O que define um personagem interessante para o jornalismo?

FSP - Clube Mato GrossoNa prática do jornalismo, é rotina se deparar com personagens que podem ser considerados ótimos para um perfil ou para serem protagonistas de matérias inusitadas. Mas é um desafio também, pois não há uma cartilha que dê certeza ao repórter se o entrevistado é ou não, realmente, detentor de atributos que vão arrebatar inquestionavelmente a atenção do leitor.

Um personagem ímpar não é necessariamente uma pessoa que venceu após superar obstáculos enormes em um ambiente de condições desfavoráveis. Pode ajudar, mas não necessariamente conduz a uma grande matéria. Há sempre um risco de a reportagem dar contornos de heroísmo a uma história de vida igual à de outros milhões de pessoas.

FSP- Rei dos acessosPerseverança, foco, obstinação, sucesso e outras muitas características heroicas – o que nos romances costuma funcionar – não necessariamente serão ingredientes de sucesso para um perfil no jornalismo. Boas seções de obituários sempre trazem tais histórias.

O inusitado pode ser um atributo essencial. Outro é conseguir carimbar no personagem entrevistado um apelido que apele para a memória do leitor. O “Neymar do Nordeste” ou o “Lampião do século XIX” também ajudam a engrandecer a um personagem.

Política e esporte são áreas férteis para o surgimento de personagens inusitados, que atingiram marcas ou metas audaciosas e podem ser protagonistas de matérias interessantes a partir de apelidos que facilitam alçá-los ao topo em meio aos iguais ou competidores.

O jornal Folha de S. Paulo conseguiu localizar dois personagens interessantes em pouco tempo para reportagens sobre futebol. Uma relatou as características e opiniões do “rei do acesso“, um treinador de futebol de times pequenos e fora dos eixos de maior audiência que é o campeão de desempenho no desafio de fazer times subirem de divisões.

Outra matéria narrou a trajetória até agora bem-sucedida de uma equipe de futebol – o Cuiabá – em uma região sem tradição nem grandes feitos na modalidade. Vale a leitura.

 

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.

 

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Greves e Justiça do Trabalho: siga a trilha da matéria

Reportagem produzida pela Folha de S. Paulo dia 18 de fevereiro sobre a mais recente greve dos funcionários do Metrô de São Paulo – desta vez por serem contrários ao plano de concessão ao setor privado de duas linhas do transporte de passageiros sob trilhos – trouxe informação sobre decisão da Justiça do Trabalho, que tem competências a cumprir nestes casos. E emenda:

O descumprimento dessa decisão (multa ao sindicato no caso dos trabalhadores não comparecerem ao trabalho em determinada quantidade para minimizar o transtorno à população) sempre foi frequente em greves anteriores.

A própria reportagem, sobre um fato cotidiano, traz a pista para uma matéria nova que responda a algumas perguntas mostre ao leitor algumas questões legais por trás de uma greve de servidores públicos ou trabalhadores da iniciativa privada:

  • Qual é a função da Justiça do Trabalho quando há anúncios de greve? Vale tanto para greves do setor público quanto da iniciativa privada?
  • Qual é o trâmite processual entre sindicatos, trabalhadores e Justiça do Trabalho no caso de anúncio de uma greve?
  • Há greves legais e ilegais, considerando que a Constituição dita que greve é um direito do trabalhador? (Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.)
  • Há legislação regulamentando o direito de greve, como determina a Constituição?(§ 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. § 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei.)
  • Há algum órgão que registra a quantidade de greves realizadas no país, nos estados ou nas cidade? Se sim, qual o histórico de greves nos últimos anos, qualificadas por quaisquer critérios contabilizados (legal, ilegal, por categoria de trabalho etc)?
  • Quantas multas foram aplicadas por descumprimento de determinações da Justiça do Trabalho? Em quantos anos? Qual o valor acumulado (histórico ou anual)? Essas multas são pagas?
  • Se as multas não são pagas, quais são os argumentos dos devedores? Como a Justiça do Trabalho reage à inadimplência dos sindicatos? Quais são as brechas na lei (se elas existirem) que postergam o pagamento?

Vale considerar que as estatísticas, se existirem, podem ser organizadas em uma infografia para facilitar que o leitor entenda padrões de conduta dos agentes envolvidos, evolução histórica, dimensão do fato e processos, entre outros fatores que a matéria deve explicar.

Exemplo nota dez de reportagem para público jovem

Reportagem feita pelo jornal O Estado de S. Paulo em junho de 2013 é um exemplo excelente sobre o exercício, que deveria ser cotidiano, de escolher temas que interessem para o público jovem. Os principais jornais do país praticamente perderam audiência deste segmento de leitores para a internet, que tem canais com pauta e linguagem mais personalizadas e adaptadas.

