Ruy Castro: Lição importante de jornalismo

Não há nada a ser dito para complementer o tema do artigo de Ruy Castro, publicado no jornal Folha de S. Paulo. Trechos:

Ao assistir a filmes americanos envolvendo jornalistas, você notará a diferença. Quando surge na tela uma entrevista coletiva, cada repórter dispara uma única pergunta, curta e objetiva, que obriga o entrevistado a fazer “gulp” antes de responder. Agora compare isto com as coletivas dos nossos repórteres de TV.

Quase todos começam por uma pergunta tão longa quanto desnecessariamente explicativa. Não satisfeitos, engatam um “…e também”, e emendam uma segunda pergunta, tão longa e explicativa quanto. Ao fim desta, o telespectador já não se lembra do que ele perguntou primeiro. Mas o entrevistado se lembra muito bem —e só responde àquela que lhe for mais confortável ou conveniente. Vê-se isso ao fim de todos os jogos de futebol, nas coletivas dos treinadores. Tem-se visto isso nas coletivas dos ministros do governo, políticos e autoridades em geral.

Você dirá que, no cinema, a dinâmica do roteiro faz com que os jornalistas tenham de parecer objetivos —não há tempo nem espaço para conversa fiada em cena. E eu responderei que esta é uma cláusula pétrea entre os repórteres americanos. “Perguntas curtas, frases curtas, palavras curtas —e uma pergunta de cada vez”, aprendi em Nova York com Alain De Lyrot, antigo editor do “Herald Tribune”. “Se o entrevistado não responder a contento, você repica a pergunta.”

Nossos repórteres não se contentam com uma pergunta simples e direta. Sentem-se na obrigação de enriquecê-la, desdobrá-la e acrescentar elementos. Com isso, só a tornam confusa, e o entrevistado responde o que quiser.

O uso civil de drones se espalha e ganha relevância – no jornalismo e em outros setores econômicos

Uma ilustração simples que circulou pela internet mostra a disseminação do uso de drones civis – pequenas aeronaves não tripuladas. Um dos setores que estuda diversas maneiras de aplicar os drones é o jornalismo e diversas universidades, sobretudo nos Estados Unidos, faz pesquisas nessa área.

Mas outros setores econômicos prometem ganhos de eficiência e redução de custos relevantes com a aplicação de drones nas atividades comerciais rotineiras.

Em tese, qualquer atividade humana que possa ser substituída por pequenas máquinas voadoras facilmente manobráveis torna-se um mercado potencial para os drones civis.

Tanto quanto para deslocamentos aéreos, os drones oferecem potencial de eficiência para ações de reconhecimento, por portarem facilmente câmeras e outros dispositivos capazes de coletarem dados emcampo.

Drones uses - Cópia 

Saiba mais:

Os aviões não tripulados foram úteis para a mídia cobrir as recentes manifestações populares?

Explicação que não explica – e leitor não compreende o que só o especialista descobriu

Jargões 1

O Ministério do Trabalho e Emprego divulgou, como de costume, estatísticas referentes ao nível de emprego – desta vez, para o mês de janeiro. Na maioria das vezes, os jornalistas relatam os números e colhem a opinião de especialistas para interpretar as informações recém-divulgadas. É um exercício rotineiro, quase mecânico, mas não deveria.

Jargões 2O trecho em destaque exemplifica a importância desse exercício. Certamente, a explicação do especialista faz sentido para ele e para poucos leitores que conhecem os jargões e a dinâmica da economia.

Qual é o tipo de ajuste? Porque é necessário fazer este tipo de ajuste? O que significa uma queda forte na margem?

A análise do especialista deve estar correta e deve fazer sentido, mas o leitor comum, que compõe a maior parcela da audiência, fica sem compreender o que só o especialista enxergou.

Com vários repórteres em torno da mesma matéria, leitor ganha análise exclusiva no dia seguinte

Reportagem bastante interessante do jornal O Estado de S. Paulo mostra as principais medidas dos estados brasileiros para contornar as dificuldades macroeconômicas previstas para 2015 e depois.

A pauta é simples: identificar as perguntas que precisam ser respondidas, procurar todos os gestores estaduais e, a partir das respostas, identificar as tendências e explicá-las ao leitor.

Esse tipo de pauta apresenta sempre dois desafios para a mídia, principalmente para empresas jornalísticas com abrangência regional ou local: colher as respostas em todas as fontes necessárias para montar o quadro geral. Nem sempre há profissionais disponíveis para tamanho esforço. Na reportagem realizada pelo O Estado de S. Paulo, o diário informa que nove jornalistas participaram da cobertura.

OESP Administrações estaduais

Enquanto a coleta das respostas e um trabalho mais braçal, a formulação das perguntas é uma atividade mais intelectual e demanda planejamento de um profissional que conheça bastante o tema a ser investigado. Isso evita desperdício de esforço das equipes em campo.

O resultado é sempre recompensador, pois análises semelhantes costumam ser feitas por consultorias ou universidades, mas após algum tempo. Na imprensa, o resultado é entregue bem mais rápido.

Exemplos de pautas – Há inúmeras pautas que podem ser desenvolvidas com essa estrutura e tipo de planejamento. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, dividida em subprefeituras para aproximar a administração pública da população, repórteres podem perguntar em cada autoridade local qual é a principal obra a ser realizada em 2015. Esse tipo de informação certamente é de interesse do leitor.

O mesmo pode ser feito nos estados, novamente: identificar qual será a principal obra ou ação pública do governador em cada cidade. O resultado pode ser editado em um mapa, nas páginas impressas ou na versão online, e produzida por jornais regionais.

