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Séculos de estatísticas ajudam a entender como sociedades evoluem ou regridem

O Brasil é um país com poucos números e estatísticas organizados nas mais diversas áreas. Basta tentar fazer uma reportagem ou investigação qualquer que essa escassez de informações aparece rapidamente.

Esse problema brasileiro – que não mata, mas certamente aleija – foi abordado em uma série de reportagens pelo jornal O Globo, desde o último dia 28. A primeira matéria tratou da falta de estatísticas organizadas na área de segurança pública, enquanto as seguintes mostraram que faltam estatísticas nos setores de educação e saúde.

18oldbailey2-popup Os números não são meros caprichos – e as reportagens evidenciam isso. A desorganização não permite o planejamento na identificação de problemas, na orientação de estratégias de ação e na mensuração de resultados. Em muitos casos, o governo federal até criou bancos de dados, mas eles simplesmente não são alimentados pelos donos da informação – na maioria das vezes, estados e municípios.

A série de reportagens ganhou um título bastante significativo e apropriado: “O apagão de informações”. Sem dados históricos e abrangentes, nenhuma sociedade consegue detectar avanços e deficiências de forma que possa corrigir erros ou insistir em experiências bem-sucedidas.

Caso exemplar – Apenas para servir de bom exemplo, o jornal The New York Times publicou uma reportagem abordando estatísticas a respeito do sistema de julgamentos criminais da cidade de Londres, na Inglaterra, a partir de dados arquivados de Old Bailey, a corte principal de julgamentos. Detalhe: os dados abrangem crimes julgados no período entre 1674 a 1913.

No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) costuma ser um raro oásis para pesquisadores, jornalistas e cidadãos que desejam obter estatísticas econômicas e sociais sobre diversos aspectos do país. No entanto, mesmo a instituição não tem informações organizadas e confiáveis que remetam à primeira metade do século XX. O instituto só foi criado em 1934, quando passou a exercer o trabalho de mostrar o país pelos números, de forma sistemática e organizada.

Setores organizados da sociedade, incluindo estatais e não governamentais, até se esforçam para criar bancos de dados sobre saúde, educação, economia, política e outros aspectos, mas o Brasil vive, realmente, há tempos, um “apagão de informações”. As consequências desse hiato, desses buracos, é desastrosa, na medida que não permite às pessoas conhecerem e transformarem o espaço em que vivem e a realidade delas.

Não confunda: essa notícia foi publicada em um jornal de Huntsville, Estados Unidos

The Huntsville TimesO jornal The Huntsville Times é publicado na cidade de Huntsville, Alabama, nos Estados Unidos. As principais notícias estampadas na primeira página poderiam confundir um desavisado leitor brasileiro.

O título da principal matéria, sobre educação, anuncia: “Mais estudantes. Menos professores. Você faz a conta”, concluindo que para muitos estudantes, as aulas começam na segunda-feira, se eles conseguirem um lugar para sentar.

Lá, com os cortes do poder público para gastos sociais, como educação, professores foram demitidos e as salas de aula estão lotadas (com 45 alunos por classe).

Para saber mais: O The Huntsville Times costuma produzir capas muito interessantes. Em outra ocasião, o Café Expresso já abordou o tema.

São Paulo e Nova Iorque: quanto tempo demora para remodelar e revitalizar uma área degradada?

High Line 2 A cidade de Nova Iorque comemorou, em junho, mais um passo da transformação urbanística de uma área conhecida como Baixa Manhattan. A prefeitura e a comunidade cortaram a fita da segunda fase da remodelação arquitetônica da High Line, uma espécie de “minhocão” dos nova-iorquinos que foi transformado em um parque suspenso.

A High Line era uma linha aérea de trem, construída no fim da década de 20, com 21 quilômetros de extensão. Na época, foi a solução encontrada para evitar acidentes causados pela dificuldade de segregar o trânsito do trem de carga e de cavalos e outros meios de transporte. A inauguração do trem elevado, em 1934, eliminou 105 cruzamentos nas ruas de Nova Iorque.

