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Na véspera da Rio+20, que tal comparar estatísticas ambientais de 132 países?

A imprensa começou, faz umas duas semanas, a produzir matérias mais consistentes sobre a gestão ambiental dos governos, das empresas e dos países em geral. Há um conjunto enorme de temas para serem abordados: clima, qualidade do ar, qualidade dos mananciais e rios, resíduos sólidos e saneamento básico, flora e fauna, economia verde e por aí em diante.

Se a enorme quantidade de temas disponíveis torna mais difícil a escolha da pauta mais sensível para a sociedade, é também um enorme desafio saber como hierarquizar as informações – escolher aquilo que é mais importante ou relevante – dentro de cada tema.

Mais um obstáculo: estatísticas confiáveis. Nem sempre as instituições oficiais ou sociais têm dados críveis que forneçam ao jornalista ou pesquisador um retrato confiável do tema ou do assunto abordado. Tão difícil quanto é achar números que permitam fazer comparações e relativizar a informação. Afinal, como hipótese,  reduzir o desmatamento anual em 20% parece uma boa notícia, mas torna-se ruim se outros países derrubaram a taxa em 60%.

IndexPor isso, vale bastante o esforço de entender as explicações metodológicas e as estatísticas comparadas Environmental Performance Index, um desses extensos relatórios produzidos por organizações internacionais – desta vez, pelo trabalho conjunto de dois centros de pesquisa das universidades norte-americanas de Yale e Columbia – para entender melhor como está o desempenho de diversos países em assuntos ambientais.

O índice compara o desempenho de 132 países sobre 22 indicadores distribuídos em dez categorias. O Brasil, por exemplo, apesar de estar entre as nações que apresentam tendência de avanços e boa performance ambiental, na 30ª posição, é apenas o 81º colocado quando a infraestrutura de saneamento básico é avaliada e o 114º no indicador que avalia a perda de cobertura florestal.

Se os brasileiros estão bem avaliados em itens como geração de energia por fontes renováveis (12º entre 132 países) e estoque de florestas (1º da lista), ainda há muito o que avançar.

Para saber mais:

Acesso o relatório completo que avalia o desempenho ambiental de 132 países.

Obama declara apoio ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Isso não é pouca coisa

O presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, declarou, dias atrás, em entrevista para um programa chamado ABC News, um dos mais populares daquele país, que apóia o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Essa declaração não é banal – e muito importante para o líder de um país como os Estados Unidos, às vezes muito mais conservador do que o Brasil em diversos aspectos, sobretudo comportamentais e religiosos.

"At a certain point, I’ve just concluded that for me personally it is important for me to go ahead and affirm that I think same-sex couples should be able to get married." (Barak Obama, in an interview with ABC News)

Em tradução livre, algo como: Em certo ponto, eu concluí que, para mim, pessoalmente, é importante para mim ir em frente e afirmar que eu acho que casais do mesmo sexo deveriam poder se casar.

No Brasil, basta lembrar que as últimas eleições para a Presidência da República foram marcadas por um debate infrutífero e retrógrado a respeito do que pensavam os candidatos sobre temas como aborto e privatizações – ambos negando que eram favoráveis aos dois assuntos.

 Opinião dos leitores – O jornal The New York Times, imediatamente, criou um dispositivo interativo pelo qual mede a opinião dos leitores sobre dois aspectos: se eles consideram a declaração positiva ou negativa e se eles consideram que haverá ou não impacto nas próximas eleições.

Cada pequeno quadrado significa a opinião de uma pessoa e quanto mais escura e preenchida uma parte do quadro estiver, mais as pessoas optaram por aquela opinião. Ao passar a seta do cursor em cima de cada quadradinho, é possível, ainda, ler o que escreveu o leitor – o que ajuda a construir a própria opinião.

Same-sex marriagePor sorte, parece que parte da audiência por lá – ao menos aqueles que se dispuseram a opinar – acredita que Obama acertou em fazer tal declaração. Mas boa parte ainda crê que essa opinião deve causar desdobramentos às eleições.

