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Uma iniciativa inteligente do Zero Hora pode inspirar o restante da imprensa – e o próprio jornal

O Jornal Zero Hora, sediado no Rio Grande do Sul, tomou uma iniciativa inovadora para comemorar a 17.000ª edição. Selecionou todas as “capas mil” (da 1.000ª até a 17.000ª) e disponibilizou aos leitores um resumo de uma notícia de destaque de cada edição.

Fez melhor: colocou jornalistas para informar ao leitor os desdobramentos da notícia destacada. Nas palavras do próprio jornal:

“Para marcar a edição de número 17.000, Zero Hora mergulhou na sua própria história. Resgatou as capas mil (da 1.000 até a 16.000) e, de cada edição, escolheu um assunto de destaque para ser revisitado. Onde estão, por exemplo, os estudantes condenados por subversão em 1967, manchete da milésima ZH? Que fim levaram os meninos da seleção brasileira sub-20 campeã mundial em 2003? Qual foi o impacto do fechamento da fábrica de celulose Borregaard, em Guaíba, em 1973?”

imageIngrediente de sucesso – Revisitar reportagens antigas é um dos principais métodos para elaborar boas pautas jornalísticas. No Brasil, poucas iniciativas surgem com esse propósito na imprensa – e quanto aparecem, repercutem bem e positivamente. Em boa parte das vezes, o restante dos órgãos de mídia acabam “seguindo a história”.

Qual o ingrediente de sucesso desse tipo de pauta jornalística? Algumas elucubrações. Em um país que prevalecem alguns mitos, como “brasileiro não tem memória” e “o Brasil é o país da impunidade”, reportagens que tragam luz a casos antigos, sobretudo que envolvem a ação de governos ou de políticos, ratifica aquilo que os leitores creem ser o principal comportamento dos administradores públicos nacionais: apostar no esquecimento para sobreviver.

Zero Hora 2Quando reportagens confirmam que todos os acusados em casos de corrupção se safaram ou que uma política pública megalomaníaca ou eleitoreira gerou resultados inócuos, o cidadão parece ratificar que, ao desacreditar do país, do político ou do governo, fez a aposta certa. Afinal, em um país com milhões de promessas e poucos resultados, reina a desconfiança.

A iniciativa do Zero Hora merece créditos, méritos e prêmios e pode inspirar outros órgãos de imprensa – inclusive o próprio jornal – a seguir a trilha de histórias do passado com mais constância para reavivar a memória dos leitores.

Saiba mais:

1) O caso Celso Daniel. A Folha de S.Paulo revisitou, numa reportagem publicada em janeiro, os desdobramentos do caso Celso Daniel, cujo objeto principal é o assassinato do então prefeito da cidade paulista de Santo André que estava cotado para ser coordenador da campanha do então candidato Luis Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2003.

2) Dez anos da Lei Rouanet. Aproveitar o aniversário de determinado fato, como o da lei que mudou o financiamento da cultura, pode ser um motivo inteligente de analisá-lo e entregar ao leitor informações valiosas.

3) Que fim levou? A Folha de S.Paulo, novamente em janeiro de 2012, colocou repórteres para informar ao leitor o paradeiro dos ministros demitidos em 2011 sob suspeitas de corrupção ou irregularidades.

4) Uma idéia. Um painel como esse traria algum resultado para melhorar a relação do eleitor com o combate à corrupção?

Infográficos ajudam a inovar a pauta do jornalismo esportivo e facilitam a compreensão

Dias atrás, o jornal The New York Times ganhou um medalhas em uma competição chamada Malofiej, uma espécie de Oscar da infografia. O trabalho mostrou a quantidade de vezes que os atletas da NFL, a liga nacional de futebol americano, foram mencionados no SportCenter e no Sunday NFL Countdown, programas do canal esportivo ESPN.

NFL players most mentioned

Durante a última Copa do Mundo, entre junho e julho de 2010, outra pauta parecida foi feita pelo jornal norte-americano. Os jornalistas organizaram um banco de dados para verificar quais jogadores foram mais citados no Facebook durante cada dia, da inauguração ao jogo final do torneio. Quanto mais mencionados, os jogadores aparecem maiores que outros.

