Explicação que não explica – e leitor não compreende o que só o especialista descobriu

Jargões 1

O Ministério do Trabalho e Emprego divulgou, como de costume, estatísticas referentes ao nível de emprego – desta vez, para o mês de janeiro. Na maioria das vezes, os jornalistas relatam os números e colhem a opinião de especialistas para interpretar as informações recém-divulgadas. É um exercício rotineiro, quase mecânico, mas não deveria.

Jargões 2O trecho em destaque exemplifica a importância desse exercício. Certamente, a explicação do especialista faz sentido para ele e para poucos leitores que conhecem os jargões e a dinâmica da economia.

Qual é o tipo de ajuste? Porque é necessário fazer este tipo de ajuste? O que significa uma queda forte na margem?

A análise do especialista deve estar correta e deve fazer sentido, mas o leitor comum, que compõe a maior parcela da audiência, fica sem compreender o que só o especialista enxergou.

Com vários repórteres em torno da mesma matéria, leitor ganha análise exclusiva no dia seguinte

Reportagem bastante interessante do jornal O Estado de S. Paulo mostra as principais medidas dos estados brasileiros para contornar as dificuldades macroeconômicas previstas para 2015 e depois.

A pauta é simples: identificar as perguntas que precisam ser respondidas, procurar todos os gestores estaduais e, a partir das respostas, identificar as tendências e explicá-las ao leitor.

Esse tipo de pauta apresenta sempre dois desafios para a mídia, principalmente para empresas jornalísticas com abrangência regional ou local: colher as respostas em todas as fontes necessárias para montar o quadro geral. Nem sempre há profissionais disponíveis para tamanho esforço. Na reportagem realizada pelo O Estado de S. Paulo, o diário informa que nove jornalistas participaram da cobertura.

OESP Administrações estaduais

Enquanto a coleta das respostas e um trabalho mais braçal, a formulação das perguntas é uma atividade mais intelectual e demanda planejamento de um profissional que conheça bastante o tema a ser investigado. Isso evita desperdício de esforço das equipes em campo.

O resultado é sempre recompensador, pois análises semelhantes costumam ser feitas por consultorias ou universidades, mas após algum tempo. Na imprensa, o resultado é entregue bem mais rápido.

Exemplos de pautas – Há inúmeras pautas que podem ser desenvolvidas com essa estrutura e tipo de planejamento. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, dividida em subprefeituras para aproximar a administração pública da população, repórteres podem perguntar em cada autoridade local qual é a principal obra a ser realizada em 2015. Esse tipo de informação certamente é de interesse do leitor.

O mesmo pode ser feito nos estados, novamente: identificar qual será a principal obra ou ação pública do governador em cada cidade. O resultado pode ser editado em um mapa, nas páginas impressas ou na versão online, e produzida por jornais regionais.

Para saber mais:

Outra boa pauta que inclui o trabalho de diversos repórteres em diversas localidades, desta vez para os cadernos de esportes, é identificar algumas perguntas que podem ser respondidas na abertura dos campeonatos estaduais de futebol.

Porque filmar uma imagem?

Essa é a pergunta que guia o trabalho do francês Vincent LuaVincent Lua, que viaja pelo mundo com uma mochila, um laptop e uma câmera, filmando música e rituais do mundo que as pessoas raramente vêem.

Aqui, apenas uma fração da longa palestra dele no TED Talks, realizado no Rio de Janeiro, em outubro de 2014:

“Por que nós filmanos (algo)? Eu ainda estava lá (ainda penso nessa questão). Eu realmente acredito que o cinema nos ensina a ver. A forma como nós mostramos o mundo vai mudar a forma como vemos este mundo, e nós vivemos em um momento em que os meios de comunicação estão fazendo um terrível, terrível trabalho ao representar o mundo: violência, extremistas, apenas eventos espetaculares, apenas simplificações da vida cotidiana. Eu acho que nós estamos filmando para recuperar certa complexidade. Para reinventar a vida hoje em dia, nós temos de fazer novas formas de imagens. E isso é muito simples.”

Crise hídrica em São Paulo: qual gráfico mostra com mais eficiência o quanto há ainda de água?