High Line park

Depois de décadas de mudanças urbanísticas, sociais e econômicas, a High Line passou a ser menos utilizada para transporte de carga e acabou se deteriorando. Em 1999, quando a maior parte da via férrea elevada já tinha sido demolida em décadas anteriores, um movimento local surgiu defendendo a remodelação da antiga ferrovia – e a transformação dela em um parque elevado.

Em 2004, recursos municipais foram inicialmente destinados. Em junho de 2009, a primeira seção do parque aéreo foi inaugurado, com custo de US$ 50 milhões bancados pela prefeitura. Em junho de 2011, a segunda parte foi entregue à população. Desde a inauguração, não houve registro de crimes graves, o que é ajudado pelo sistema de vigilância por câmeras.

High Line map A terceira parte da High Line estava prevista para ser demolida e agora está em fase de planejamento para ser também agregada aos dois lotes já inaugurados. Quando – e se isso ocorrer –, o parque aéreo terá 2,3 quilômetros de extensão. A prefeitura percebeu que a remodelação atraiu negócios, empreendedores e vitalidade econômica. Desde 2009, mais de 30 projetos foram idealizados ou estão em construção. Por isso a remodelação pode ser mais lucrativa que a demolição.

FSP 13jun cracolândia Em São Paulo, maior metrópole brasileira, há diversas regiões regiões centrais que necessitam de remodelação e reurbanização.

A mais conhecida é a Cracolândia, um conjunto de quarteirões. Em alguns, tudo será demolido. Em outros, prédios serão reformados e modernizados. A idéia é a mesma: atrair empreendimentos e empreendedores e revitalizar a região.

No entanto, os prazos são completamente longínquos, sem garantia que serão cumpridos. Lançado em 2004, o programa Nova Luz, que prevê a atração da iniciativa privada para revitalizar a região em parceria com o governo municipal, deve demorar, no mínimo, 15 anos, a partir do início das obras. É o que mostra recente reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

Guardadas as devidas proporções, a remodelação urbana promovida pelo governo municipal de Nova Iorque mostra que é possível alterar o curso de degradação urbana das grandes cidades. Que a Nova Luz, em São Paulo, também possa servir de exemplo para outras municipalidades.

Para saber mais:

1) Leia o verbete sobre The High Line da Wikipédia e conheça mais detalhes da história e da remodelação, visualizar mais fotografias e acessar, nas referências, matérias da imprensa norte-americana sobre a iniciativa.

2) Reportagem do The New York Times relata a ausência (nenhum crime nesta categoria foi cometido) de crimes graves desde a inauguração.

3) Vale assistir cada vídeo e ver cada foto do portal oficial do projeto The High Line. Os álbuns mostram as fases de construção, os arredores do ele ado e muito mais.

4) Quem tiver acesso, aconselho passear pela High Line utilizando as ferramentas do Google: Google Maps, Google Street View e Google Earth.

Há 30 anos, faleceu Nelson Rodrigues: dez trechos da crônica esportiva dele – e porque a unificação de títulos no futebol brasileiro é uma besteira

No próximo dia 21 de dezembro, completa-se 30 anos do falecimento de Nelson Rodrigues. O personagem dispensa qualquer leitura de currículo. Prefiro mencioná-lo como o maior dramaturgo do futebol brasileiro – ou o maior boleiro da dramaturgia brasileira.

Nelson Rodrigues 1 Selecionei, com muita dificuldade, dez trechos de um livro de crônicas esportivas de Nelson Rodrigues. Digo dificuldade e já justifico: – poderiam ser 30, 50, 100. O autor sempre teve a facilidade natural para enxergar a alma do brasileiro e do craque tupiniquim, e raros os textos nos quais não transbordava dramaturgia nos mais simples gestos – inclusive para o arremesso do mais mundano lateral.

