Arquivo do mês: novembro 2009

Em tempo real, Twitter entra na reta final do Brasileirão de futebol

Neste exato momento, o Twitter ajuda novamente jornalistas e a sociedade em geral a acompanhar o desdobramentos de alguns acontecimentos, em tempo real.

Desta vez, é no mundo do futebol. No dia e no horário que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) julga dois dos mais importantes processos nesta reta final do Campeonato Brasileiro 2009, o site do STJD, que transmite o julgamento fato por fato, em texto corrido, quase que em tempo real, acabou saindo do ar por problemas técnicos.

A equipe de jornalistas e comunicação que divulga as decisões do tribunal não pensou duas vezes: avisou aos twitters que passaria, então, devido aos problemas técnicos, a transmitir a evolução dos julgamentos pelo Twitter.

O exemplo mostra como o Twitter pode ter uma importante função, mesmo que boa parte das mensagens divulgadas pela ferramenta possam ser futilidades ou fatos particulares da vida dos usuários, com relevância restrita somente a eles e a poucos amigos deles.

Logicamente, há muitos outros exemplos a respeito da versatilidade e utilidade pública do Twitter. Durante o gigantesco blecaute no fornecimento de energia elétrico em 18 estados brasileiros, brasileiros comuns usaram o twitter, principalmente por celulares com baterias ainda carregadas, para informar em quais localidades o fornecimento havia sido interrompido.

Outro exemplo de bom uso vem de especialistas diversos, como Sérgio Amadeu, sociólogo, professor e pesquisador na área de software livre, que usualmente publica mensagens em tempo real diretamente dos seminários que participa, compartilhando o conhecimento para aqueles que não puderam ir aos eventos.

Com o passar do tempo, o Twitter deve prevalecer como uma importante ferramenta para o auxilio de diversos perfis de profissionais e usuários – inclusive para aqueles que querem acompanhar se um tribunal de justiça vai aceitar ou não os pedidos de um time de futebol.

Estão roubando de tudo, até minha calçada!

É, eu pensei que já tinha visto de tudo nesta vida. Estão roubando de tudo mesmo. Esta foto aí é da minha calçada, hoje, por volta de 19h30. Reparem na pedra de ardósia do centro: ela não existe mais. Hoje de manhã, ela estava lá. Tudo bem que a grama nã está tão bem cuidada, mas não precisava de tudo isso. A vida deve estar mesmo difícil – estão roubando até calçadas!

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Brasil busca esperteza para crescer, diz Giannetti

Eduardo Giannetti é um economista que aborda a economia de uma forma diferente, principalmente porque analisa a psicologia dos agentes econômicos – empresas e pessoas – na tomada de decisões. No nosso caso, sempre analisa a forma de ser do brasileiro, o que inclui pensar da cultura, na tradição, na origem e no sentido da formação econômica do Brasil – para abordar as causas e conseqüências. Afinal, economia não é uma ciência exata.

É um dos mais ouvidos economistas brasileiros nos últimos anos. Separei alguns trechos de uma entrevista de página inteira que Giannetti concedeu para o jornalista Sergio Lamucci, do Valor Econômico, no dia 18 de novembro. Vale ler a matéria inteira, acessível por clipping no portal do Ministério da Fazenda.

Em setembro de 2004 e novamente em 2006, repórter e economista já haviam se encontrado para entrevistas. São momentos distintos da economia e as respostas mostram os desafios postos em cada um. Apenas uma coincidência consta nas três: a incapacidade brasileira de melhorar a educação e a formação do capital humano.

“Boa parte da nossa história econômica (…) se resume na tentativa de encontrar maneiras de contornar a restrição imposta pelo nosso baixo nível de poupança e encontrar o crescimento sustentado. Nós tivemos dois episódios emblemáticos na busca desse atalho do crescimento sem dor.”

“Juscelino contaminou a imaginação brasileira com a aspiração de desenvolvimento acelerado, mas não quis apresentar a conta, e encontrou a inflação como um meio de viabilizar um forte adicional ao processo de formação de capital. Como a conta só apareceu depois do seu mandato, ele ficou com essa pecha de grande presidente.”

“Geisel imaginou que o Brasil era uma ilha de prosperidade num mar turbulento. Enquanto o mundo inteiro se ajustava, amargando uma recessão diante da nova realidade do choque do petróleo, Geisel aproveitou a abundância de capital externo (…) para alavancar a formação de capital aqui. Fez o II PND e transformou o Brasil numa ilha de turbulência num mar de prosperidade.”