O Estado de São Paulo – bem como toda a Região Sudeste, outros estados brasileiros e outros países – atravessam uma crise hídrica causada por índices pluviométricos muito abaixo da média histórica, de forma atípica. Cidadãos e especialistas questionam as causas, buscam os culpados e tentam decifrar os sinais para descobrir o que acontecerá no futuro próximo.

Dois gráficos recentes publicados no jornal O Estado de S. Paulo tentam explicar ao cidadão o quanto ainda há de água nos reservatórios que atendem a Região Metropolitana no entorno da capital paulista. É a fotografia do momento.

Publicado no dia 27 de setembro pelo biólogo Fernando Reinach, um gráfico simples mostra o quanto há ainda de água no Sistema Cantareira, um conjunto de represas ao norte da capital paulista e que atende a maior parte dos cidadãos da Região Metropolitana.

Fernando Reinach - Cantareira

A grande ajuda que este gráfico traz é mostrar a quantidade de água em números absolutos, expressos pela unidade de medida “milhões de metros cúbicos”. Mais que isso: o gráfico apresenta o volume de água no primeiro dia de cada ano desde 1983, o que permite às pessoas descobrirem o quanto se gastou de água no ano anterior, considerando as entradas e as saídas de água no Sistema Cantareira. Dá a sensação que há ainda uma quantidade de água suficiente para aguentar mais alguns meses de extrema estiagem e rezar para que chova.

Outros infográficos mostram o volume de água em cada sistema em unidade de medida proporcional, expresso na forma de “% da capacidade do sistema”. Assim, o número mostra ao leitor o quanto há de água em relação ao quanto cabe de água em cada sistema.

Siatuação dos mananciais 22out14

O ponto alto deste infográfico, publicado dia 22 de outubro, é permitir que o leitor tenha uma noção mais completa de quanto há de água em todos os reservatórios que atendem a Região Metropolitana de São Paulo e qual reservatório atende quais cidades e bairros.

No entanto, passa a impressão, errada, que o Sistema Cantareira vai secar completamente em poucos dias, mesmo que haja informação de rodapé noticiando que é preciso considerar as cotas do volume morto – uma reserva de água que está abaixo das tubulações que captam a água do reservatório por gravidade (sem uso de bombas).

O ideal seria ter, em um gráfico como o elaborado por Fernando Reinach, a quantidade de água disponível e a capacidade de todos os reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos) que atendem a Região Metropolitana de São Paulo.

Ou então elaborar uma infografia com múltiplos gráficos pequenos, um para cada reservatório, um do lado do outro, mostrando a capacidade e a quantidade de água disponível nos reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos).

Como lembra o biólogo, em boa parte do artigo publicado dia 27 de setembro, o governo paulista – e nenhum governo, pela regra – não pode perder a batalha de comunicação: precisa ser transparente e claro, para evitar ruídos e informação equivocada. A imprensa também não pode perder essa batalha.

Para atrair jovens, mídia tem de pautar o dia a dia deles com seriedade – como fez o New York Times

A notícia é do The New York Times, que fez questão de dar grande visibilidade para o assunto na capa do jornal, dia 31 de agosto.

Na cidade de Seattle, mais de 11 mil jovens se reuniram em um ginásio de basquete para participar de um evento onde as equipes disputam competição de videogame.

Eventos como esse, não necessariamente com este porte e nível de organização, acontecem nas principais capitais globais, mas a imprensa não acompanha. Um dos motivos é porque a mídia está automaticamente orientada para cobrir política e economia, sobretudo o que os governos divulgam.

Essa reportagem do diário norte-americano é um bom exemplo para mostrar que é possível fazer, no dia a dia, matérias para públicos mais jovens, sem segregá-las em cadernos que são publicados uma vez por semana.

Os jovens têm, tal qual os adultos, inúmeras atividades diárias relacionadas com a escola, com entretenimento e com esportes. Se a imprensa quer atrair e fidelizar esse público, precisa condicionar os repórteres a procurar estes assuntos e cobri-los sem os infantilizar.

The New York Times - 31ago2014 - Cópia

Veja mais:

Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens.

Jornal impresso pode interagir mais com leitores – e outros textos corrrelatos.