Ah, como usava bem os adjetivos. Para Nelson Rodrigues, todos os canalhas eram magros e até para chupar um Chicabon era necessário ter alma. Os trechos abaixo foram retirados do livro “O Berro Impresso das Manchetes – crônicas completas da Manchete Esportiva 55 – 59”. Para aqueles que querem pensar e discutir seriamente sobre a unificação de títulos da Taça Brasil e do torneio Roberto Gomes Pedrosa, vale ler os livros de crônicas de Nelson Rodrigues. Naquelas décadas, de 50, principalmente, o futebol – e a política do mundo futebolístico – circulava na esfera do eixo Rio-São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre.

O futebol brasileiro sempre existiu – e foi muito bem representado. O que nunca existiu, de fato, foi algo como um campeonato brasileiro. A razão é a desorganização. O futebol brasileiro nunca foi organizado corretamente, nunca foi tratado com seriedade administrativa e mercadológica. Até hoje não o é – imagine, então, décadas atrás.Nelson Rodrigues 2

Mas, seguem os trechos de Nelson Rodrigues, que são leitura muito, mas muito mais prazerosa.

1) O sujeito que não acredita em milagres é capaz de tudo. (…) É suscetível dos piores sentimentos. (…) Quanto a mim, com satisfação o confesso: – acredito piamente em milagre. Ou por outra: – só acredito em milagre. A meu ver, o fato normal, o fato lógico, o fato indiscutível merece apenas a nossa repulsa e o nosso descrédito. É preciso captar ou, melhor, extrair de cada acontecimento o que há, nele, de maravilhoso, de inverossímil e, numa palavra, de milagre. ((Manchete Esportiva – 03/03/1956)

2) Quando o Brasil levantou o Pan-americano, eu só lamentei uma coisa – que Bilac não estivesse vivo. (…) Outrora, cada acontecimento tinham um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante. (…) Os correspondentes brasileiros, que estava no México, deviam mandar, de lá,  telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas, como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: – “que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos.” Vejam vocês o que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade parva e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação. (Manchete Esportiva – 31/03/1956)

3) Pois bem: – há o jogo e o Brasil consegue uma dessas vitórias definitivas, antológicas. Sim, amigos: – os 3 X 2 sobre os austríacos, na própria Viena, deviam figurar, merecidamente, numa antologia. Pela primeira vez apresentamos ao Velho Mundo uma imagem fidedigna do futebol brasileiro. E como se não bastasse a vitória em si, houve um elemento que a valorizou e, mesmo, dramatizou: – o juiz ladrão. Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permite, shakespeareana. O espetáculo deixa de se resolver em termos chatamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve no time prejudicado e respectiva torcida esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe adormecido no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue. (Manchete Esportiva – 21/04/1956)

4) Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, vejam: – pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro.(…) é preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores de fúrias tremendas. e, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que eu conheci são, fatalmente, magros.(Manchete Esportiva – 03/05/1958)

Vicente feola 1 5) Um Feola magro teria sido melhor para o escrete? Não creio e explico. (…) Pois uma de suas consideráveis vantagens de homem e, atrevo-me a dizê-lo, de técnico está nesta circunstância (ser gordo), que ele deplora e repudia. Numa terra de neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor. Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória. Examinem a figura de napoleão como Imperador. Era ele, na ocasião, algum depauperado? Não, senhor. Pelo contrário: – os quadros mostram a inequívoca e imperial barriga napoleônica. E uma das coisas que me levam a acreditar no Brasil como campeão do mundo é o fato de termos, finalmente, um técnico gordo. (Manchete Esportiva – 03/05/1958)