O interessante é verificar a flutuação da audiência que cada atleta recebe de acordo com o papel que eles e as equipes deles obtém em campo. No dia 2 de julho, quando o Brasil perdeu para a Holanda nas quartas de final do torneio e foi desclassificado, Kaka e Felipe Melo foram os campões de audiência entre internautas de todo o mundo no Facebook.

Top World Cup players

A imprensa brasileira também tem se destacado nessa área. jornais e portais nacionais estão aprimorando e investindo mais na elaboração de infografias, estáticas ou interativas.

Foi o que fez o jornal O Estado de S. Paulo durante a cobertura da Copa do Mundo de 2010. A infografia, interativa, mostrou em quais países jogavam os atletas de cada seleção durante as copas de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.

Estadão Copa 2010 Benefícios – O grande benefício dos três gráficos é permitir que o internauta ou leitor perceba facilmente e rapidamente a informação principal. Além disso, arejam a pauta dos cadernos esportivos, muitas vezes repletas somente de fofocas ou reproduções do que aconteceu nos jogos do dia anterior.

Nos dois trabalhos do jornal norte-americano, nota-se imediatamente quais atletas foram campeões de audiência e, durante a Copa, quais fatos estavam associados ao pico de visibilidade.

No infográfico do Estadão, a principal conclusão é que, a cada torneio, os treinadores buscam para compor as seleções jogadores que atuam numa quantidade maior de campeonatos estrangeiros. Em 1994, dez atletas atuavam no brasil e 12 no exterior. Em 2010, só três viram do campeonato brasileiro e 20 de ligas de outros países – e a maioria jogava na Itália naquela época.

Twitter oferece boas pautas para os jornalistas. Mas é preciso seguir algumas pistas

A rede social Twitter é uma usina de idéias para aqueles que conseguem encontrar maneiras próprias de separar o joio do trigo. No mundo todo, os mais de 75 milhões de usuários, ativos ou não, publicam cerca de 50 milhões de mensagens por dia. As pessoas que participam da rede compartilham informação, opinião, análise, dicas, documentos e muito mais.

Tem muita conversa fiada, mas também muitas boas pautas. Quanto mais eclética for a lista de pessoas seguidas pelo usuário, maior a possibilidade de surgirem novas idéias. Além disso, é interessante acompanhar usuários de diferentes profissões, partidos políticos, regiões ou estados, entre outros aspectos, para aumentar a chance de ser surpreendido.

Geralmente, pessoas ou políticos famosos só publicam informações pasteurizadas ou que facilmente serão encontradas nas principais agências de notícias em poucos minutos. Vale mais seguir pessoas com pouca ou nenhuma notoriedade e deixar de lado os peixes graúdos.

Debate ignorado – Veja um exemplo. Dias atrás, o deputado federal Arnaldo Jordy (PPS-PA), pelo Twitter, divulgou informações de um debate realizado para discutir desequilíbrios existentes na destinação dos recursos da Lei Rouanet, que, entre os principais aspectos, permite que pessoas físicas e jurídicas transfiram parte do Imposto de Renda anual devido para a produção cultural.

Twitter Arnaldo JordyEle informou que, em 2009, foram captados por produtores em geral R$ 1,1 bilhão, dos quais 76% acabaram destinados para o eixo Rio-São Paulo e apenas 0,4% para a Região Norte. Os jornais de grande circulação não deram atenção, nem ao tema nem ao debate.

Em 2010, escreveu o deputado em blog próprio, “os estados da Região Sudeste receberam 81% das verbas de renúncia fiscal. Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte ficaram com, respectivamente, 8%, 6%, 4% e 1%”. O parlamentar trabalha para aprovar um projeto de lei que distribua de forma diferente os recursos destinados a produções culturais via Lei Rouanet.

Vale lembrar que, dentro da política de incentivos fiscais, o Ministério da Cultura apenas autoriza que os produtores culturais percorram o mercado para convencer empresas e pessoas a transferirem parte dos valores devidos como Imposto de Renda para os produtos culturais que estão produzindo.