Menos mal. Todo cidadão, sobretudo aquele que se dispõe a votar (vale lembrar que o norte-americano não é obrigado a votar nas eleições), tem direito a saber a opinião dos candidatos sobre temas importantes e polêmicos para a sociedade.

A imprensa brasileira já poderia planejar, com equipes de programadores e artistas gráficos, instrumentos semelhantes para colher a opinião dos leitores e tentar evitar assim que as próximas eleições – municipais, estaduais e federais – sejam pautadas tanto pela desinformação.

Uma iniciativa inteligente do Zero Hora pode inspirar o restante da imprensa – e o próprio jornal

O Jornal Zero Hora, sediado no Rio Grande do Sul, tomou uma iniciativa inovadora para comemorar a 17.000ª edição. Selecionou todas as “capas mil” (da 1.000ª até a 17.000ª) e disponibilizou aos leitores um resumo de uma notícia de destaque de cada edição.

Fez melhor: colocou jornalistas para informar ao leitor os desdobramentos da notícia destacada. Nas palavras do próprio jornal:

“Para marcar a edição de número 17.000, Zero Hora mergulhou na sua própria história. Resgatou as capas mil (da 1.000 até a 16.000) e, de cada edição, escolheu um assunto de destaque para ser revisitado. Onde estão, por exemplo, os estudantes condenados por subversão em 1967, manchete da milésima ZH? Que fim levaram os meninos da seleção brasileira sub-20 campeã mundial em 2003? Qual foi o impacto do fechamento da fábrica de celulose Borregaard, em Guaíba, em 1973?”

imageIngrediente de sucesso – Revisitar reportagens antigas é um dos principais métodos para elaborar boas pautas jornalísticas. No Brasil, poucas iniciativas surgem com esse propósito na imprensa – e quanto aparecem, repercutem bem e positivamente. Em boa parte das vezes, o restante dos órgãos de mídia acabam “seguindo a história”.

Qual o ingrediente de sucesso desse tipo de pauta jornalística? Algumas elucubrações. Em um país que prevalecem alguns mitos, como “brasileiro não tem memória” e “o Brasil é o país da impunidade”, reportagens que tragam luz a casos antigos, sobretudo que envolvem a ação de governos ou de políticos, ratifica aquilo que os leitores creem ser o principal comportamento dos administradores públicos nacionais: apostar no esquecimento para sobreviver.

Zero Hora 2Quando reportagens confirmam que todos os acusados em casos de corrupção se safaram ou que uma política pública megalomaníaca ou eleitoreira gerou resultados inócuos, o cidadão parece ratificar que, ao desacreditar do país, do político ou do governo, fez a aposta certa. Afinal, em um país com milhões de promessas e poucos resultados, reina a desconfiança.

A iniciativa do Zero Hora merece créditos, méritos e prêmios e pode inspirar outros órgãos de imprensa – inclusive o próprio jornal – a seguir a trilha de histórias do passado com mais constância para reavivar a memória dos leitores.

Saiba mais:

1) O caso Celso Daniel. A Folha de S.Paulo revisitou, numa reportagem publicada em janeiro, os desdobramentos do caso Celso Daniel, cujo objeto principal é o assassinato do então prefeito da cidade paulista de Santo André que estava cotado para ser coordenador da campanha do então candidato Luis Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2003.

2) Dez anos da Lei Rouanet. Aproveitar o aniversário de determinado fato, como o da lei que mudou o financiamento da cultura, pode ser um motivo inteligente de analisá-lo e entregar ao leitor informações valiosas.

3) Que fim levou? A Folha de S.Paulo, novamente em janeiro de 2012, colocou repórteres para informar ao leitor o paradeiro dos ministros demitidos em 2011 sob suspeitas de corrupção ou irregularidades.

4) Uma idéia. Um painel como esse traria algum resultado para melhorar a relação do eleitor com o combate à corrupção?

Quem é melhor? Leitores comentam e melhoram ótimas infografias entre Messi e Cristiano Ronaldo

O jornal espanhol El País elaborou um infográfico muito interessante comparando não somente a eficiência entre o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo, os dois principais jogadores do campeonato local de futebol da primeira divisão – o que é bastante comum fazer em qualquer país –, mas também analisando quais times conseguiram fazer mais gols do que os atletas em questão.

