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Los Angeles Times: boa pauta mescla bancos de dados, infografia e narrativa com eficiência

O jornal Los Angeles Times produziu uma bela reportagem que ajuda a demonstrar uma das mais atraentes vertentes do jornalismo atualmente. A matéria faz uso de três ingredientes: bancos de dados, infografias e excelente reportagem para contar a história.

A matéria em questão aborda a retomada das transferência de dinheiro dos estrangeiros residentes nos Estados Unidos para as famílias que eles deixaram nos países de origem. Índia, China e México, nessa ordem, são os principais países de destino dos dólares mandados pelos imigrantes que trabalham no mercado norte-americano.

Dados e visualização – As estatísticas suportam a pauta: o crescimento das remessas de recursos de imigrantes mexicanos para o México. A análise sobre os dados permitiu identificar uma informação nova sobre o mercado de trabalho norte-americano. A partir desse ponto, especialistas ajudaram a entender as causas e consequências dessa mudança e sugerir conclusões sobre o fenômeno.

Los Angeles Times 12jan2012 A infografia reúne recursos como estatísticas sobre mapa e gráficos em barras, com tonalidades diferentes da mesma cor, de forma que o leitor percebe facilmente medidas como distribuição espacial e quantidade. A informação visual permite entender quais estados mexicanos mais receberam dinheiro despachado por imigrantes mexicanos que trabalham nos Estados Unidos.

Personagem – Um terceiro aspecto é a harmonia com a qual todos esses elementos foram organizados na parte principal da capa do jornal.

A reportagem é inaugurada com um personagem comum que representa a essência do fato que pretende ser contado – uma empregada doméstica que espera numa fila a vez de enviar uma pequena quantia para a mãe, que mora em Chiapas, México.

A matéria ainda supõe, a partir dos especialistas, que o crescimento, depois de três anos em queda, da quantidade total de dinheiro enviado por imigrantes para parentes residentes em outros países pode representar uma evidência do fortalecimento e da recuperação do mercado de trabalho norte-americano.

Método – Esse estilo de jornalismo têm sido chamado de “data-driven journalism”, algo como “jornalismo movido por estatísticas”. Em regra geral, é um método baseado na organização e análise de bancos de dados cada vez mais abrangentes que ajudam os jornalistas a detectarem mudanças que embasam as pautas e as notícias subsequentes.

Muitas vezes, a análise dos dados e a visualização deles conta com a participação de programadores que, com as técnicas das ciências da computação, criam regras para cruzar e orientar as estatísticas de forma eficiente.

Boa reportagem une pauta e apuração bem-sucedidas com infografia bastante eficiente

A imprensa brasileira está utilizando mais e mais a análise de bancos de dados com milhares de estatísticas para oferecer para a audiência matérias mais analíticas e que ultrapassam a fronteira dos meros anúncios das fontes governamentais.

Até poucos anos atrás, era bastante comum folhear os jornais e constatar que a maioria absoluta das matérias tinha protagonista uma única fonte: algum órgão público. Hoje, mesmo que um estudo estatístico abrangente ainda não tenha sido feito, há a sensação que a mídia está analisando as informações e os dados que os governos lhe entregam e, após algum trabalho interno das equipes de reportagens, entregam aos leitores algum material diferenciado.

08ago11 homicídios SP Um exemplo é a reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia 8 de agosto deste ano. Após a divulgação dos números parciais de violência em São Paulo, tanto capital quanto interior, os jornalistas organizaram as estatísticas históricas de homicídios e perceberam que, em 54 cidades, a queda acentuada de mais de 70% de assassinatos entre 2001 e 2011 não se repetiu.

A partir da descoberta, os repórteres puderem avaliar, localmente, quais os problemas enfrentados nas regiões nas quais os assassinatos persistem e solicitar das autoridades uma resposta para uma pergunta muito mais circunscrita, objetiva e direta.

Além de bem-sucedida no planejamento da pauta, na organização e na análise das estatísticas e na própria execução da matéria, a equipe do jornal ofereceu ao leitor uma forma bastante eficiente para a visualização fácil dos dados. Na imagem, percebe-se facilmente que há uma coloração mais fraca no mapa do estado em 2011, o que mostra redução média dos assassinatos, mas que há persistência de regiões problemáticas, evidenciadas na cor mais escura.