Perguntas sem respostas – Mas vale a investigação. O ministério apóia e aprova mais projetos de produtoras do eixo Rio-São Paulo por qual motivo? Estas são muito mais preparadas que as demais ou há alguma distorção dos mecanismos e sistemas de julgamento das propostas? As produtoras das regiões menos favorecidas têm apresentado bons projetos? Como é feito o julgamento? Quais os critérios?

Quanto, em recursos, tem sido transferido para o setor de cultura via Lei Rouanet desde 1991, quando a lei foi aprovada? Quais as mudanças que podem ocorrer de acordo com projetos de lei existentes no Congresso Nacional?

Essas respostas certamente são já conhecidas pelos personagens que convivem e atuam no mercado cultural, mas provavelmente serão novidades para leitores, internautas, ouvintes ou telespectadores.

Boa reportagem une pauta e apuração bem-sucedidas com infografia bastante eficiente

A imprensa brasileira está utilizando mais e mais a análise de bancos de dados com milhares de estatísticas para oferecer para a audiência matérias mais analíticas e que ultrapassam a fronteira dos meros anúncios das fontes governamentais.

Até poucos anos atrás, era bastante comum folhear os jornais e constatar que a maioria absoluta das matérias tinha protagonista uma única fonte: algum órgão público. Hoje, mesmo que um estudo estatístico abrangente ainda não tenha sido feito, há a sensação que a mídia está analisando as informações e os dados que os governos lhe entregam e, após algum trabalho interno das equipes de reportagens, entregam aos leitores algum material diferenciado.

08ago11 homicídios SP Um exemplo é a reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia 8 de agosto deste ano. Após a divulgação dos números parciais de violência em São Paulo, tanto capital quanto interior, os jornalistas organizaram as estatísticas históricas de homicídios e perceberam que, em 54 cidades, a queda acentuada de mais de 70% de assassinatos entre 2001 e 2011 não se repetiu.

A partir da descoberta, os repórteres puderem avaliar, localmente, quais os problemas enfrentados nas regiões nas quais os assassinatos persistem e solicitar das autoridades uma resposta para uma pergunta muito mais circunscrita, objetiva e direta.

Além de bem-sucedida no planejamento da pauta, na organização e na análise das estatísticas e na própria execução da matéria, a equipe do jornal ofereceu ao leitor uma forma bastante eficiente para a visualização fácil dos dados. Na imagem, percebe-se facilmente que há uma coloração mais fraca no mapa do estado em 2011, o que mostra redução média dos assassinatos, mas que há persistência de regiões problemáticas, evidenciadas na cor mais escura.

Futebol na mídia: números e boa apuração ganham espaço onde reinam o óbvio, a futrica e o achismo

Esporte em números 1Um monte de vírus que predomina na cobertura jornalística sobre futebol. Fontes ocultas e interesseiras, opinião do repórter, análise enviesada, descrição contaminada pela paixão clubista, obviedades, tudo isso forma um cadinho que tornou-se quase um padrão. O público não tem o que fazer, já que o problema está em todos os jornais, todos os programas. Desligar e mudar a estação de rádio somente faz sair de um buraco e cair em outro. Infelizmente.

Por isso, é satisfatório perceber que cresce, dentro da imprensa esportiva, sobretudo a que é responsável pela cobertura de futebol, uma linha de atuação que se preocupa em coletar, depurar, analisar e interpretar dados absolutos e reais em vez de simplesmente divulgar aquela opinião que soa como barata e deturpada ao leitor. Dá mais trabalho, é claro, mas convence mais facilmente.

As matérias avaliam diversos aspectos, tanto futebolísticos quanto econômicos, a partir da análise de consultores e contadores ou do esforço dos próprios repórteres. Com isso, adjetivos passaram a ter o apoio de números e estatísticas que ultrapassam os costumeiros rankings de artilharia e pontos conquistados. Reuni alguns casos para exemplificar:

SporTV arrecadaçãoFinanças dos clubes – Uma série do canal SporTV sobre os resultados dos balanços dos clubes, obrigados a publicar resultados financeiros desde 2003.  No entanto, a imprensa sempre deu pouca atenção ao assunto – e passou a fazê-lo com um pouco mais de constância a partir da colaboração de Amir Somoggi, diretor de consultoria em gestão esportiva da BDO. Em quatro matérias, o canal analisou os melhores e os piores em alguns importantes aspectos, como dívidas, patrimônio e receitas, indicando, inclusive, qual seria o clube mais preparado – a partir das finanças e da estrutura – para vencer o campeonato brasileiro que começa no dia 21 de maio.