O resultado é bastante curioso e pode suscitar diversas análises e conclusões. Os jogadores são realmente fora de série e espetaculares? Os outros clubes que disputam o torneio são muito fracos? Fica ao gosto0 do leitor – ou do torcedor.

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Os comentários dos leitores – Ler os comentários dos leitores é um método bastante interessante para deixar a análise mais consistente. Um leitor escreveu o seguinte comentário: “Muy interesante estadística, porque demuestra por qué Messi es mejor que Cristiano, primero hay que quitar los goles “de regalo” los de penalty, 11 Ronaldo y 5 de Messi, entonces Ronaldo quedaría con 29 contra 34 de Messi. Y luego hay que ver quien anota más con jugadas individuales, por calidad propia: 10 de Messi, contra 1 de Ronaldo. Y para terminar,¿quién recibe más ayuda de su equipo? Ronaldo tiene 21 con ayuda contra 16 de Messi con ayuda. Con esto queda claro porque Messi es mejor que Ronaldo.”

O argentino, disse o torcedor, apesar de ter um gol a menos que o português (39 x 40), fez bem menos gols de penalti (5 x 11) e muito mais a partir de jogadas individuais (10 x 1), o que, segundo o comentário, demonstra a “qualidade própria” do atleta. Os números estão nos gráficos e a leitura parece bastante pertinente.

Mas pondera outro leitor: “El futbol es un deporte de equipo, cuando se depende de las individualidades, se llega antes al fracaso.” Tem razão também. Por ser esporte coletivo, a tendência é que a qualidade geral da equipe seja tão ou mais importante que a individual. Dessa opinião, poderia derivar uma pergunta: e se o argentino se machucar gravemente algum dia e desfalcar o Barcelona por alguns meses?

Na linha do que o último leitor comentou, a comparação entre Messi e Cristiano Ronaldo avança. O espanhol La Informacion publicou um infográfico com estatísticas mais recentes que apresenta números com outra abordagem para tentar mostrar quem é mais importante para a equipe.

Outra abordagem – O jornal fez um exercício considerando uma hipótese: caso os gols anotados por Messi e Cristiano Ronaldo fossem excluídos, qual seria o impacto para a quantidade de pontos conquistados por Barcelona e Real Madrid. É claro que a brincadeira parte do princípio que nada mais interferiria no resultado das partidas ao longo do torneio.

Messi x Cristiano

O resultado hipotético é que o Barcelona, sem os gols de Messi, perderia 19 dos 81 pontos conquistados até então. O Real Madrid perderia 13 de 85 pontos. Ambos os atletas têm 41 gols. A diferença é que os gols do argentino representam 42,7% dos 96 gols marcados pela equipe catalã, enquanto os gols anotados pelo português significam 38,3% dos 107 gols marcados pelo madrilistas.

Em suma, divirtam-se e melhorem as análises com seus próprios comentários.

Sugestão de pauta – A imprensa esportiva brasileira, que tem se esforçado para produzir pautas inovadoras e ousadas a partir do uso de estatísticas disponíveis ou da construção de bancos de dados próprios, poderia repetir o exercício dos jornais espanhóis El País e La Informacion e comparar a performance e a importância para a equipe entre duplas de craques brasileiros. Liedson (Corinthians) ou Luís Fabiano (São Paulo)? Neymar (Santos) ou Lucas (São Paulo)? Fred (Fluminense) ou Vagner Love (Flamengo)?

Saiba mais:

1) Infográficos ajudam a inovar a pauta no jornalismo esportivo e facilitam a compreensão.

2) Grandes duelos do futebol são oportunidade ímpar para mostrar, por infografias, quem são os melhores atletas

3) Exemplos mostram que blogueiros têm feito reportagens melhores que a imprensa em geral

O cidadão está satisfeito com serviços municipais criados para recolher materiais, trecos e bagulhos?