“Acho que está se criando uma situação parecida com a do Juscelino e a do Geisel.”

“A história econômica do Brasil nos últimos 50 anos é a história de um país com a vocação do crescimento, mas sem a vocação da poupança, que tenta desesperadamente contornar essa restrição por meio de algum tipo de esperteza, que logo se mostra limitada.”

“A nossa formação cultural e as nossas raízes históricas são muito desfavoráveis a essa visão de longo prazo, a essa capacidade de agir no presente tendo em vista o futuro. Isso aparece na previdência, no meio ambiente, na educação, na infraestrutura urbana.”

“No momento, o Brasil quer aumentar o gasto público, o consumo e o investimento, e não quer saber de poupar. Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo.”

“Por mais que eu me esforce, eu não vejo (melhorias na educação nos últimos anos). Outro viés da imaginação brasileira é confundir desenvolvimento com formação de capital físico, com industrialização e urbanização. Eu nunca vi aparecer no Brasil um Juscelino do capital humano, alguém que incendiasse a imaginação do país em torno de um projeto de levar a sério a capacitação da população.”

Reportagens que valem a pena ler e guardar

Estadão e Folha de S. Paulo trouxeram, recentemente, dois bons exemplos de CAR (computer assisted reporting). No primeiro caso, aFSO 11nov a repórter Renée Pereira, especializada na cobertura de infraestrutura, descobriu que uma parte considerável dos já insuficientes recursos reservados pelo governo federal para investir em novas obras são devolvidos ao Tesouro Nacional por incapacidade da máquina pública de gastar o dinheiro. No segundo, o repórter Eduardo Scolese, acostumado a acompanhar as idas e vindas da política e da gestão das políticas públicas em Brasília, cruzou dados de duas fontes diferentes para descobrir que cidades que mais desmatam apresentam melhora momentânea na economia local, mas os índices  de atendimento em saúde e educação pioram.

Da forma como foram feitas, as duas reportagens são boas aulas de jornalismo. Primeiro, porque evidenciam a vontade dos repórteres em revelar fatos a partir dados mensuráveis e de novas abordagens, além das fontes oficiais. Segundo, porque deram ao leitor um bom retrato de assuntos que estavam na agenda do dia – investimento em infraestrutura e desmatamento. Por fim, com evidências nas mãos, ofereceram às fontes usualmente entrevistadas – autoridades governamentais, líderes empresariais, acadêmicos e organizações ambientais – a oportunidade de analisarem e opinarem em cima de fatos concretos. Gráficos e infografias facilitaram o entendimento por parte do leitor. As duas matérias, merecidamente, saltaram para as respectivas capas dos diários.

Na Folha de S. Paulo, Scolese analisou um banco de dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que lista, em números, a área desmatada nos municípios brasileiros. Organizou-o de acordo com os mais desmatadores. Depois, cruzou as informações com outro banco de dados, desta vez da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), que enumera indicadores de desenvolvimento social – educação, saúde, emprego e renda – em todas as cidades brasileiras. Ambos os bancos de dados analisam o período de 2000 a 2006, o que permitiu grandes descobertas que podem ser lidas na reportagem publicada no dia 11 de novembro de 2009, dois dias antes do governo federal anunciar, com festa, o menor índice de desmatamento da história do País.

Já Renée organizou um banco de dados colhendo informações que lhe interessavam do Siafi (Sistema Integrado de OESP 13novAdministração Financeira), disponibilizado pelo Tesouro Nacional. A intenção era verificar como estava a execução do orçamento de investimentos dos ministérios federais responsáveis por obras de infraestrutura. Descobriu que, entre 2004 e 2008, o governo federal deixou de investir R$ 20 bilhões em novas obras, pois só conseguiu reservar para gasto R$ 52 bilhões de um orçamento de R$ 72 bilhões aprovado pelo Congresso Nacional para o setor no período. Publicada no dia 13 de novembro, no auge da cobertura da imprensa sobre as causas de consequências do maior blecaute de energia elétrica da história brasileira, a matéria mostrou que, mesmo quando há recursos, o poder público não consegue gastá-los integralmente.

Pela vanguarda e ineditismo, ambas as reportagens merecem ser lidas e guardadas.

Imprensa prova que pode melhorar a sociedade

Poucas autoridades públicas conseguem manter uma convivência profícua e transparente com a imprensa, o que inclui saber reconhecer problemas existentes e reportados pela mídia. O próprio presidente da República já demonstrou inúmeras vezes antipatia com os jornalistas. Já disse que não lê jornais nem revistas porque isso lhe dá azia. Já disse que aconselha a todo presidente se manter longe de jornais nos fins de semana. Já disse que formadores de opinião da imprensa estão em extinção. Já disse diversas outras coisas. Mas, dia após dia, a imprensa vem mostrado força e importância em ajudar a transformar o País em algo melhor.