Esporte em números 2 Pontaria ruim – O Lance! publicou reportagem mostrando o desempenho do jogador Jean, do São Paulo. Versátil, um misto de ala, lateral direito e volante, o atleta chega muitas vezes na frente do goleiro adversário, mas ostenta somente três gols no ano. O atleta passou a ser alvo da imprensa porque a equipe cria muitas jogadas mas não consegue as transformá-las em gols. Para ir além da simples opinião, o repórter buscou, jogo por jogo na temporada de 2011, dados estatísticos para comprovar que o atleta realmente não está com boa pontaria.

Os árbitros brasileiros – A equipe de Victor Birner, no Blog do Birner, analisou partidas em vários campeonatos para constatar, baseado em números, se a arbitragem brasileira aplicava cartões amarelos e vermelhos em excesso, o que, na opinião de muitos comentaristas esportivos, prejudicava a evolução das partidas. Provou, com bases nas estatísticas, aquilo que mídia e público polemizavam baseados na opinião de cada um. O Café Expresso já havia comentado esse e outro caso, ambos ótimos.

Rodrigo Bueno 03mar11Torcida alemã – O jornalista Rodrigo Bueno, da Folha de S.Paulo, apurou o histórico recente de público nos estádios alemães para mostrar a evolução da média de público naquele país, algo que já vinha ocorrendo antes da realização da Copa do Mundo de 2006. Depois de apurar e mostrar os dados, analisa as razões para o bom desempenho da liga alemã.

Os melhores da América do Sul – Rodrigo Bueno, novamente, aproveitou a divulgação de uma lista dos melhores clubes da América do Sul. A Conmebol, confederação local de futebol, promete atualizá-la regularmente, como se faz na Europa, onde a quantidade de vagas disponíveis para cada nação no campeonato continental depende do sucesso dos clubes nos últimos anos. Se os os brasileiros são desclassificados nas primeiras fases nos últimos anos, deveriam perder uma das vagas que têm direito, que seria transferida para países cujos clubes apresentam melhor desempenho. Na Europa, é assim. Com base nessa dinâmica, o jornalista fez uma análise polêmica, mas muito boa – e que os números não o deixam desamparado.

Br Econômico desempenho clubes 4 Quanto custa um gol? – O diário de negócios Brasil Econômico buscou uma consultoria para elaborar um caderno especial a respeito da gestão no futebol. Mais do que estampar os maiores e menores faturamentos ou endividamentos, cruzou o desempenho financeiro com o obtido dentro das quatro linhas. Conclusão: mostra tabelas com o preço de cada vitória, gol e ponto.

Treinos de cada time – O Uol fez um bom trabalho no início da temporada passada do campeonato brasileiro, uma pauta que já foi analisada, aqui, pelo Café Expresso. A idéia foi criar rivalidade entre os torcedores em um tema aparentemente sem interesse – a programação de treinamentos. Na época, escrevi: “Parece chato? Então veja a manchete que resumiu o trabalho:

Por Centenário, Corinthians ‘força’ pré-temporada e supera rivais no treino’. Os torcedores dos outros times certamente se perguntaram: “caramba, e o meu time, como está se preparando para fazer frente a essa estratégia dos corinthianos?

Para saber mais:

- As matérias do jornalista Rodrigo Bueno, do Jornal Folha de S. Paulo, estão disponíveis aqui e aqui, mas somente para assinantes.

- O Café Expresso procura fazer algumas análises e textos sobre futebol suportados por estatísticas. Na seção PRINCIPAIS ASSUNTOS, na coluna aqui à direita, clique na palavra FUTEBOL.

Quase quatro anos depois do acidente da TAM, quais promessas foram cumpridas?

Em julho, o acidente aéreo da TAM, no aeroporto de Congonhas, São Paulo, completará quatro anos. Relatórios e diagnósticos foram feitos, erros e problemas foram apontados, soluções foram adotadas e prometidas.