As prefeituras das grandes cidades, bem ou mal, tem algum serviço para recolher materiais que estão em um grupo intermediário. Não são nem resíduos sólidos urbanos – o lixo comum, que as pessoas colocam na porta de casa para o caminhão recolher – nem entulho e resto de construção. No entanto, poucas vezes ele funciona adequadamente, com foco na prestação eficiente de serviço ao cidadão.

Cata-bagulho 2 Na cidade de Campinas, um dos mais populosos municípios brasileiros, o serviço está presente, apelidado de “cata treco”. Na capital paulista, a mais populosa da América Latina, chama-se “cata bagulho”. Treco ou bagulho, alguém acredita que funciona adequadamente?

Primeiro, é necessário definir o que é treco é bagulho. São os chamados materiais inservíveis, como restos de móveis, latas de tinta, colchões velhos e todo tipo de item de porte médio ou grande que não sejam os resíduos sólidos comuns.

O que é serviço adequado? – Em segundo lugar, é necessário definir qual é o conceito de serviço adequado. Em qualquer cidade, boa parte das pessoas está envolvida com atividades como estudar, trabalhar ou cuidar de tarefas domésticas. O cotidiano, usualmente, é veloz, com muitas atividades, com necessidade de deslocamento entre os bairros, enfrentando o trânsito congestionado e outras intempéries.

Cata-bagulho 1 Um bom serviço é aquele cujas informações estão facilmente disponíveis, principalmente no portal da prefeitura na internet, mas também por telefone. É confiável, não deixa dúvidas. A maioria das cidades tem um número de três dígitos que centralizam todo o atendimento ao munícipe. Se o serviço existe, as pessoas querem saber quando os caminhões e os servidores passam perto das residências, em que horário, que tipo de itens podem ser descartados. Para comparação, imagine se o caminhão de lixo que passa frequentemente pelas ruas não seguisse uma programação?

Paulistanos sem informação – Na cidade de São Paulo, os munícipes não sabem quando os caminhões passam pelas ruas recolhendo trecos, bagulhos e entulhos. No portal da prefeitura da capital paulista, não há informação. Quando há, está desatualizada ou não é confiável. Se a pessoa tentar acessar a central de atendimento por telefone, ouvirá da servidora pública que é necessário ligar toda sexta-feira, quando a central geralmente recebe a programação atualizada para todos os bairros. Pergunte o motivo de ela ter usado a palavra “geralmente”. Não ria com a resposta. Quem não estiver disposto a descobrir a programação pode levar os tais dos “inservíveis” nos pontos de coleta. Tente telefonar apenas para confirmar se os horários indicados realmente são verdadeiros. Não se irrite com o resultado.

Em Campinas, surpreendentemente, há uma programação, mês a mês, região por região, informando quando os caminhões passam. Mas o calendário data de 2009.

Sugestão de pauta – Emissoras de rádio e televisão, que têm equipes em várias cidades brasileiras, principalmente nas capitais, poderia fazer uma rápida sondagem, investigar e, depois, apresentar os resultados no formato de “giro” pelos diversas localidades, chamando os repórteres, um após o outro, e solicitando para eles narrarem o resultado.

Uma das funções do jornalismo, além de investigar os malfeitos dos governantes, é verificar a eficiência das políticas públicas e serviços públicos, principalmente os de primeira necessidade, à disposição do cidadão. Os chefes de pauta das principais redações pelo país poderiam escolher um serviço público por dia para ser investigado pelos jornalistas. Os cidadãos poderiam ser ouvido, na porta de casa. Certamente vão se espantar com a audiência e com a resposta dos leitores, telespectadores, internautas e leitores.

O que é mais barato? Usar táxi ou ter um carro? Comprar ou alugar um apartamento?

As matérias que abordam o bolso do consumidor estão entre aquelas de maior audiência, sobretudo quando auxiliam a economizar ou consumir de forma mais eficiente. É o caso da matéria feita pelo jornal Folha de S.Paulo, em maio: “Até 15 km por dia, táxi é mais barato do que carro”.

Táxi ou carroO mais interessante é a ferramenta interativa para que o leitor possa inserir os próprios dados e ter uma noção sobre qual opção é melhor para o caso dele.

