Reportagens que valem a pena ler e guardar


Estadão e Folha de S. Paulo trouxeram, recentemente, dois bons exemplos de CAR (computer assisted reporting). No primeiro caso, aFSO 11nov a repórter Renée Pereira, especializada na cobertura de infraestrutura, descobriu que uma parte considerável dos já insuficientes recursos reservados pelo governo federal para investir em novas obras são devolvidos ao Tesouro Nacional por incapacidade da máquina pública de gastar o dinheiro. No segundo, o repórter Eduardo Scolese, acostumado a acompanhar as idas e vindas da política e da gestão das políticas públicas em Brasília, cruzou dados de duas fontes diferentes para descobrir que cidades que mais desmatam apresentam melhora momentânea na economia local, mas os índices  de atendimento em saúde e educação pioram.

Da forma como foram feitas, as duas reportagens são boas aulas de jornalismo. Primeiro, porque evidenciam a vontade dos repórteres em revelar fatos a partir dados mensuráveis e de novas abordagens, além das fontes oficiais. Segundo, porque deram ao leitor um bom retrato de assuntos que estavam na agenda do dia – investimento em infraestrutura e desmatamento. Por fim, com evidências nas mãos, ofereceram às fontes usualmente entrevistadas – autoridades governamentais, líderes empresariais, acadêmicos e organizações ambientais – a oportunidade de analisarem e opinarem em cima de fatos concretos. Gráficos e infografias facilitaram o entendimento por parte do leitor. As duas matérias, merecidamente, saltaram para as respectivas capas dos diários.

Na Folha de S. Paulo, Scolese analisou um banco de dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que lista, em números, a área desmatada nos municípios brasileiros. Organizou-o de acordo com os mais desmatadores. Depois, cruzou as informações com outro banco de dados, desta vez da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), que enumera indicadores de desenvolvimento social – educação, saúde, emprego e renda – em todas as cidades brasileiras. Ambos os bancos de dados analisam o período de 2000 a 2006, o que permitiu grandes descobertas que podem ser lidas na reportagem publicada no dia 11 de novembro de 2009, dois dias antes do governo federal anunciar, com festa, o menor índice de desmatamento da história do País.

Já Renée organizou um banco de dados colhendo informações que lhe interessavam do Siafi (Sistema Integrado de OESP 13novAdministração Financeira), disponibilizado pelo Tesouro Nacional. A intenção era verificar como estava a execução do orçamento de investimentos dos ministérios federais responsáveis por obras de infraestrutura. Descobriu que, entre 2004 e 2008, o governo federal deixou de investir R$ 20 bilhões em novas obras, pois só conseguiu reservar para gasto R$ 52 bilhões de um orçamento de R$ 72 bilhões aprovado pelo Congresso Nacional para o setor no período. Publicada no dia 13 de novembro, no auge da cobertura da imprensa sobre as causas de consequências do maior blecaute de energia elétrica da história brasileira, a matéria mostrou que, mesmo quando há recursos, o poder público não consegue gastá-los integralmente.

Pela vanguarda e ineditismo, ambas as reportagens merecem ser lidas e guardadas.

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