Para saber mais:

Outra boa pauta que inclui o trabalho de diversos repórteres em diversas localidades, desta vez para os cadernos de esportes, é identificar algumas perguntas que podem ser respondidas na abertura dos campeonatos estaduais de futebol.

Porque filmar uma imagem?

Essa é a pergunta que guia o trabalho do francês Vincent LuaVincent Lua, que viaja pelo mundo com uma mochila, um laptop e uma câmera, filmando música e rituais do mundo que as pessoas raramente vêem.

Aqui, apenas uma fração da longa palestra dele no TED Talks, realizado no Rio de Janeiro, em outubro de 2014:

“Por que nós filmanos (algo)? Eu ainda estava lá (ainda penso nessa questão). Eu realmente acredito que o cinema nos ensina a ver. A forma como nós mostramos o mundo vai mudar a forma como vemos este mundo, e nós vivemos em um momento em que os meios de comunicação estão fazendo um terrível, terrível trabalho ao representar o mundo: violência, extremistas, apenas eventos espetaculares, apenas simplificações da vida cotidiana. Eu acho que nós estamos filmando para recuperar certa complexidade. Para reinventar a vida hoje em dia, nós temos de fazer novas formas de imagens. E isso é muito simples.”

Crise hídrica em São Paulo: qual gráfico mostra com mais eficiência o quanto há ainda de água?

O Estado de São Paulo – bem como toda a Região Sudeste, outros estados brasileiros e outros países – atravessam uma crise hídrica causada por índices pluviométricos muito abaixo da média histórica, de forma atípica. Cidadãos e especialistas questionam as causas, buscam os culpados e tentam decifrar os sinais para descobrir o que acontecerá no futuro próximo.

Dois gráficos recentes publicados no jornal O Estado de S. Paulo tentam explicar ao cidadão o quanto ainda há de água nos reservatórios que atendem a Região Metropolitana no entorno da capital paulista. É a fotografia do momento.

Publicado no dia 27 de setembro pelo biólogo Fernando Reinach, um gráfico simples mostra o quanto há ainda de água no Sistema Cantareira, um conjunto de represas ao norte da capital paulista e que atende a maior parte dos cidadãos da Região Metropolitana.

Fernando Reinach - Cantareira

A grande ajuda que este gráfico traz é mostrar a quantidade de água em números absolutos, expressos pela unidade de medida “milhões de metros cúbicos”. Mais que isso: o gráfico apresenta o volume de água no primeiro dia de cada ano desde 1983, o que permite às pessoas descobrirem o quanto se gastou de água no ano anterior, considerando as entradas e as saídas de água no Sistema Cantareira. Dá a sensação que há ainda uma quantidade de água suficiente para aguentar mais alguns meses de extrema estiagem e rezar para que chova.

Outros infográficos mostram o volume de água em cada sistema em unidade de medida proporcional, expresso na forma de “% da capacidade do sistema”. Assim, o número mostra ao leitor o quanto há de água em relação ao quanto cabe de água em cada sistema.

Siatuação dos mananciais 22out14

O ponto alto deste infográfico, publicado dia 22 de outubro, é permitir que o leitor tenha uma noção mais completa de quanto há de água em todos os reservatórios que atendem a Região Metropolitana de São Paulo e qual reservatório atende quais cidades e bairros.

No entanto, passa a impressão, errada, que o Sistema Cantareira vai secar completamente em poucos dias, mesmo que haja informação de rodapé noticiando que é preciso considerar as cotas do volume morto – uma reserva de água que está abaixo das tubulações que captam a água do reservatório por gravidade (sem uso de bombas).

O ideal seria ter, em um gráfico como o elaborado por Fernando Reinach, a quantidade de água disponível e a capacidade de todos os reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos) que atendem a Região Metropolitana de São Paulo.

Ou então elaborar uma infografia com múltiplos gráficos pequenos, um para cada reservatório, um do lado do outro, mostrando a capacidade e a quantidade de água disponível nos reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos).

Como lembra o biólogo, em boa parte do artigo publicado dia 27 de setembro, o governo paulista – e nenhum governo, pela regra – não pode perder a batalha de comunicação: precisa ser transparente e claro, para evitar ruídos e informação equivocada. A imprensa também não pode perder essa batalha.

Para atrair jovens, mídia tem de pautar o dia a dia deles com seriedade – como fez o New York Times

A notícia é do The New York Times, que fez questão de dar grande visibilidade para o assunto na capa do jornal, dia 31 de agosto.

Na cidade de Seattle, mais de 11 mil jovens se reuniram em um ginásio de basquete para participar de um evento onde as equipes disputam competição de videogame.

Eventos como esse, não necessariamente com este porte e nível de organização, acontecem nas principais capitais globais, mas a imprensa não acompanha. Um dos motivos é porque a mídia está automaticamente orientada para cobrir política e economia, sobretudo o que os governos divulgam.

Essa reportagem do diário norte-americano é um bom exemplo para mostrar que é possível fazer, no dia a dia, matérias para públicos mais jovens, sem segregá-las em cadernos que são publicados uma vez por semana.

Os jovens têm, tal qual os adultos, inúmeras atividades diárias relacionadas com a escola, com entretenimento e com esportes. Se a imprensa quer atrair e fidelizar esse público, precisa condicionar os repórteres a procurar estes assuntos e cobri-los sem os infantilizar.

The New York Times - 31ago2014 - Cópia

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