Porque filmar uma imagem?

Essa é a pergunta que guia o trabalho do francês Vincent LuaVincent Lua, que viaja pelo mundo com uma mochila, um laptop e uma câmera, filmando música e rituais do mundo que as pessoas raramente vêem.

Aqui, apenas uma fração da longa palestra dele no TED Talks, realizado no Rio de Janeiro, em outubro de 2014:

“Por que nós filmanos (algo)? Eu ainda estava lá (ainda penso nessa questão). Eu realmente acredito que o cinema nos ensina a ver. A forma como nós mostramos o mundo vai mudar a forma como vemos este mundo, e nós vivemos em um momento em que os meios de comunicação estão fazendo um terrível, terrível trabalho ao representar o mundo: violência, extremistas, apenas eventos espetaculares, apenas simplificações da vida cotidiana. Eu acho que nós estamos filmando para recuperar certa complexidade. Para reinventar a vida hoje em dia, nós temos de fazer novas formas de imagens. E isso é muito simples.”

Crise hídrica em São Paulo: qual gráfico mostra com mais eficiência o quanto há ainda de água?

O Estado de São Paulo – bem como toda a Região Sudeste, outros estados brasileiros e outros países – atravessam uma crise hídrica causada por índices pluviométricos muito abaixo da média histórica, de forma atípica. Cidadãos e especialistas questionam as causas, buscam os culpados e tentam decifrar os sinais para descobrir o que acontecerá no futuro próximo.

Dois gráficos recentes publicados no jornal O Estado de S. Paulo tentam explicar ao cidadão o quanto ainda há de água nos reservatórios que atendem a Região Metropolitana no entorno da capital paulista. É a fotografia do momento.

Publicado no dia 27 de setembro pelo biólogo Fernando Reinach, um gráfico simples mostra o quanto há ainda de água no Sistema Cantareira, um conjunto de represas ao norte da capital paulista e que atende a maior parte dos cidadãos da Região Metropolitana.

Fernando Reinach - Cantareira

A grande ajuda que este gráfico traz é mostrar a quantidade de água em números absolutos, expressos pela unidade de medida “milhões de metros cúbicos”. Mais que isso: o gráfico apresenta o volume de água no primeiro dia de cada ano desde 1983, o que permite às pessoas descobrirem o quanto se gastou de água no ano anterior, considerando as entradas e as saídas de água no Sistema Cantareira. Dá a sensação que há ainda uma quantidade de água suficiente para aguentar mais alguns meses de extrema estiagem e rezar para que chova.

Outros infográficos mostram o volume de água em cada sistema em unidade de medida proporcional, expresso na forma de “% da capacidade do sistema”. Assim, o número mostra ao leitor o quanto há de água em relação ao quanto cabe de água em cada sistema.

Siatuação dos mananciais 22out14

O ponto alto deste infográfico, publicado dia 22 de outubro, é permitir que o leitor tenha uma noção mais completa de quanto há de água em todos os reservatórios que atendem a Região Metropolitana de São Paulo e qual reservatório atende quais cidades e bairros.

No entanto, passa a impressão, errada, que o Sistema Cantareira vai secar completamente em poucos dias, mesmo que haja informação de rodapé noticiando que é preciso considerar as cotas do volume morto – uma reserva de água que está abaixo das tubulações que captam a água do reservatório por gravidade (sem uso de bombas).

O ideal seria ter, em um gráfico como o elaborado por Fernando Reinach, a quantidade de água disponível e a capacidade de todos os reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos) que atendem a Região Metropolitana de São Paulo.

Ou então elaborar uma infografia com múltiplos gráficos pequenos, um para cada reservatório, um do lado do outro, mostrando a capacidade e a quantidade de água disponível nos reservatórios (em números absolutos, em milhões de metros cúbicos).

Como lembra o biólogo, em boa parte do artigo publicado dia 27 de setembro, o governo paulista – e nenhum governo, pela regra – não pode perder a batalha de comunicação: precisa ser transparente e claro, para evitar ruídos e informação equivocada. A imprensa também não pode perder essa batalha.

Para atrair jovens, mídia tem de pautar o dia a dia deles com seriedade – como fez o New York Times

A notícia é do The New York Times, que fez questão de dar grande visibilidade para o assunto na capa do jornal, dia 31 de agosto.

Na cidade de Seattle, mais de 11 mil jovens se reuniram em um ginásio de basquete para participar de um evento onde as equipes disputam competição de videogame.

Eventos como esse, não necessariamente com este porte e nível de organização, acontecem nas principais capitais globais, mas a imprensa não acompanha. Um dos motivos é porque a mídia está automaticamente orientada para cobrir política e economia, sobretudo o que os governos divulgam.

Essa reportagem do diário norte-americano é um bom exemplo para mostrar que é possível fazer, no dia a dia, matérias para públicos mais jovens, sem segregá-las em cadernos que são publicados uma vez por semana.