Nos EUA, há dezenas de aplicativos criados quando os governos abrem os bancos de dados

Um interessante artigo publicado no The New York Times mostra a distância que existe entre governos brasileiros e estrangeiros, sobretudo norte-americanos e europeus, quando o assunto é transparência do setor público e atenção ao cidadão.

O artigo é de Richard Thaler, professor de economia e ciências comportamentais da Escola Booth of Business, da Universidade de Chicago. Selecionei alguns trechos que servem como síntese da idéia do autor e evidenciam o potencial que existe, tanto para os negócios quanto para a prestação de serviços aos cidadãos, quando governos divulgam informações ou dados crus sobre quaisquer temas.

- Os governos aprenderam uma nova forma – e barata – de melhorar a vida das pessoas. A receita é simples. Pegue os dados que eu e você já pagamos para um órgão público coletar e publique na internet de uma forma que programadores de computador possam facilmente usá-las. O setor privado se encarregará da criação de sites e de aplicativos para telefones celulares, reformatando e apresentando os dados de um jeito útil para consumidores, trabalhadores e empresas.

Onde está o ônibus? - Na cidade de São Francisco (EUA), o departamento de trânsito coletou dados da localização dos ônibus e trens por GPS e publicou as informações, em estado cru, na internet, tudo em tempo real. Um aplicativo para celulares foi criado e as pessoas que o utilizam podem saber onde está o ônibus que esperam, se ele está preso no trânsito ou atrasado – inclusive, se a pessoa está esperando o ônibus na rua certa. O cidadão recebe mais serviços e o governo não gasta nada com isso.

- Em São Francisco, já há uma enorme variedade de aplicativos disponíveis para serem utilizados nos celulares que abordam serviços em áreas como eleições, crime, transportes públicos e previsão do tempo, entre outros. O próprio governo federal dos Estados Unidos oferece um cardápio de aplicativos para serem utilizados. Eles lidam com assuntos como obesidade mercado de trabalho e programação de vôos, entre outros.

Nem tudo são flores - No entanto, mesmo que haja leis e governos dispostos a disponibilizar cada vez mais grandes bancos de dados e informações em estado bruto para programadores utilizarem e criarem aplicativos úteis às pessoas, há movimentos políticos e econômicos que tentam restringir a transparência abrangente e total no transporte aéreo e nas regras de segurança de produtos.

- Nos EUA, as companhias aéreas não querem publicar em tempo real os preços vigentes para passagens e serviços extras, como filmes, poltronas mais espaçosas e refeições, por exemplo, como determina a lei. Isso dificulta que os clientes tenham noção exata do custo total da viagem e possa comparar as companhias.

- Em outro programa governamental, que permite aos cidadãos relatarem problemas de segurança vivenciados com produtos quaisquer, políticos e setores econômicos organizados tentam restringir a iniciativa, já que ela, ao colocar companhias com má qualidade na vitrine, oferece um risco para as vendas.

E para os brasileiros? – No Brasil, há rascunhos de tentativas como as que vigoram na Europa e Nos Estados Unidos. O governo do Estado de São Paulo lançou recentemente o Governo Aberto, que disponibiliza bancos de dados com informações públicas para os desenvolvedores e programadores criarem aplicativos e serviços. No entanto, muitos especialistas reclamaram que os dados disponíveis estão em formatos pouco úteis – ou são superficiais. Mesmo que trôpego, é um passo que significa o início de uma jornada.

Imagine quantos novos serviços e aplicativos poderiam ser criados no Brasil, no mesmo molde do que já acontece em outros países. Gostaria muito de ver, por exemplo, a base de dados das companhias de engenharia de tráfego disponibilizadas, em tempo real e em formato utilizável, para que novos serviços e aplicativos fossem criados.