A imprensa precisa começar agora, antecipadamente, um trabalho de reportagem essencial para o público: de todas as promessas que foram feitas pelas autoridades públicas, por semanas, logo após o acidente, quais foram cumpridas, mesmo que parcialmente?

Seria um desperdício focar o esforço de reportagem somente no drama das famílias e na reconstituição do acidente, ambos aspectos bastante importantes e válidos, mas não centrais, quatro anos depois.

Uma primeira promessa foi a redução da quantidade de vôos no aeroporto de Congonhas. A segunda medida foi a redistribuição da malha aérea – todos os voos em todos os aeroportos foram analisados para verificar quais locais poderiam receber mais pousos e decolagens.

No meio das medidas anunciadas, há também a construção de um novo aeroporto para atender a cidade de São Paulo e a instalação de uma praça no terreno do antigo galpão da TAM, que foi doado pela companhia aérea para a prefeitura para este fim.

Para saber mais:

O portal da revista Veja listou uma cronologia de notícias sobre o acidente. Infelizmente, parou de atualizar no fim de 2007, mas, mesmo assim, dá uma boa noção dos acontecimentos que se seguiram.

Toda história tem de ter um fim – principalmente no jornalismo

Uma das críticas costumeiras que as pessoas fazem para a imprensa é a capacidade que a mídia tem de mudar de direção e esquecer um caso – até então, extremamente importante – tão logo surja outra história tão ou mais devastadora. É comum notar que um caso sobre corrupção é rapidamente esquecido quando outro aparece. Sim, a mídia é volúvel com suas histórias.

Dia 4 de abril, o jornal Folha de S.Paulo resgatou um caso que ganhou bastante audiência e notoriedade: a Máfia dos Sanguessugas. O gatilho que atiçou a memória da redação foi o aniversário de cinco anos da história, já que em 4 de maio de 2006, a Polícia Federal deflagrou uma operação para combater desvio de verbas públicas federais na compra de ambulâncias por autoridades municipais.

FSP Sanguessugas Antes de tudo, o jornal merece elogios. Foi o único, entre todos os mais importantes da mídia de circulação nacional, que lembrou de aguçar a memória dos leitores.

Atualizou para o público o rumo do julgamento dos envolvidos no escândalo e mostrou que, até o momento, somente um dos envolvidos foi punido criminalmente – que é o que interessa para combater a impunidade.

Problemas – A crítica que a imprensa merece é a capacidade de esquecer facilmente dos casos que descobre. Toda história precisa ter um fim – principalmente no jornalismo. Lançar os casos de corrupção e deixar de acompanhá-los semanas depois, independentemente dos motivos, somente aumenta a sensação de impunidade que a sociedade tem com relação à punição de casos de corrupção.

Manter os principais casos de corrupção atualizados para o público, independente da plataforma que a notícia será distribuída, custa caro. Jornalismo tem um custo e as empresas de mídia ainda não conseguiram fechar as equações para tornar rentáveis as inúmeras oportunidades diante delas. As redações estão cada vez mais enxutas e que a velocidade de circulação das informações aumentou a carga de trabalho dos profissionais.

Saídas para o impasse – Talvez a solução seja a reorganização da pauta das redações – deixar um pouco de lado a cobertura cotidiana dos atos oficiais de centenas de órgãos e autoridades do poder público que vivem apresentando frases de efeito e factóides para ganhar espaço na mídia e passar a produzir conteúdo direcionado ao que pode interessar à audiência.

As grandes empresas de mídia poderiam orientar as equipes para produzirem uma matéria especial por semana para relembrar algum caso de corrupção e atualizar as informações para a audiência. Contar o final das histórias esquecidas – sejam casos da economia, da política ou sobre corrupção – certamente faz parte do grupo de interesse dos consumidores de notícias.

Para saber mais:

1) O Museu da Corrupção é um portal que tem o objetivo de ser um receptáculo dos casos de mal versação dos recursos públicos. De uma maneira bastante humorada e interativa, é possível relembrar os principais escândalos com um nível de atualização até razoável. Vale a pena conferir.

