jornalismo em geral escuta sempre fontes da chamada sociedade civil organizada – quaisquer pessoas que representem instituições sindicais, políticas, empresariais e sociais. Faz parte, pois há maior chance dessas fontes serem especialistas em algum assunto. O problema é que essas fontes usualmente têm um discurso pronto que muitas vezes está dissociado do que realmente pensa seus representados. Esses discursos são geralmente bem construídos, bem pensados, bem formulados, imaginados para atingir um determinado objetivo. São peças importantes da estratégia de comunicação dos entrevistados com os grupos que representam e com os públicos como governos, partidos políticos ou setores empresariais. Faz parte e é assim que o jogo é jogado.

A imprensa, enquanto elaborando as reportagens, não deve evitar essas fontes ‘organizadas’, sob o risco de divulgar opiniões e análises de especialistas e fontes sem representatividade. No entanto, precisa abrir mais espaço para as fontes da ‘sociedade civil desorganizada’ – as pessoas comuns. Esse caminho depende de um bom planejamento já na pauta.

Recentemente, o jornal O Estado de S.Paulo deu um bom exemplo de como esse tipo de jornalismo pode ser feito. No dia 30 de outubro de 2009, para analisar a revisão de metas administrativas da Prefeitura do Município de São Paulo, o jornalista Vitor Hugo Brandalise decidiu ouvir cidadãos comuns, que foram convidados com antecedência a analisar e opinar sobre o assunto. A diagramação ajudou a produzir uma bela reportagem – e um belo exemplo de jornalismo.

Justiça seja feita: O Globo, do Rio de Janeiro, vem há um bom tempo trazendo a opinião do cidadão comum para dentro das reportagens, com diagramação diferenciada para dar visibilidade a ela. O leitor é estimulado a opinar sobre assuntos do dia-a-dia no portal do jornal. Depois, algumas dessas mensagens são escolhidas para a versão impressa. Outro bom exemplo de como o jornal pode se reinventar.