Recente exemplo pôde ser conferido na última quinta-feira, dia 12 de novembro. A quantidade de parlamentares trabalhando normalmente na Câmara de deputados foi maior. Isso só foi possível porque o jornal O Globo flagrou dezenas deles usando de uma artimanha antiética para burlar o dia de trabalho sem desconto em folha de pagamento no fim do mês. Aproveitavam que o painel de presença era aberto uma hora antes das sessões plenárias para, antecipadamente, sem alarde, registrar presença e logo em seguida ir para o aeroporto para viajar para os respectivos estados.

A matéria causou constrangimento e forçou a presidência da Câmara a corrigir, por regra, os desvios de comportamentos dos parlamentares. Agora, o painel de presença só é aberto na hora em que a sessão é iniciada, às 9h. Antes, abria uma hora antes.

Vale lembrar que matéria recente publicada na Folha de S. Paulo mostrou que os consumidores pagaram a mais e indevidamente, por sete anos, pela conta de eletricidade. As autoridades foram forçadas a explicar a falha e indicar alternativas ou pretensões para resolver o problema.

Bem feito, o jornalismo pode desvendar problemas e maus comportamentos de autoridades públicas e ajudar a transformar positivamente a sociedade e o meio político. Assuntos como esses são, sem dúvida, uma boa leitura de domingo.

Imagem que resume décadas do futebol brasileiro

Apito

A arte acima, que o portal GloboEsporte.com começou a utilizar para informar a repercussão das polêmicas da arbitragem no campeonato brasileiro de 2009, resume décadas de histórias mal contadas. Vale mais que mil teses de mestrado.

O desaforo que deu origem à série ocorreu no jogo Palmeiras e Sport, em São Paulo, dia 11 de novembro, quando o juiz apitou um impedimento inexistente, a defesa do time visitante parou inteira seguindo o apito do árbitro. O jogador palmeirense continuou a jogada por instinto e mandou a bola para o fundo da rede. O árbitro, que havia apito impedimento, olhou para o bandeira, que não apontou irregularidade. Final da história: o árbitro, segundos depois, validou o gol e gerou muita reclamação do Sport, que ganhava de 2 a 1 e poderia adiar, se mantivesse a vitória, o calvário do rebaixamento por mais uma ou outra rodada.

Esse erro grosseiro ocorre poucos dias de uma das maiores polêmicas desta edição do campeonato, quando um gol de um atacante palmeirense foi anulado injustamente. O Palmeiras, brigando pela liderança e pelo título, perdeu para o Fluminense, brigando para não descer para a segunda divisão. O São Paulo aproveitou a confusão e assumiu a liderança do campeonato faltando quatro rodadas para o fim.

Isso sem contar mais polêmicas entre Palmeiras e Corinthians, Cruzeiro e Palmeiras, Flamengo e São Paulo, Botafogo e Flamengo, que ora ajudam um time, ora outro. O título corre o risco de ser levado para os bastidores, como quase ocorreu nas edições de 2008 e 2005, principalmente esta última, quando o Corinthians ficou com o título depois de recuperar pontos perdidos em jogos já disputados, perdidos e repetidos após a imprensa divulgar que um dos principais árbitros brasileiros estava em acordo ilícito com empresas de apostas. Os tribunais de justiça desportiva pediram para repetir todos os jogos apitados por tal árbitro infrator, tanto os que ele assumiu ter trabalhado de forma ilícita quanto aqueles que ele não tentou alterar o resultado. Pior: o tribunal decidiu mandar voltar somente jogos da Série A, a primeira divisão do campeonato brasileiro, ignorando os jogos do mesmo árbitro na Série B e no Campeonato Paulista de 2005.

Lamentável, mas é o Brasil que o desenho do artista do GloboEsporte.com bem conseguiu traduzir em um desenho que vale por teses e teses de mestrado.

Charge tentava explicar mudanças no Ministério de Minas e Energia

Recordar é viver. O jornal Folha de S. Paulo publicou no dia 20 de janeiro de 2008, um dia antes da posse do atual ministro de Minas e Energia, o então senador, Edison Lobão, uma charge explicando as mudanças que estavam por vir.

posse MME

Charge da Folha de S.Paulo, 20 de janeiro de 2008