2) O Wikipédia traz uma lista relativamente grande dos principais casos de corrupção que estouraram no Brasil nas últimas décadas. Para alguns itens, há boa descrição da história e até boa atualização. Como é sabido, o Wikipédia é escrito por voluntários, mesmo que haja algum tipo de supervisão. Dependendo do uso que se pretende, é fundamental checar os dados.

3) O Café Expresso produziu um texto recentemente analisando dados estatísticos sobre a evolução do Brasil nas listas que apontam as nações mais e menos corruptas. Você acha que vale a pena relembrá-lo?

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil

O jornal Folha de S. Paulo noticiou em manchete na capa no dia 1 de março: “Funcionário do Estado negocia dados sigilosos”. Trata-se de um sociólogo que chefia a área de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável por arquivar o conjunto de estatísticas sobre criminalidade no maior estado brasileiro.

Estatísticas crime 1 Esse cofre, repleto de estatísticas de um serviço público essencial, é alvo de uma disputa entre o jornal e o governo paulista desde 2008, no mínimo. A Folha de S. Paulo acredita ser de elevado interesse público desarquivar esses dados para que a população saiba quais são as ruas com maior incidência de crimes, em quais bairros há mais roubos residenciais, quais os veículos mais visados para roubo, por exemplo.

Já o governo paulista decretou uma regra: divulga, trimestralmente, somente dados consolidados por tipo de crime, de forma que a sociedade tenha apenas conhecimento sobre quais crimes aumentaram ou diminuíram em em cada macrorregião – capital, interior, litoral. O que o jornal deseja tem enorme relevância – mas está no arquivo. O que o governo estadual é interessante mas tem pouco valor – e está público.

O erro maior permanecerá – O que jornal revela, além da imoralidade da história, é a mentira do governante. Estatísticas públicas que deveriam ser divulgadas para toda a sociedade estavam sendo comercializadas de forma privada por funcionários públicos para instituições e empresas privadas que, com os dados comprados, faziam negócios e geravam mais e mais valor e riqueza. A desonestidade foi punida com demissão. Mas o erro maior – o arquivamento dos dados – certamente permanecerá.

HomicideReport São Paulo segue na contramão de diversas cidades norte-americanas e européias que já aderiram a um movimento internacional que clama por divulgação de informações e estatísticas públicas pelos governos – conhecido como “open data moviment”. Lá, a idéia é que programadores e outros profissionais criativos desenvolvam novos negócios e novas empresas com os dados públicos – independentemente se vão fornecer, posteriormente, serviços gratuitos ou pagos. O importante é gerar valor, negócios, empresas e empregos com as estatísticas públicas.

Um projeto interessante é o do jornal Los Angeles Times. Chamado The Homicide Report, mostra o local e a quantidade de homicídios rua por rua. Imagine qualquer quarteirão do bairro onde mora nesse mapa. Tem relevância para você? É ,ais ou menos isso que a Folha de S. Paulo quer fazer e que o governo paulista diz que não deve ser feito porque a divulgação de tais dados cria pânico e desvaloriza regiões.

Princípios – Não se pode negar que há certa lógica por trás dos argumentos governamentais, mas há um problema de princípio: essas justificativas insistem que o povo, na ignorância, vive mais feliz. Caro secretário, caro governador, é a informação – que fornece às pessoas a chance de buscar as melhores opções por conta própria – que gera mais felicidade, aqui entendida como bem-estar.

Outro ponto relevante. Se as pessoas acreditam que governos e políticos são transparentes e sérios, elas acabam se tornando mais comprometidas com o funcionamento geral da cidade. Isso não é idéia de pesquisador utópico, mas sim conclusões de um estudo em três cidades nos Estados Unidos.

Já peguei emprestado algumas vezes a frase de um dos pais da internet, Tim Berners-Lee, que coordena o departamento chamado “governo aberto” no Reino Unido, e volto a fazê-lo: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” No Brasil, esses dados, arquivados, não estão sendo jogados no lixo. Estão gerando negócios, para alguns.