6) Só um Garrincha poderia fazer isso. Porque Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Se tivesse jogado contra a Inglaterra, ele não teria dado a menor bola para a Rainha Vitória, o Lorde Nelson e a tradição naval do adversário. Absolutamente. Para ele, Pau Grande, que é a terra onde nasceu, vale mais do que toda a comunidade britânica, Com esse estado de alma, plantou-se na ponta para enfrentar os russos. Os outros brasileiros poderiam tremer. Ele não e jamais. Perante a platéia internacional, era quase um menino. Tinha essa humilhante sanidade mental do garoto que caça cambaxirra com espingarda de chumbo e que, em Pau Grande, na sua cordialidade indiscriminada, cumprimenta até cachorro. Antes de começar o jogo, o seu marcador havia de olhá-lo e comentar para si mesmo, em russo: “Esse não dá pra saída (por causa das pernas tortas)!” E, com dois minutos e meio, tínhamos enfiado na Rússia duas bolas na trave e um gol. Aqui em toda a extensão do território nacional, começávamos a desconfiar que é bom, que é gostoso ser brasileiro. (…) Cada vez que Garrincha passava por um, o público vinha abaixo. Mas não creiam que ele fizesse isso por mal. De modo algum. Garrincha estava, ali, com a mesma boa-fé inefável com que, em Pau Grande, vai chumbando as cambaxirras, os pardais. Via nos russos a inocência dos passarinhos. Sim: os adversários eram outros tantos passarinhos, desterrados de Pau Grande.(Manchete Esportiva – 21/06/1958)

7) A glória de um craque vive não dos jogos de rotina, mas dos clássicos eternos. O torcedor não se lembra das peladas, mas tem uma memória implacável para as batalhas decisivas. E o sujeito que apanha a bola num Botafogo X Flamengo parece estar chutando para a eternidade. (Manchete Esportiva – 06/09/1958)

8 ) Eu sei que nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de ilustre, de insigne, de formidável qualquer borra-botas. Isso com as pessoas. Com os fatos, a mesma coisa. Em nossa histeria verbal, enfeitamos os fatos como se eles fossem índios de carnaval. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

9) Eis a verdade: o brasileiro se considera um povo feio. Aqui, quando se fala em espanhola, em italiana, em americana, há, em todos nós, uma salivação imensa, torrencial. Há indivíduos que assistem um livro de Gina Lollobrigida e, na saída do cinema, gostariam de trocar a namorada, a esposa, a amante. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

10) E, com efeito, ao entrar no estádio tricolor, eu vi, diante de mim, um deserto imenso e irremediável. Meia dúzia de gatos pingados, inclusive eu.Ora, isso mostra que as últimas atuações do “timinho” espavoriram a torcida. O pessoal está fugindo dos jogos. (…) Ainda domingo, outro “pó-de-arroz” como eu debruça-se no meu ombro e rosna-me: “Coitadinho!” Referia-se ao nosso quadro. Eu compreendi o diminutivo apiedado. Eis a verdade: há certos estados em que um time deixa de irritar, de enfurecer e passa a suscitar, tão somente, uma profunda compaixão. Mas eu confesso: prefiro a blasfêmia, a praga, o nome feio e, enfim, a cólera, do que esse “coitadinho” quase terno e quase lírico, que ofende mais que uma cusparada. (Manchete Esportiva – 11/10/1958)

Leitor mostra exemplo simples da diferença brutal entre custo Brasil e custo Estados Unidos

carta O Globo Opinião, é fato, a gente precisa respeitar. Ainda mais quando quem opina dá um exemplo incontestável ou um daqueles números que fazem qualquer um que ouve concordar e, inclusive, balançar a cabeça lenta e negativamente, não entendendo porque problemas como tais ainda acontecem no Brasil. No jornal O Globo, dia 23 de novembro, aconteceu isso. Então, a gente respeita mesmo!

Está aberta a temporada de promessas para 2011

PromessaKassabNos três ou quatro últimos meses do ano vigente, os governos – federal, estaduais e municipais – precisam enviar aos parlamentares, sejam eles deputados ou vereadores, as propostas orçamentárias para os gastos e investimentos planejados para o ano seguinte.

Um conjunto enorme de metas e promessas costumam constar nas propostas orçamentárias.

É um momento até mais importante do que as eleições, já que a lei que autoriza o gasto do orçamento é um documento oficial, um compromisso muito mais firme e real do que cadernos com propostas de campanha eleitoral.