Os jovens têm, tal qual os adultos, inúmeras atividades diárias relacionadas com a escola, com entretenimento e com esportes. Se a imprensa quer atrair e fidelizar esse público, precisa condicionar os repórteres a procurar estes assuntos e cobri-los sem os infantilizar.

The New York Times - 31ago2014 - Cópia

Veja mais:

Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens.

Jornal impresso pode interagir mais com leitores – e outros textos corrrelatos.

A opinião das crianças nas reportagens: como garantir naturalidade e precisão?

pedidos das crianças

Em 14 de outubro de 2012, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem a partir da opinião de crianças entre 9 e 12 anos. Elas sugeriam o que o próximo prefeito da cidade de São Paulo – que viria a ser Fernando Haddad – deveria fazer ou ter como prioridade.

Nada de errado em escutar a opinião das crianças. No entanto, por mais que o texto do jornal explicite claramente que os jovens foram ouvidos por jornalistas, há muitas dúvidas se a opinião é realmente dos entrevistados mirins ou dos repórteres.

Esse problema é comum em matérias desse tipo, que tentam tornar adultos mais pueris ou fazer das crianças pessoas mais maduras do que elas realmente são. É comum os pais enviarem a opinião dos filhos aos jornais – o que geralmente resulta na opinião dos pais, induzindo os filhos a darem respostas automáticas e condicionadas para perguntas nas quais eles nunca pensaram. Não raramente, os pais respondem, de forma velada, pela criança, para que ela fale aquilo que os pais considerem adequado.

Mesmo que a redação do jornal tenha enviado repórteres para entrevistar as crianças, a deturpação da opinião pode facilmente acontecer, mesmo sem intenção. Quando o jovem entrevistado não formula boas respostas – ou respostas esperadas pelo entrevistador – as perguntas podem facilmente ser feitas de forma a ajudar a criança a responder aquilo que o jornal gostaria de ouvir. Não há maldade. A pauta precisa ser cumprida.

É claro que pode ter ocorrido a coincidência de a reportagem ter encontrado várias crianças com elevado grau de opinião política, sintonizadas com os problemas da cidade e as obrigações de um prefeito – e que saibam expressar as ideias de forma clara. Mas matérias desse tipo deixam sempre a dúvida: será que as frases reproduzidas expressam realmente a opinião das crianças? Ou as ideias dos pais ou repórteres?

A solução é dar transparência ao método de apuração das informações. Explicar ao leitor quantas entrevistas foram feitas, quantas foram aproveitadas e quantas foram descartadas. Reproduzir com mais fidelidade as frases ditas pelas crianças, na ordem natural que elas foram formuladas e pronunciadas, corrigindo, eventualmente, somente erros de sintaxe.

Além disso, às crianças poderia ser dada a oportunidade de pensar sobre os temas centrais da reportagem antecipadamente, em uma aula especialmente formulada pelos professores. Assim, os jovens entrevistados estariam mais extrovertidos e seguros para responder, com naturalidade, as perguntas dos repórteres.

Se você fosse um governante, em qual área aplicaria escassos recursos disponíveis?

Três reportagens e artigos publicados nos últimos meses na imprensa suscitam uma pergunta: se você fosse um governante, em qual política pública empregaria recursos disponíveis?

O valor é hipotético: R$ 50 milhões à disposição no caixa. Esse dinheiro pode ser suficiente para construir uma obra ou suficiente para resolver um problema somente parcialmente, atenuá-lo ou manter uma política pública por um ano.

(       ) Programa parcial para custear o trabalho de assistentes sociais com a obrigação de visitar famílias pobres para ampliar o potencial de aprendizagem de crianças pobres já desde os primeiros meses de vida delas, como mostra essa reportagem da revista Exame.

(       ) Programa parcial para diminuir a incidência de diarreia em famílias em situação de extrema pobreza e pouca infraestrutura de saneamento básico, como explica Drauzio Varella em artigos publicados no jornal Folha de S. Paulo em 2010 e em 2013.

(       ) Ação emergencial para amenizar a grave crise financeira da Universidade de São Paulo (USP), que, em 2013, comprometeu 105% do orçamento disponível com pagamento de salários de funcionários e professores, conforme mostra reportagem da Folha de S. Paulo,  trabalhadores estes que permaneceram em greve por mais de cem dias porque a universidade informou que não havia recursos para aumento salarial em 2014.

(       ) Projeto, com começo, meio e fim, para construir ciclovias na avenida Paulista e em outras avenidas, garantindo o direito de pessoas que querem utilizar bicicletas para deslocamentos diários pela cidade de São Paulo, conforme mostra reportagem na Folha de S. Paulo.

O modelo The New York Times de fazer e divulgar reportagens para o público mais jovem

NYT - Be yourself music videos

O The New York Times, como todos os jornais ao redor do mundo, se preocupa em publicar reportagens para todos os perfis possíveis de leitores. Um dos grandes desafios nas redações é escolher temas que interessem a crianças e adolescentes, principalmente com uma abordagem que não pareça infantil ou inocente demais para os leitores mais jovens.