Para saber mais:

Projeto Not Just a Number, realizado em conjunto pelo The Oklahoma Tribune e pelo Inside Bay Area. Mostra a força de dados públicos relevantes de uma forma abrangente, com jornalismo. Entre estatísticas, relatos e procedimentos, informa fatores de riscos envolvidos nos homicídios, mapa com serviços públicos como recreação e treinamento para o emprego e ruas nas quais os crimes ocorreram, entre outros. Pena que tem atualização a partir de 2008.

Projeto Oakland Crimespoting. Mostra, ocorrência por ocorrência, por tipo de crime, em cada endereço. Um projeto ímpar quando o assunto é divulgação de dados públicos releventes para gerar serviço e valor para a sociedade.

Estragos causados pelas chuvas: a reportagem que precisa ler publicada em janeiro de 2012

Há duas semanas, a cidade de São Paulo novamente foi sitiada por alagamentos e deslizamentos. Dias depois, o foco da atenção mudou para municípios da região serrana do Estado do Rio de Janeiro, onde desmoronamentos de encostas e fortes enchentes causaram, até o momento, mais de 700 mortes.

A imprensa, nessas situações, é desafiada. A situação é de caos em muitas localidades, o acesso e a mobilidade são difíceis e o sofrimento  cresce exponencialmente. Nos primeiros dias da cobertura, é complicado – porém possível – manter a sobriedade, contextualizar números e opiniões e escolher histórias emocionantes que não enveredem pela pieguice.

Em meio ao transtorno e ao tiroteio, a imprensa escorregou nas frases de efeito de autoridades. O governador de São Paulo disse, ao anunciar um pacote de medidas, que elas só surtiriam efeito na próxima temporada de chuvas, já que obras não são feitas em 24 horas. O governador do Rio de Janeiro disse que o momento não é de criticar e caçar culpados, mas de atender as necessidades urgentes de curto prazo.

Ambos estão corretos – A opinião dada pelas duas autoridades não foram provocativas e nem eximiram ninguém de culpas. Foram bastante racionais, sem hipocrisias. Realmente, não se faz obra em 24 horas. Elas demoram mais tempo. Realmente, nos primeiros dias após a tragédia, colocar prefeitos e governadores omissos atrás das grades não ajuda a resgatar dezenas de pessoas soterradas. O socorro é urgente, a Justiça é mais lenta.

O embate da imprensa nesses momentos mostra que, mesmo quando faz as perguntas certas, agarra-se a qualquer resposta. Em algumas vezes, há uma busca frenética pela frase de efeito. No caso paulista, a mídia rebateu, perguntando se em 20 anos é possível fazer as obras, uma forma irritada de questionar um partido político que completará duas décadas na gerência do estado. Apesar do tom belicoso, a pergunta trilha a rota certa: o que era para ser feito, o que foi feito e o que deixou de ser feito. Pena que não trouxe a resposta.

Bons exemplos – Se a pergunta é correta, é preciso entregar as respostas correspondentes, principalmente agora que a situação começa a se desanuviar. É a informação e o conhecimento, e não as frases de efeito e os cinco minutos de fama, que ajudam a sociedade a cobrar e conseguir mudanças.

FSP EnchentesNa capital paulista, o jornal Folha de S.Paulo revelou que, em 2010, o prefeito, mesmo com arrecadação de tributos, maior, não cumpriu o plano de prevenção contra cheias .

O portal Contas Abertas, que fiscaliza a utilização de recursos públicos e está hospedada no UOL, mostrou algo no mesmo sentido. Descobriu que o governo federal deixou de investir quase R$ 1,8 bilhão em prevenção em todo o país. Entre 2004 e 2010, a dotação autorizada foi de R$ 2,3 bilhões, dos quais apenas 23% foram aplicados. De cada R$ 4 previstos em orçamento, menos de R$ 1 foi aplicado.

No entanto, para janeiro de 2012, quando as chuvas certamente voltarão a castigar diversas cidades, a imprensa pode planejar desde já um esforço de reportagem para oferecer matérias que fujam da cobertura das frases de efeito. O roteiro serve para qualquer cidade ou estado:

Roteiro para uma reportagem - Considerando que obra não se faz em 24 horas, devido ao trâmite burocrático inerente a licitações públicas, ao licenciamento ambiental, a desapropriações e a outras tarefas:

1) Nos últimos 15 ou 20 anos, qual foi o orçamento reservado para a prevenção de desastres e enchentes?