É uma oportunidade ímpar para que todos os jornais, independentemente do tamanho e da abrangência da circulação, mirem a atenção para esse assunto, como fez O Estado de S. Paulo dia 29 de setembro. Mostrou metas e promessas na proposta orçamentária que o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, pretende enviar para a Câmara dos Vereadores da capital paulista.

Jornais de todas as cidades e todos os estados deveriam repetir a mesma pauta enquanto os leitores poderiam recortar e guardar a página para cobrar dos governantes o cumprimento daquilo que foi escrito.

No Manchester, treinadores ficam no cargo por 24 anos. No Brasil, técnicos têm de ganhar todo ano

Muricy Ramalho, cotado para ser o novo técnico da seleção brasileira, já deu entrevistas dizendo que gosta de seguir princípios como lealdade e esforço dentro do futebol. Prega o cumprimento de contratos firmados. Depois de rápida passagem como treinador do time principal do São Paulo Futebol Clube (SPFC), na década de 90, passou por diversos times até retornar ao mesmo SPFC, em janeiro de 2006. Ganhou três títulos brasileiros consecutivos mas não resistiu a uma nova desclassificação na Taça Libertadores da América – a quarta consecutiva. Em junho de 2009, três anos e meio de pois de assumir o cargo, foi demitido.

Controvérsias a parte, a relação entre Muricy Ramalho e o SPFC é uma das mais umbilicais no futebol brasileiro, devido a sintonia entre treinador e torcida. Superada, certamente, pela relação de Telê Santana com a mesma torcida e com o mesmo clube.

Telê Santana, à frente da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, foi desclassificado nas duas vezes, e passou a ser considerado “pé frio”, um profissional sem sorte. Em outubro de 1990, assume o cargo de treinador no SPFC, do qual só saiu em em janeiro de 1996, por causa de uma isquemia cerebral. Os cinco anos e três meses à frente do time ficaram marcados na história das relações entre treinadores e torcidas de futebol.

A sintonia que existe entre os dois treinadores, o clube e a torcida são sintomáticas e exemplares, mas ainda distante do que existe no Manchester United, clube inglês.

O atual treinador do Manchester United, Sir Alex Ferguson, está no cargo desde novembro de 1986, há quase 24 anos, independentemente de conquistar os títulos mais desejados do clube em um ano ou não. Ganhou duas vezes a Liga dos Campeões da UEFA, o que corresponde à taça Libertadores na América do Sul, e um título intercontinental de clubes, o mundial extra-Fifa até 2005. Comparativamente, Telê Santana obteve desempenho melhor quando analisada tal meta: ganhar o principal título continental.

Poucos sabem, mas Fergunson não é (ainda) o mais longevo técnico do Manchester. Matt Busby comandou o time de Old Trafford entre 1945 e 1969. Ganhou cinco títulos nacionais e um continental. Se comparações numéricas forem permitidas, o escocês, em números absolutos, vence, mas o brasileiro teria mais 20 anos para tentar um título continental. Mas cá, diferente de lá, não há tanto tempo assim para os treinadores permanecerem no cargo entre um título e outro.

Vale lembrar essas histórias, principalmente em um momento em que diversos treinadores correm o risco de perderem os cargos após o retorno do Campeonato Brasileiro 2010, depois da Copa do Mundo. Ricargo Gomes, no SPFC, há um ano no cargo, terminou o Brasileirão 2009 em terceira colocação e classificou o clube para as semi-finais da Libertadores 2010. Dorival Junior, no Santos, liderou o melhor futebol no primeiro semestre no Brasil, ganhou o campeonato paulista 2010 e está na final da Copa do Brasil, que pode dar uma vaga tranquilizadora para o time na Libertadores 2011. Silas, no Grêmio, está há menos de um ano no clube e ganhou o campeonato estadual este ano.

Qualidade da saúde no Brasil: só colocar mais dinheiro resolve?

A The Economist publicou no portal dela na internet um gráfico com uma rápida notícia, mostrando crescimento do gasto dos países ricos com saúde. Entre 2000 e 2008, em média, os gastos com saúde por pessoa aumentaram 4,2% ao ano, de acordo com informações da OCDE (Organização para a Cooperação Econômica Européia). Health-care spendingsA média de gasto nessa área atingiu, entre os países ricos, 8,4% do PIB no período em questão, enquanto na década anterior a média era de 7,3%.