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Para saber mais:

Os projetos educacionais selecionados pelo Estadão são apenas uma pequena fração do que existe para aqueles interessados em aprender temas específicos de diversas áreas do conhecimento. Aqui, é possível compreender como as opões são muitas – em língua inglesa.

Exemplo de jornalismo na fiscalização das ações do poder público

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O portal G1 tem feito um ótimo trabalho ao acompanhar, periodicamente, o cumprimento das promessas de campanha do presidente da República, dos governadores e de alguns prefeitos.

É possível acompanhar o cumprimento de promessas nas diversas áreas da administração pública.

Esse tipo de prática jornalística ao longo do tempo, companhando diligentemente a evolução de algum tipo de assunto, não costuma ser tão comum nas redações.

Essa reportagem “de longo prazo” do G1 ainda tem o mérito de preservar o histórico da apuração, oferecendo ao leitor as informações das parciais apuradas em momentos no passado.

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Algumas vezes, jornalistas acompanham a evolução do bem-estar de famílias ao longo de um prazo mais longo, de forma que o leitor possa identificar, sob o prisma do personagem e do jornalista, os principais indutores da mudança de bem-estar da família acompanhada. O resultado costuma ser muito bom para o leitor.

Veja mais:

Reportagem da Folha de S. Paulo acompanha famílias desde 2005, início de programa social do governo federal, e mostra que beneficiários do Bolsa Família trilham caminhos opostos ao longo de dez anos.

Lei das Estatais: Vale uma pesquisa nos estados e municípios?

A Folha de S. Paulo publicou reportagem mostrando que, no Estado de São Paulo, um decreto que regulamenta a Lei das Estatais – que estabelece, entre outras normas, novas regras para nomeação de diretores e conselheiros de estatais – havia sido flexibilizado. O governo paulista desistiu da flexibilização dias depois.

A chamada Lei das Estatais, quando aprovada, foi considerada uma importante evolução na governança das empresas estatais brasileiras. O governo federal publicou decreto regulamentando aspectos da lei dia 27 de dezembro. Os estados devem fazer o mesmo.

Diz o primeiro artigo da Lei 13.303/2016:

Art. 1o  Esta Lei dispõe sobre o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias, abrangendo toda e qualquer empresa pública e sociedade de economia mista da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios que explore atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, ainda que a atividade econômica esteja sujeita ao regime de monopólio da União ou seja de prestação de serviços públicos.

Vale uma pesquisa em todos os estados brasileiros – e até nas capitais – para identificar como os gestores públicos do Poder Executivo estão regulamentando, via decreto, os dispositivos da lei, sobretudo nas empresas estatais consideradas de pequeno porte (receita operacional bruta inferior a R$ 90 milhões).

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Organizar todos os trajetos da corrida de São Silvestre – um trabalho a ser feito

Uma matéria publicada dia 30 de dezembro na Folha de S. Paulo poderia inspirar uma pesquisa de fôlego para identificar todos os trajetos que a corrida de São Silvestre já teve – já foram realizadas 91 edições anuais da prova até 2015, ininterruptamente.

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É trabalho para aficionados ou para uma atividade interdisciplinar em alguma faculdade que envolva alunos e professores de carreiras como história, jornalismo, designer gráfico e até ciências da computação.

Imagine obter informações do percurso de todas as edições da prova, desenhá-los em mapas de forma padronizada e listá-los lado a lado, como fez o designer Sam Potts com a Volta da França.

Ele organizou, lado a lado, os trajetos das cem edições da prova até então. Além da pesquisa histórica e da acurácia na compilação de dados, ele escolheu, para visualizar o trabalho, um modelo de infografia bastante simples e eficiente, chamado small multiples – gráficos com a mesma escala e eixos organizados lado a lado que permita a comparação fácil.

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Riscos e cuidados no uso de estatísticas. Mesmo as oficiais

Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo no dia 4 de março de 2016 evidencia o risco – e consequentemente os cuidados -que devem ser levados em consideração no trato com estatísticas, mesmo aquelas que são oferecidas oficialmente por órgãos públicos.

Em resumo, o número de homicídios divulgados pelo poder público está subdimensionado, pois há muitos casos listados em outra categoria de informação que não aparece nos balanços divulgados pela Secretaria de Segurança Pública.

O debate em torno da reportagem e da análise dos dados exigiu explicações do governo paulista e novas regras para a divulgação de estatísticas, como a divulgação das correções feitas periodicamente e de dados dos boletins de ocorrências.

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Veja mais:

O problema atinge outros estados brasileiros, como mostra a tese do pesquisador Daniel Cerqueira, que avaliou dados sobre mortes violentas não esclarecidas no estado do Rio de Janeiro.