Veja mais:

Em outro artigo, também no The New York Times, Richard Thaler descreve alguns aplicativos criados a partir dos bancos de dados disponibilizados pelo governo federal dos Estados Unidos.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil

O jornal Folha de S. Paulo noticiou em manchete na capa no dia 1 de março: “Funcionário do Estado negocia dados sigilosos”. Trata-se de um sociólogo que chefia a área de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável por arquivar o conjunto de estatísticas sobre criminalidade no maior estado brasileiro.

Estatísticas crime 1 Esse cofre, repleto de estatísticas de um serviço público essencial, é alvo de uma disputa entre o jornal e o governo paulista desde 2008, no mínimo. A Folha de S. Paulo acredita ser de elevado interesse público desarquivar esses dados para que a população saiba quais são as ruas com maior incidência de crimes, em quais bairros há mais roubos residenciais, quais os veículos mais visados para roubo, por exemplo.

Já o governo paulista decretou uma regra: divulga, trimestralmente, somente dados consolidados por tipo de crime, de forma que a sociedade tenha apenas conhecimento sobre quais crimes aumentaram ou diminuíram em em cada macrorregião – capital, interior, litoral. O que o jornal deseja tem enorme relevância – mas está no arquivo. O que o governo estadual é interessante mas tem pouco valor – e está público.

O erro maior permanecerá – O que jornal revela, além da imoralidade da história, é a mentira do governante. Estatísticas públicas que deveriam ser divulgadas para toda a sociedade estavam sendo comercializadas de forma privada por funcionários públicos para instituições e empresas privadas que, com os dados comprados, faziam negócios e geravam mais e mais valor e riqueza. A desonestidade foi punida com demissão. Mas o erro maior – o arquivamento dos dados – certamente permanecerá.

HomicideReport São Paulo segue na contramão de diversas cidades norte-americanas e européias que já aderiram a um movimento internacional que clama por divulgação de informações e estatísticas públicas pelos governos – conhecido como “open data moviment”. Lá, a idéia é que programadores e outros profissionais criativos desenvolvam novos negócios e novas empresas com os dados públicos – independentemente se vão fornecer, posteriormente, serviços gratuitos ou pagos. O importante é gerar valor, negócios, empresas e empregos com as estatísticas públicas.

Um projeto interessante é o do jornal Los Angeles Times. Chamado The Homicide Report, mostra o local e a quantidade de homicídios rua por rua. Imagine qualquer quarteirão do bairro onde mora nesse mapa. Tem relevância para você? É ,ais ou menos isso que a Folha de S. Paulo quer fazer e que o governo paulista diz que não deve ser feito porque a divulgação de tais dados cria pânico e desvaloriza regiões.

Princípios – Não se pode negar que há certa lógica por trás dos argumentos governamentais, mas há um problema de princípio: essas justificativas insistem que o povo, na ignorância, vive mais feliz. Caro secretário, caro governador, é a informação – que fornece às pessoas a chance de buscar as melhores opções por conta própria – que gera mais felicidade, aqui entendida como bem-estar.

Outro ponto relevante. Se as pessoas acreditam que governos e políticos são transparentes e sérios, elas acabam se tornando mais comprometidas com o funcionamento geral da cidade. Isso não é idéia de pesquisador utópico, mas sim conclusões de um estudo em três cidades nos Estados Unidos.

Já peguei emprestado algumas vezes a frase de um dos pais da internet, Tim Berners-Lee, que coordena o departamento chamado “governo aberto” no Reino Unido, e volto a fazê-lo: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” No Brasil, esses dados, arquivados, não estão sendo jogados no lixo. Estão gerando negócios, para alguns.

Para saber mais:

Projeto Not Just a Number, realizado em conjunto pelo The Oklahoma Tribune e pelo Inside Bay Area. Mostra a força de dados públicos relevantes de uma forma abrangente, com jornalismo. Entre estatísticas, relatos e procedimentos, informa fatores de riscos envolvidos nos homicídios, mapa com serviços públicos como recreação e treinamento para o emprego e ruas nas quais os crimes ocorreram, entre outros. Pena que tem atualização a partir de 2008.

Projeto Oakland Crimespoting. Mostra, ocorrência por ocorrência, por tipo de crime, em cada endereço. Um projeto ímpar quando o assunto é divulgação de dados públicos releventes para gerar serviço e valor para a sociedade.