Por trás do aumento de gastos, muitas explicações. As novidades tecnológicas fazem os tratamentos mais caros e há também maior demanda por tratamento com a elevação da expectativa de vida. A certeza é que o aumento de gastos com saúdes continuará.

No Brasil, não há dados organizados e disponíveis sobre o assunto, considerando que os gastos com saúde provêem dos governos federal, estaduais e municipais, além dos dispêndios privados das famílias com planos particulares. A tarefa é mesmo árdua. Alguns cálculos já apontaram que o gasto total com saúde no Brasil pode ter atingido R$ 166 bilhões em 2006 e R$ 192,8 bilhões em 2007. A conta para chegar a um número final e crível sobre o gasto com saúde no Brasil é complexa.

O IBGE publicou, em dezembro de 2009, um estudo sobre o assunto. Os gastos com saúde, segundo o órgão, atingiram 8,4% do PIB brasileiro em 2007, dos quais mais da metade foi desembolsado pelas famílias. O IBGE computou gastos com medicamentos também para chegar ao resultado.

Essas duas informações – os estudos da OCDE e do IBGE – trazem dados interessantes. O Brasil e os países ricos gastam 8,4% do PIB com saúde. A diferença é que, lá, os serviços parecem funcionar muito melhor em comparação ao atendimento prestado ao brasileiro. Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha gastam mais de 10% do PIB com saúde e os norte-americanos recentemente aprovaram uma lei ampliando o acesso aos serviços entregues pelo poder público, o que deve ampliar os dispêndio nos próximos anos.

Mais do que retratar filas de pessoas sem atendimento e idosos doentes deitados em macas nos corredores – o que não deixa de ser extremamente importante -, a imprensa poderia fazer matérias mostrando à população que o Brasil gasta tanto quanto os países ricos em saúde, mas os brasileiros não recebem tantos serviços quanto americanos e europeus. Colocar mais dinheiro resolverá o problema? Ou colocar mais dinheiro está longe de ser a solução para a qualidade do atendimento no sistema de saúde brasileiro?

No jornalismo, relembrar é obrigação, mas sem superficialidade

Relembrar é viver, prega a velha máxima. No jornalismo, é uma obrigação. Dificilmente os fatos encerram-se no momento em que aconteceu – carregam consequências e exigem novas ações e atitudes no futuro. Quando envolve somente agentes privados, pessoas e empresas, vale ao jornalista relembrar a notícia para verificar se a sociedade aprendeu com erros cometidos ou se repetiu acertos. Quando há o poder público envolvido, a tarefa é verificar se as medidas corretivas e preventivas foram adotadas, já que que o governo é nada mais que o zelador dos bens e recursos de todos.

Bem fez, então, a Folha de S.Paulo ao relembrar o que tem feito pessoas comuns e administração pública municipal para remediar e evitar as inundações e as perdas materiais no Jardim Pantanal, Zona Leste da cidade de São Paulo, derivadas dos problemas ocorridos durante meses de chuvas fortes e atípicas que causaram enchentes e muito transtorno na capital paulista.

A reportagem recupera a frustração da famílias que perderam mobiliário e expectativa de receberem dinheiro do poder público, na medida em que se vêem como vítimas da inação do poder público. Do outro lado, a prefeitura caminha para retirar do local moradores que invadiram áreas, se é que será possível detectar tal comportamento, e investe na construção de um dique e de um piscinão.

3jul Jd Pantanal O ponto forte dessa matéria do jornal é tentar contar o fim da história de fatos amplamente abordados poucos meses atrás – considerando que as chuvas fortes na capital paulista ocorreram entre os últimos meses de 2009 e os primeiros de 2010.