Com muito trabalho em programação, arte e matemática, e com a ajuda do professor Samy Dana, especialista em finanças pessoais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o jornal pôde disponibilizar, no Folha.com, uma espécie de formulário para os usuários fazerem as próprias contas.

Dois fatores presentes nessa reportagem fazem dela um espetáculo de grande audiência: uma boa pauta com foco no indivíduo e na utilidade pública e uma infografia interativa forma visualmente fácil de compreender. Que outros exemplos como esse surjam na Folha e na concorrência.

Saiba mais:

O Café Expresso abordou recentemente uma reportagem no jornal norte-americano The New York Times com as mesmas características. O infográfico auxilia os leitores a perceberem qual a melhor opção: comprar ou alugar um apartamento, dependendo da necessidade e do perfil do imóvel. Veja aqui.

O primeiro gol ninguém nunca esquece – ou não deveria

A Notícia - gol Joinvile 1 O jornal A Notícia, da cidade de Joinville, Santa Catarina, publicou, em março, uma reportagem que pode servir de inspiração para diversos jornais, de circulação nacional ou local.

Pouco depois do aniversário de 35 anos do clube de futebol da cidade – o Joiville Esporte Clube (JEC) –, que disputará a Série C do Campeonato Brasileiro em 2011, A Notícia publicou uma matéria para relembrar o primeiro gol da equipe.

A reportagem foi feita a partir de entrevistas com pessoas que tiveram influência no fato e, fundamentalmente, por meio de uma reconstituição gráfica do primeiro tento do time.

O autor da reconstituição, Fabio Abreu, deu dicas sobre os caminhos para criar uma reportagem como essa, no Flickr dele: “Nove pessoas, entre jogadores e jornalistas que estavam no jogo, foram ouvidas. (A) matéria pós-jogo do (arquivo do) jornal A Notícia também serviu de base para a montagem da jogada. Não existem filmagens do jogo.” É, na verdade, um trabalho historiográfico.

A Notícia - gol Joinvile 3 A partir desse exemplo, jornais locais poderiam relembrar ou até reconstituir o primeiro gol das equipes do bairro ou da cidade. Boa parte dos clubes não têm departamentos de história ou estatísticas bem organizados, mas pode haver quem tenha um recorte de jornal ou até a memória ainda intacta para contar a história. E, futebol, sobrevive sobretudo à história oral.

Pedras no caminho – Há dificuldades a serem vencidas. Fontes orais e escritas são fundamentais para reconstituir o fato – o primeiro gol de cada clube – ocorrido, não raras vezes, há quase sem anos. As bibliotecas da cidade da cidade precisam ser visitadas para encontrar jornais antigos. Os clubes devem ser convencidos a ajudar a encontrar tais evidências históricas. Por que não, ao término de todo o trabalho, realizar um evento festivo para comemorar e relembrar o fato recém-reconstituído?

Pouco adianta também fazer um bom trabalho de apuração e entregar um texto longo ao leitor. É preciso investir em uma infografia, como feito pelo jornal A Notícia. Neste caso, a melhor solução é contratar serviços de terceiros – designeres, ilustradores, agências de comunicação.

Sugestões – Alguns tradicionais clubes do futebol brasileiro poderiam ser procurados para a produção de reportagens como a elaborada pelo A Notícia. Sugiro três, porque representam clubes tradicionais do interior do Estado de São Paulo e tais reportagens poderiam turbinar os cadernos esportivos dos jornais locais:

- Clube Atlético Juventus (SP). Clube tradicional da capital paulista, sediado do bairro da Moóca, já foi campeão brasileiro na Série B, em 1983. Nos últimos anos, o Moleque Travesso tem experimentado a gangorra entre campeonatos organizados regionalmente e disputa, hoje, a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

- Associação Ferroviária de Esportes (SP): O máximo que A Locomotiva Grená da cidade de Araraquara conseguiu foi o vice-campeonato da Série C do Campeonato Brasileiro em 1994, perdendo o título para o Novorizontino (SP). Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas. Há registros sobre o acontecimento do primeiro gol.