A opinião das crianças nas reportagens: como garantir naturalidade e precisão?

pedidos das crianças

Em 14 de outubro de 2012, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem a partir da opinião de crianças entre 9 e 12 anos. Elas sugeriam o que o próximo prefeito da cidade de São Paulo – que viria a ser Fernando Haddad – deveria fazer ou ter como prioridade.

Nada de errado em escutar a opinião das crianças. No entanto, por mais que o texto do jornal explicite claramente que os jovens foram ouvidos por jornalistas, há muitas dúvidas se a opinião é realmente dos entrevistados mirins ou dos repórteres.

Esse problema é comum em matérias desse tipo, que tentam tornar adultos mais pueris ou fazer das crianças pessoas mais maduras do que elas realmente são. É comum os pais enviarem a opinião dos filhos aos jornais – o que geralmente resulta na opinião dos pais, induzindo os filhos a darem respostas automáticas e condicionadas para perguntas nas quais eles nunca pensaram. Não raramente, os pais respondem, de forma velada, pela criança, para que ela fale aquilo que os pais considerem adequado.

Mesmo que a redação do jornal tenha enviado repórteres para entrevistar as crianças, a deturpação da opinião pode facilmente acontecer, mesmo sem intenção. Quando o jovem entrevistado não formula boas respostas – ou respostas esperadas pelo entrevistador – as perguntas podem facilmente ser feitas de forma a ajudar a criança a responder aquilo que o jornal gostaria de ouvir. Não há maldade. A pauta precisa ser cumprida.

É claro que pode ter ocorrido a coincidência de a reportagem ter encontrado várias crianças com elevado grau de opinião política, sintonizadas com os problemas da cidade e as obrigações de um prefeito – e que saibam expressar as ideias de forma clara. Mas matérias desse tipo deixam sempre a dúvida: será que as frases reproduzidas expressam realmente a opinião das crianças? Ou as ideias dos pais ou repórteres?

A solução é dar transparência ao método de apuração das informações. Explicar ao leitor quantas entrevistas foram feitas, quantas foram aproveitadas e quantas foram descartadas. Reproduzir com mais fidelidade as frases ditas pelas crianças, na ordem natural que elas foram formuladas e pronunciadas, corrigindo, eventualmente, somente erros de sintaxe.

Além disso, às crianças poderia ser dada a oportunidade de pensar sobre os temas centrais da reportagem antecipadamente, em uma aula especialmente formulada pelos professores. Assim, os jovens entrevistados estariam mais extrovertidos e seguros para responder, com naturalidade, as perguntas dos repórteres.

Se você fosse um governante, em qual área aplicaria escassos recursos disponíveis?

Três reportagens e artigos publicados nos últimos meses na imprensa suscitam uma pergunta: se você fosse um governante, em qual política pública empregaria recursos disponíveis?

O valor é hipotético: R$ 50 milhões à disposição no caixa. Esse dinheiro pode ser suficiente para construir uma obra ou suficiente para resolver um problema somente parcialmente, atenuá-lo ou manter uma política pública por um ano.

(       ) Programa parcial para custear o trabalho de assistentes sociais com a obrigação de visitar famílias pobres para ampliar o potencial de aprendizagem de crianças pobres já desde os primeiros meses de vida delas, como mostra essa reportagem da revista Exame.

(       ) Programa parcial para diminuir a incidência de diarreia em famílias em situação de extrema pobreza e pouca infraestrutura de saneamento básico, como explica Drauzio Varella em artigos publicados no jornal Folha de S. Paulo em 2010 e em 2013.

(       ) Ação emergencial para amenizar a grave crise financeira da Universidade de São Paulo (USP), que, em 2013, comprometeu 105% do orçamento disponível com pagamento de salários de funcionários e professores, conforme mostra reportagem da Folha de S. Paulo,  trabalhadores estes que permaneceram em greve por mais de cem dias porque a universidade informou que não havia recursos para aumento salarial em 2014.

(       ) Projeto, com começo, meio e fim, para construir ciclovias na avenida Paulista e em outras avenidas, garantindo o direito de pessoas que querem utilizar bicicletas para deslocamentos diários pela cidade de São Paulo, conforme mostra reportagem na Folha de S. Paulo.