Peca, no entanto, por tratar o tema de forma superficial, dramatizando de forma pasteurizada o cotidiano das famílias e relegando ao papel de coadjuvante as ações do poder público para todo um bairro. Diante da dimensão do acontecimento, importa mais a foto panorâmica que permita visualizar a permanência da devastação do que a imagem fechada de um casal na soleira da porta. Importa mais trazer dados que dimensionem a quantidade d famílias prejudicadas e os gastos do poder público do que a descrição dos móveis dentro de uma casa ou das atividades informais que um comerciante pratica para auferir renda.

O erro jornalístico no caso é superdimensionar o drama de forma artificial e tentar criar empurrar o leitor para uma percepção sem dar a ele a chance de comparar e tirar as próprias conclusões. Sem dúvida que cabe e é imprescindível a narração das dificuldades das famílias que ainda moram no local, mas não deve ser o começo, meio e fim da matéria.

Há perguntas demais sem respostas para permanecer somente na superfície do drama. Como viviam essas pessoas antes das enchentes? Será que a população local já não vivia de atividades informais antes? Será que a família que perdeu móveis é diferente dos milhares de pessoas que vivem a mesma situação depois de enchentes? Qual era a infraestrutura o bairro antes e depois das fortes chuvas? A remoção das famílias para locais sem risco é algo juridicamente, financeiramente e fisicamente possível? Ou apenas engambelação?

No fundo, talvez tenha faltado método e discussão para ajudar a equipe de reportagem a ir para as ruas com uma lista mínima de dados essenciais para serem colhidos e tornar bem-sucedida a boa pauta jornalística. Há muita pergunta sem resposta para dar superexposição para o velho e mascado retrato da família pobre em situação de sofrimento.

Para saber mais: De volta ao Pantanal, reportagem (só para assinantes do jornal Folha de S. Paulo ) que busca relatar como está o bairro Jardim Pantanal, um dos mais prejudicados com as mais recentes enchentes de Sâo Paulo.

Citação de brasileiros ainda é a mais popular no Twitter mundial quase 24 depois

Segundo estudo publico pelo Blog do Twitter, são produzidas cerca de 50 milhões de tweets por dia – mensagens da rede social Twitter com até 140 caracteres – entre as pessoas cadastradas.

Este dado é importante para medir o quanto o Twitter já faz parte do cotidiano do brasileiro, que utiliza da rede social para conversar com o mundo.

Depois da partida entre Cruzeiro e São Paulo pelas quartas de final da Copa Santander Libertadores 2010, a citação #Mineiraocalou passou a figurar no topo da lista dos “trending topics” no Brasil e, depois, no mundo todo. A lista mostra os dez assuntos mais comentados na rede social.

A citação faz parte da música provocativa cantada pela torcida são-paulina já próximo do fim do jogo, uma alusão ao silêncio dos mais de 48 mil torcedores cruzeirenses, que acompanhavam o time mineiro, franco favorito, perder por dois gols a zero da equipe paulista em pleno estádio Mineirão, em Belo  Horizonte.

O blog Meio de Campo do portal Globo.com calculou a audiência da citação e chegou à conclusão de que #Mineiraocalou representou 0,03% das mensagens publicadas por internautas do mundo todo no Twitter. Muitos estrangeiros perguntavam pelo Twitter o que significava a expressão, ajudando a turbinar a #Mineirãocalou Worldwideaudiência.

Basta fazer a conta: 0,03% de 50 milhões de mensagens diárias é igual a 15.000 tweets naquelas horas após o jogo. E horas depois, já na manhã brasileira, a citação permanecia no topo da lista mundial de “trending topics”.

E ainda permanece. O jogo no estádio Mineirão acabou por volta de meia-noite da quarta-feira, dia 12 de maio. Mas, às 22h do dia 13, quase 24 horas depois, as listas de “trending topics” do Brasil e do mundo ainda tinham, no topo, a expressão #Mineiraocalou.

Saiba mais: se quiser ficar atualizado sobre recursos do Twitter, redes sociais e internet, acompanhe o blog Vida em Rede, de Rafael Sbarai, publicado no portal Veja.com.