- Associação Atlética Internacional (SP): sediada em Limeira, e mais conhecida por Inter de Limeira, foi a primeira equipe do interior do estado a conquistar o campeonato paulista (1986). Disputa, atualmente, a a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Para saber mais:

1) Acesse as páginas da reportagem puiblicada no jornal A Notícia diretamente no Flickr do autor da façanha, Fábio Abreu.

2) Para os interessados em caçar estatísticas e histórias para boas pautas sobre o assunto, a página do Wikipédia sobre clubes brasileiros de futebol oferece uma gigantesca variedade de times em todos os estados.

Atualização em 28 de junho: Fabio Abreu, autor da reportagem que reconstitiu, em texto e infografia, o primeiro gol do JEC para ao jornal A Notícia (PR), conta rapidamente os bastidores da reportagem:

Como surgiu a idéia de fazer essa pauta: Este ano, o autor da reportagem e o editor chefe do jornal tomaram a decisão de produzir reportagens gráficas que abordassem fatos da cidade – uma forma de “conversar mais diretamente” com o leitor. O clube da cidade, o JEC, fez, em março, 35 anos. Após conversar com um amigo sobre a decisão do jornal, surgiu a sugestão de contar como foi o primeiro gol do JEC. “Achei a ideia legal porque esse gol nunca foi mostrado, não foi filmado nem nada. Mostrá-lo seria inédito”, disse Fabio Abreu. “As pessoas que eu precisaria entrevistar moram na cidade, são até personagens conhecidos. Eu cumpria a função de falar de um acontecimento que faz parte da história da cidade – e tinha o gancho do aniversário do time”, concluiu.

As dificuldades: As dificuldades apareceram realmente na apuração. “Como era inevitável, eu teria que basear o infográfico nas informações das memórias dos entrevistados”, disse Fabio Abreu. O lance do gol aconteceu há 35 anos e algumas informações eram conflitantes. Nove pessoas foram entrevistadas. Cinco delas não se lembravam do lance, mas deram contribuições importantes para a reportagem. Das quatro que se lembravam do fato (todos foram jogadores do Joinville e estavam em campo na partida do primeiro gol),  um entrevistado disse que o gol surgiu de um cruzamento pela direita e os outros três de um passe da ponta-esquerda – esta última informação conferia com a descrição do gol feita pelo próprio jornal A Notícia naquela data. O autor, então, optou pelo passe da esquerda. Uma dica importante dele para garantir mais precisão à reconstituição: “Poderia ter juntado os quatro entrevistados em um só dia, mas tive receio de que eles se deixassem influenciar um pelo outro.”

Quase quatro anos depois do acidente da TAM, quais promessas foram cumpridas?

Em julho, o acidente aéreo da TAM, no aeroporto de Congonhas, São Paulo, completará quatro anos. Relatórios e diagnósticos foram feitos, erros e problemas foram apontados, soluções foram adotadas e prometidas.

A imprensa precisa começar agora, antecipadamente, um trabalho de reportagem essencial para o público: de todas as promessas que foram feitas pelas autoridades públicas, por semanas, logo após o acidente, quais foram cumpridas, mesmo que parcialmente?

Seria um desperdício focar o esforço de reportagem somente no drama das famílias e na reconstituição do acidente, ambos aspectos bastante importantes e válidos, mas não centrais, quatro anos depois.

Uma primeira promessa foi a redução da quantidade de vôos no aeroporto de Congonhas. A segunda medida foi a redistribuição da malha aérea – todos os voos em todos os aeroportos foram analisados para verificar quais locais poderiam receber mais pousos e decolagens.

No meio das medidas anunciadas, há também a construção de um novo aeroporto para atender a cidade de São Paulo e a instalação de uma praça no terreno do antigo galpão da TAM, que foi doado pela companhia aérea para a prefeitura para este fim.

Para saber mais:

O portal da revista Veja listou uma cronologia de notícias sobre o acidente. Infelizmente, parou de atualizar no fim de 2007, mas, mesmo assim, dá uma boa noção dos acontecimentos que se seguiram.

