Arquivo do mês: outubro 2009

O poder das decisões dos indivíduos no crescimento da economia

Entre março e outubro de 2008, decidi estudar em um curso preparatório cujo objetivo é deixar os estudantes de economia e áreas afins em “ponta de bala” para disputar uma vaga de mestrado acadêmico em Economia. Como tenho aprendido conceitos econômicos na prática, fiz o cursinho para tentar aprender um pouco mais, já que estava fora de cogitação cursar uma nova graduação além das de Jornalismo e História que já tenho. Foram mais de 300 horas de carga horária nas quais os professores pisaram no acelerador para ensinar assuntos e conceitos estudados em cinco anos de graduação. Uma loucura. Lembro que em muitas aulas de matemática, os professores enchiam lousas e lousas de fórmulas sem escrever um único número!

Nas diversas vezes que o coordenador foi à sala de aula para conversar e orientar a turma, em uma das ocasiões ele relatou uma informação, fruto da experiência dele de anos e anos organizando cursos preparatórios para as provas de mestrado. Foi mais ou menos assim: “Toda vez que a economia está em crescimento, a procura pela prova de mestrado – e, conseqüentemente, pelo curso preparatório – diminui. E vice-versa. As explicações não são muito claras.”

Naquela ocasião, me lembro que pensei: as conclusões são claríssimas. Se a economia cresce ou está em fase de crescimento, há mais vagas de trabalho disponíveis e há espaço para todos – mais bem qualificados e não tão bem qualificados. As empresas funcionam em ritmo mais acelerado e exigem um ritmo mais frenético de empregados. Assim, há mais tempo alocado no trabalho e menos tempo disponível para cursos e aprendizado. E vice-versa.

Hoje, o The New York Times informa, em reportagem de primeira página, que estatísticas preliminares apontam que mais da metade dos cerca de 640.000 empregos criados ou mantidos nos Estados Unidos graças aos pacotes de estímulo econômico do governo Obama estão relacionados com o mercado de educação. A área de educação demandou aproximadamente 325.000 novos profissionais, contra somente 80.000 novos postos de trabalho vindos da construção civil, apesar de a maior parte dos US$ 787 bilhões injetados pelo poder público na economia americana terem como destino os investimentos.

Claro que números podem ser torturados e dar a resposta que o analista deseja. Mas eles fazem pensar que, mesmo em um momento que a mão forte do Estado parece ganhar a simpatia dos governantes, políticos e da população, por causa da mais recente crise financeira internacional, os indivíduos ainda são mais ágeis que o Estado para fazerem as coisas acontecerem – neste caso, criar empregos. O mercado – esse ser disforme que costuma ser imaginado como um lugar no qual as vontades e decisões de compra e venda de empresas e pessoas comuns se processam – parece não estar tão morto assim.

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Uma interessante história de RAC no futebol

As editorias de esporte dos principais jornais do Brasil utilizam RAC para apoiar as coberturas diárias sobre futebol. Atualmente, equipes inteiras de profissionais acompanham as partidas de futebol para anotar a quantidade de passes, cruzamentos, assistências e chutes errados e certos, entre outros fundamentos, para sustentar e apoiar as reportagens que serão lidas nos dias seguintes.

O blog do jornalista Victor Birner, no entanto, está fazendo um interessante e inovador jornalismo de precisão com números sobre futebol, aliando precisão, velocidade na mensuração de dados e pautas extremamente oportunas, atuais e pertinentes que fogem do lugar-comum. Graças à paciência de Leandro Iamin, jornalista que colabora com Birner no blog, as mais intrigantes polêmicas do futebol estão ganhando números a partir de bancos de dados que os próprios jornalistas estão criando em um inédito exercício de RAC no Brasil. Explico em dois lances.

Em um jogo em Recife, onde o Náutico recebeu o São Paulo, na 27ª rodada do Brasileirão 2009, a polêmica envolveu a atuação do árbitro que, apesar de atuar em um jogo sem violência, deu 15 cartões amarelos e 4 vermelhos. O time paulista conseguiu virar o jogo com dois jogadores a menos e a vitória incomum ganhou repercussão – bem como os critérios do árbitro. Victor Birner e Leandro Iamin inovaram e decidiram analisar todas as rodadas já jogadas de 11 diferentes campeonatos do mundo para mensurar o comportamento dos árbitros quanto aos cartões amarelos e vermelhos. Os números teriam de desvendar uma questão central: qual é a quantidade de cartões dados em outros campeonatos do mundo, mais ou menos violentos que o brasileiro? Se os brasileiros estão sendo excessivos no rigor, os números mostrariam – e mostraram. Os jornalistas destacaram, numa matéria inédita na imprensa brasileira, a média de cartões em campeonatos como português, espanhol, francês, argentino, entre outros, até a última rodada disputada em cada um deles. Os árbitros brasileiros sagraram-se campeões na quantidade de cartões, tanto amarelos quanto vermelhos. A abrangência da apuração evita possíveis críticas de os jornalistas compararem estilos diferentes de futebol, pois é impossível que o campeonato brasileiro seja mais violento que todos os outros dez que foram também alvo da análise.