2) Quais as obras – e a dimensão ou a capacidade delas – que foram previstas no orçamento de cada ano ao longo deste período?

3) Do que foi previsto em cada ano ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, o que foi feito de fato e o que está ainda em obras ou em fases preparatórias?

4) É possível analisar, com ajuda de especialistas, se a obra resolveu ou minimizou o problema ou o risco?

5) Em 20 anos, a cidade cresce e há mudanças no uso do solo. Quais os novos desafios que surgiram para a prevenção de desastres e enchentes? Algum novo morro ou área de risco foi ocupado, por exemplo?

Considerando que enchentes são fenômenos naturais e que cidades brasileiras cresceram e invadiram áreas como morros e leitos de rios e bacias hidrográficas:

1) Uma família que mora em área invadida pode resistir à remoção? Quais são os deveres do poder público? Construir outra moradia antes para essa família? Oferecer valor suficiente para ela comprar uma casa em local seguro? Quais são os direitos e deveres de uma família em área de risco? O que determina a lei?

2) Quanto tempo pode demorar para remover uma comunidade inteira para uma área segura? Quanto custa construir 1.000 casas, com esgotamento sanitário, água tratada, fornecimento de energia elétrica, transporte coletivo e outros instrumentos públicos, como escolas e postos de saúde?

3) Considerando a legislação, quantas pessoas moram em topo de morros ou em morros com inclinação maior que 45 graus? Quantas pessoas moram nas margens dos principais rios, propícios a alagamentos? É possível utilizar ferramentas como Google Maps e georreferenciamento para dimensionar áreas proibidas e a quantidade de pessoas instaladas nessas áreas?

Essas informações não estão prontas, organizadas no portal da prefeitura ou do governo do estado. Também não serão obtidas na primeira semana de trabalho. daqui alguns meses, quando acabar o período chuvoso, a imprensa talvez não tenha mais motivação para publicar reportagens sobre enchentes. Mas é possível se antecipar. Assim, quando a próxima estação de chuvas chegar, o questionamento ao poder público poderá ser mais frutífero.

A imprensa poderia fazer dezenas de reportagens como essa todas as semanas

No primeiro semestre de 2010, o governo federal anunciou um pacote de medidas com o objetivo de melhorar a competitividade das indústrias brasileiras e de incentivar as exportações.

Pacote exportação OESP Uma das ações foi a promessa de que as empresas teriam direito de receber de volta, de forma mais ágil, parte dos impostos pagos ao poder público desde que os bens produzidos fossem vendidos ao exterior. Os valores são chamados de créditos tributários – as indústrias pagam o imposto normalmente no ato da produção, mas recebem parte dele de volta quando exportam.

13dez OESP pacote exp 1Seis meses depois, poucas empresas conseguiram usufruir das medidas então anunciadas, devido à burocracia. As regras estabelecidas para ter parte do imposto de volta foram tão exigentes e tão restritas que quase nenhuma companhia conseguiu se beneficiar. O pacote, na prática, não gerou benefícios. A lembrança feita pelo jornal forçou o poder público a oferecer respostas e oferecer nova solução.

Quem constatou a ineficácia do pacote de incentivo à exportação foi a jornalista Raquel Landim, do jornal O Estado de S. Paulo. Ah, se não fosse a imprensa. O caso reflete um dos principais papéis da imprensa, se não o maior, que é fiscalizar. O objetivo central da pauta, muito bem planejada e cumprida, foi verificar o resultado de uma promessa feita para resolver um dos mais incisivos problemas sentidos pelo setor industrial: a perda de competitividade diante da concorrência estrangeira.

5jan OESP exportações Convenhamos: muitas pautas com esse mesmo DNA poderiam ser realizadas semanalmente – afinal, promessas nunca faltam. Basta listar as últimas promessas ou anúncios de medidas feitos pelos ministérios federais, pelos governos estaduais e pelas prefeituras e, a partir dessa relação, verificar o que realmente foi realizado e bem-sucedido. Há dezenas de reportagens que podem ser produzidas por emissoras de rádio e televisão, jornais impressos de circulação nacional ou regional.