Um grande erro dos jornalistas é tratar crianças e adolescentes como inocentes ou desinformados, um equívoco gigantesco, principalmente na era de difusão de informações nas redes sociais. Ou então anunciam como uma grande novidade algo que já está presente na conversa dos mais jovens há anos. Crianças e adolescentes sabem mais que os adultos sobre temas que lhes são de interesse. Mas a maioria das reportagens parece querer agradar os pais em vez dos filhos.

O The New York Times deve enfrentar o mesmo desafio diariamente. O jornal, no entanto, busca conversar com o público mais jovem com regularidade. Inclusive, mensalmente, seleciona uma coleção de reportagens que tratam de temas de interesse de crianças e adolescentes e publica em um blog, The Learning Network, que tem o objetivo de colaborar com professores que gostam de usar jornais e matérias para debates em salas de aula. É uma fonte inspiradora de pautas para os diários em qualquer país, guardadas as diferenças culturais e comportamentais entre jovens nos EUA e em outras nações, claro.

Exemplos – Em uma reportagem, o Times aborda a atuação de adolescentes com habilidades em tecnologia e que estão usando tais competências para empreender no mundo dos negócios, criando aplicativos e soluções digitais impulsionados pela difusão de ferramentas gratuitas de baixo custo.

NYT - Technologically skilled teenagers

Outra matéria analisa o conteúdo de musicas e vídeos recentes que dizem aos adolescentes para serem seguros com o corpo deles, ou “serem eles mesmos”, sejam eles mais gordos ou mais magros do que aquilo que pode ser considerado padrão em alguns grupos ou localidades.

Numa era que milhares de fotografias estilo “selfie” são publicadas todos os minutos, o discurso presente da letra das músicas capta o gosto dos mais jovens. Isso acontece há anos, claro, seja para a estética ou para qualquer outro comportamento. Os jornais precisam ficar atentos.

Detalhe importante: as reportagens não são segregadas em um caderno especial publicado uma vez por semana. Elas são impressas em quaisquer partes do jornal, sendo comum encontrá-las nas editorias de comportamento, ciência, economia ou política.

Para evitar mensagens subliminares em manchetes, jornais precisam contextualizar mais os fatos

Palestras MarinaO jornal Folha e S. Paulo publicou reportagem dia 31 de agosto informando que a candidata à Presidência da República, Marina Silva, recebeu, entre março de 2011 até maio de 2014, R$ 1,6 milhão por proferir palestras, por meio de uma empresa aberta para estes fins. Foram 72 palestras.

A reportagem é puramente informativa, não opina, somente apresenta fatos, de forma evidente e patente. Mas o  problema é a mensagem subliminar que muitos leitores podem interpretar, por mais que o jornal possa se defender que não disse e nem pretendeu dizer nada além do que está escrito no texto.

Para quem lê a manchete de um grande jornal de circulação nacional, sempre fica a sensação de que há algo errado em informação deste estilo. Um leitor com menos informações pode concluir alto do tipo: “Político é tudo igual, sempre trabalhando em causa própria”. Um leitor mais bem informado pode perguntar: “E daí?”

Faltou contextualizar – A melhor forma que o jornal teria para não incorrer no erro de ser acusado de passar uma mensagem subliminar seria contextualizar. Oferecer ao leitor informações que mostrem a floresta toda, e não somente uma única árvore, é uma regra de ouro do jornalismo e dá ao leitor a oportunidade de inferir a interpretação que considerar melhor.

Que contexto? Primeiro, usar o mesmo método jornalístico empregado para obter as informações da ex-senadora Marina Silva e obter também os dados de ex-presidentes ou de ex-ocupantes de cargos públicos que ganharam dinheiro com a mesma atividade – proferindo palestras após deixar a função pública.

Bastava ao jornal, inclusive, fazer uma pesquisa detalhada no próprio arquivo. Em maio de 2011, a Folha informou que Luís Inácio Lula da Silva, já fora da Presidência da República, estava prestes a faturar US$ 1,2 milhão em quatro palestras.

Segundo, o jornal poderia ser explícito e escrever que ganhar dinheiro proferindo palestras é uma atividade privada legal, desde que haja pagamento de impostos na forma da lei.

Atualizado em 10/09/2014:

A ombudsman da Folha e S. Paulo analisou outas informações que contemplam o cerne do artigo aqui em questão: a falta de dados que ajudassem o leitor a contextualizar a notícia e dar a ela o devido grau de importância.

A jornalista Vera Guimarães Martins faz contas e descreve que o valor recebido pela presidenciável Marina Silva “não trazia anomalia que justificasse manchete”. O jornal não considerou conceitos econômicos como inflação e impostos, entre outros apontados.

Exemplo: “A começar pelo valor: sua empresa recebeu esse montante em 39 meses, o que dá uma média mensal de R$ 41 mil, normal para uma ambientalista de fama mundial, ex-senadora e ex-ministra de Estado.”