Na mais recente matéria envolvendo RAC, Birner e Iamin conseguiram dar números às polêmicas envolvendo os passes à frente que muitos goleiros dão quando das cobranças de pênaltis. Novamente, um jogo envolvendo o São Paulo, na 29ª rodada, quando o time paulista perdeu no Maracanã para o Flamengo, de virada, por 2 a 1. A polêmica surgiu quando a equipe do Morumbi ainda vencia por 1 a 0 e houve marcação de pênalti para o Flamengo, que o desperdiçou na cobrança. O juiz, no entanto, mandou voltá-la, alegando que Rogério Ceni deu um passo à frente, o que não é permitido pelas regras. Os números de Birner e Iamin os ajudaram a fugir do lugar-comum na análise da rodada. Eles identificaram todos os jogos do campeonato nos quais houve penalidades marcadas, convertidas e perdidas. Mensuraram em quais houve nova cobrança pós o batedor desperdiçá-la. Mais do que debater emocionalmente, os jornalistas mostraram, pelos números, que diferentes juízes têm comportamentos diferentes. A falta de padrão – ou excesso de rigor – dos árbitros estava sendo determinante para alguns times serem beneficiados (quando perdem a cobrança e o juiz determina uma nova, depois convertida na repetição) ou prejudicados (no caso, quando o goleiro defende e o juiz anula a defesa). Vale a pena conferir.

É ‘nóis’ na Abraji

Depois de muitos anos de namoro, tornei-me associado da Abraji (associação de jornalismo investigativo). Sempre gostei muito de montar meus próprios bancos de dados para elaborar pautas exclusivas e diferenciadas e também de fuçar em bancos de dados públicos. Essas técnicas são conhecidas como RAC (Computer Assited Reporting), algo como a prática de elaborar reportagens a partir do uso de bancos de dados com uma grande quantidade de informações. No Brasil, essas técnicas são conhecidas como jornalismo de precisão. Desde que assisti uma de palestra na USP uns dez anos atrás, comecei, por conta própria, a fuçar em bancos de dados públicos, a montar meus próprios bancos de dados e a organizar as constatações em gráficos. Tenho alguns projetos-piloto bem-sucedidos – um dia conto aqui alguns deles. Agora, quero aprender mais e aperfeiçoar minhas técnicas de apuração, organização e apresentação. Vamos ver no que vai dar.

Atiradeira e vidraça

Gostei muito da matéria publicada pelo jornal Folha de S.Paulo (Jornalistas são arrogantes e não querem ser melhorados, em 22/set/2009), fruto de uma sabatina com o ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva. Ele teve coragem de falar muitas verdades constrangedoras e polêmicas. Quem, nas redações, já não pensou o mesmo? Na minha opinião, o melhor trecho é o seguine: “Os jornais, a imprensa, os jornalistas são arrogantes, prepotentes, não gostam de ouvir críticas em nenhuma hipótese e não querem ser melhorados. Se a imprensa não se autorregular, ela vai ser regulada por alguém e será pior para ela. Por que o ombudsman, que é uma forma modesta de autorregulação, não se dissemina no país e no mundo? Porque os jornais e a imprensa não gostam de ser reguladas nem por si próprias. A autorregulação é uma premência para a liberdade de imprensa.” Os jornalistas estão acostumados a ser atiradeira – nunca vidraça.

Torcedor sofrido

O Atlético Mineiro seria o 35º colocado numa lista de clubes europeus com maior público médio no campeonato. O Flamengo estaria abaixo de 40º. Os clubes brasileiros, somente nos últimos dois anos, acordaram para a necessidade de fidelizar torcedores, Mas a qualidade dos estádios ainda é muito ruim. Falta conforto, falta segurança e falta acesso. Os programas de sócio-torcedor ainda não cumprem essa função, pois eles oferecem descontos por uma anuidade do torcedor. O que os clubes brasileiros precisam é vender carnês para toda a temporada. Bons preços e bons produtos são fundamentais. Por isso, é preciso ter bons times, para empolgar o torcedor. Os estádios, depois de reformados para a Copa do Mundo, serão uma atração a parte e certamente levarão mais torcedores aos jogos. Mas é certo que a mentalidade dos dirigentes sempre será um risco para a manutenção e a perenidade de boas políticas com o torcedor, que ainda não é visto como um cliente pelos clubes. Basta lembrar que, recentemente, um torcedor corinthiano, depois de cobrar do presidente do clube algumas melhorias do acesso aos banheiros do Pacaembu, foi incentivado pelo dirigente a não comparecer mais no estádio e a acompanhar o time pela TV, Fala sério, né!

Sociedade civil desorganizada

Os jornais (e a imprensa em geral) estão muito viciados em escutar sempre as mesmas fontes, sempre as mesmas pessoas – a chamada sociedade civil organizada. Que tal dar um pouco mais de espaço para a sociedade civil desorganizada? Já faz algum tempo que as multidões ou as pessoas simples podem contribuir para dar um tom mais realista às notícias.