NY Times mostra que interatividade também pode trazer utilidade

Há uma explosão de infográficos – estáticos ou interativos – nascendo nas empresas de mídia (muito mais nos Estados Unidos e na Inglaterra do que em qualquer canto do planeta).

Há muita beleza implícita na forma de apresentar os dados. Isso é bom. O público consegue, muitas vezes, perceber mais facilmente a informação oferecida ao vê-la – em vez de lê-la. Isso também é bom. A interatividade prende a atenção, gera interesse e divertimento. Isso é bom, claro.

NYT buying or renting Mas, muito mais do que beleza e curiosidade, os bonitos e didáticos infográficos que proliferam no mundo virtual precisam começar a trazer utilidade – ou prestação de serviço, como muitos gostam de mencionar.

Veja o exemplo mais recente do The New York Times, jornal de vanguarda quando o assunto é apresentar notícias em formato interativo e visualmente arrojado.

Eles criaram uma espécie de aplicativo pelo qual as pessoas podem inserir dados sobre si mesmas numa planilha e calcular, automaticamente, em quais situações é mais vantajoso financeiramente alugar ou comprar um imóvel para moradia.

Uma sugestão de pauta para as empresas brasileiras de mídia é copiar a idéia e mudar a pauta: em quais situações é mais vantajoso financeiramente para o cidadão comprar um carro ou se locomover pela cidade de táxi? Fica a dica.

Atualização: No dia 15 de maio, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem sobre as condições que é melhor optar pelo táxi ou pelo carro próprio. A reportagem é estática, e não interativa, mas a matéria é boa.

Mapa mundial da pena de morte mostra declínio de execuções em muitos países, mas vigor em outros

O diário sueco Dagens Nyheter produziu uma infografia interativa bastante interessante e abrangente a respeito da pena de morte no mundo desde 1900. Para tanto, teve de identificar a quantidade de condenados realmente executados nos corredores da morte em diversos países e verificar a legislação em cada nação, de forma a mostrar ao leitor onde este tipo de pena está vigente, onde foi abolido pela lei e onde foi abolido na prática.

Pena de morte A equipe de reportagem sueca constatou que a pena de morte está em declínio no mundo, mas resiste nos Estados Unidos e mantém vigor na Ásia, continente que executou dezenas de milhares de pessoas na última década. E prossegue:

“Punir as pessoas com a morte tem sido uma forma bastante comum desde que a ação humana tem sido documentada. O direito penal, por séculos, foram marcados pela idéia de vingança pelos pecados praticados no passado. Hoje em dia, no entanto, a tendência é de um mundo sem a pena de morte – mas o caminho não é linear.”

Os jornalistas, após organizarem os dados, mostram que quase todos os países que ainda aplicam a pena capital estão nos continentes asiático e africano. “Ao sul do Saara foram executadas dez pessoas em 2009, no Norte de África e do Oriente Médio mais de 600 – e na Ásia mais de mil pessoas, das quais a esmagadora maioria na China”.

No mapa interativo, você pode perceber:

1) Entre as nações desenvolvidas, os Estados Unidos e o Japão são os únicos que mantém a prática constante. Os norte-americanos executaram 52 condenados em 2009, contra sete dos japoneses. Mas 15 dos 50 estados dos EUA já baniram a prática – o último foi o Novo México, em 2009.

2) Nos últimos dez anos, a China executou mais de 15.000 pessoas.

3) O Brasil é considerado um país no qual a pena de morte foi abolida na prática, pois a última execução que se tem notícia teria ocorrido em 1.855. Mas traz uma informação interessante: 1979 é o ano em que a pena de morte foi abolida, exceto para crimes extraordinários.

No caso brasileiro, as informações contidas no trabalho de reportagem sueco seria um ótimo ponto de partida para uma investigação, buscando identificar que lei é essa, o que é considerado um crime extraordinário (já que parece que eles têm sido constantes por aqui desde 1979) e qual foi o último condenado (que o mapa indica ter sido morto em 1855, depois da Independência, antes da República e durante a escravidão). Que tal?