O modelo The New York Times de fazer e divulgar reportagens para o público mais jovem

NYT - Be yourself music videos

O The New York Times, como todos os jornais ao redor do mundo, se preocupa em publicar reportagens para todos os perfis possíveis de leitores. Um dos grandes desafios nas redações é escolher temas que interessem a crianças e adolescentes, principalmente com uma abordagem que não pareça infantil ou inocente demais para os leitores mais jovens.

Um grande erro dos jornalistas é tratar crianças e adolescentes como inocentes ou desinformados, um equívoco gigantesco, principalmente na era de difusão de informações nas redes sociais. Ou então anunciam como uma grande novidade algo que já está presente na conversa dos mais jovens há anos. Crianças e adolescentes sabem mais que os adultos sobre temas que lhes são de interesse. Mas a maioria das reportagens parece querer agradar os pais em vez dos filhos.

O The New York Times deve enfrentar o mesmo desafio diariamente. O jornal, no entanto, busca conversar com o público mais jovem com regularidade. Inclusive, mensalmente, seleciona uma coleção de reportagens que tratam de temas de interesse de crianças e adolescentes e publica em um blog, The Learning Network, que tem o objetivo de colaborar com professores que gostam de usar jornais e matérias para debates em salas de aula. É uma fonte inspiradora de pautas para os diários em qualquer país, guardadas as diferenças culturais e comportamentais entre jovens nos EUA e em outras nações, claro.

Exemplos – Em uma reportagem, o Times aborda a atuação de adolescentes com habilidades em tecnologia e que estão usando tais competências para empreender no mundo dos negócios, criando aplicativos e soluções digitais impulsionados pela difusão de ferramentas gratuitas de baixo custo.

NYT - Technologically skilled teenagers

Outra matéria analisa o conteúdo de musicas e vídeos recentes que dizem aos adolescentes para serem seguros com o corpo deles, ou “serem eles mesmos”, sejam eles mais gordos ou mais magros do que aquilo que pode ser considerado padrão em alguns grupos ou localidades.

Numa era que milhares de fotografias estilo “selfie” são publicadas todos os minutos, o discurso presente da letra das músicas capta o gosto dos mais jovens. Isso acontece há anos, claro, seja para a estética ou para qualquer outro comportamento. Os jornais precisam ficar atentos.

Detalhe importante: as reportagens não são segregadas em um caderno especial publicado uma vez por semana. Elas são impressas em quaisquer partes do jornal, sendo comum encontrá-las nas editorias de comportamento, ciência, economia ou política.

Para evitar mensagens subliminares em manchetes, jornais precisam contextualizar mais os fatos

Palestras MarinaO jornal Folha e S. Paulo publicou reportagem dia 31 de agosto informando que a candidata à Presidência da República, Marina Silva, recebeu, entre março de 2011 até maio de 2014, R$ 1,6 milhão por proferir palestras, por meio de uma empresa aberta para estes fins. Foram 72 palestras.

A reportagem é puramente informativa, não opina, somente apresenta fatos, de forma evidente e patente. Mas o  problema é a mensagem subliminar que muitos leitores podem interpretar, por mais que o jornal possa se defender que não disse e nem pretendeu dizer nada além do que está escrito no texto.

Para quem lê a manchete de um grande jornal de circulação nacional, sempre fica a sensação de que há algo errado em informação deste estilo. Um leitor com menos informações pode concluir alto do tipo: “Político é tudo igual, sempre trabalhando em causa própria”. Um leitor mais bem informado pode perguntar: “E daí?”

Faltou contextualizar – A melhor forma que o jornal teria para não incorrer no erro de ser acusado de passar uma mensagem subliminar seria contextualizar. Oferecer ao leitor informações que mostrem a floresta toda, e não somente uma única árvore, é uma regra de ouro do jornalismo e dá ao leitor a oportunidade de inferir a interpretação que considerar melhor.

Que contexto? Primeiro, usar o mesmo método jornalístico empregado para obter as informações da ex-senadora Marina Silva e obter também os dados de ex-presidentes ou de ex-ocupantes de cargos públicos que ganharam dinheiro com a mesma atividade – proferindo palestras após deixar a função pública.

Bastava ao jornal, inclusive, fazer uma pesquisa detalhada no próprio arquivo. Em maio de 2011, a Folha informou que Luís Inácio Lula da Silva, já fora da Presidência da República, estava prestes a faturar US$ 1,2 milhão em quatro palestras.

Segundo, o jornal poderia ser explícito e escrever que ganhar dinheiro proferindo palestras é uma atividade privada legal, desde que haja pagamento de impostos na forma da lei.

Atualizado em 10/09/2014:

A ombudsman da Folha e S. Paulo analisou outas informações que contemplam o cerne do artigo aqui em questão: a falta de dados que ajudassem o leitor a contextualizar a notícia e dar a ela o devido grau de importância.

A jornalista Vera Guimarães Martins faz contas e descreve que o valor recebido pela presidenciável Marina Silva “não trazia anomalia que justificasse manchete”. O jornal não considerou conceitos econômicos como inflação e impostos, entre outros apontados.

Exemplo: “A começar pelo valor: sua empresa recebeu esse montante em 39 meses, o que dá uma média mensal de R$ 41 mil, normal para uma ambientalista de fama mundial, ex-senadora e ex-ministra de Estado.”

Opinião a gente respeita: Leitor mostra que conhece significado das palavras

Opinião leitorPara quem acha que os leitores recebem as informações pelos jornais e aceitam a interpretação do jornalista ou o discurso do governante, fica aqui a opinião do leitor, publicada dias atrás na Folha de S. Paulo. O leitor mostrou que conhece o significado das palavras.

Jornais acertam em confrontar números e discurso dos candidatos – e podem avançar ainda mais

O Globo - Preto no BrancoOs jornais estão confrontando o que os candidatos dizem nos debates eleitorais ou nos atos de campanha. O objetivo é oferecer ao leitor, de forma visual evidente e fácil de perceber, o que é verdade, meia verdade ou mentira no discurso dos políticos que almejam um cargo público.

Se um candidato exagera ou mente com frequência, essa acareação jornalística ajuda o eleitor a tirar conclusões sobre o caráter e o comportamento do candidato.

Além dos jornais de grande circulação, a Agência Pública, online, também inaugurou um projeto para confrontar os números e os fatos ditos pelos candidatos durante a campanha.

O jornal O Globo também criou um site específico, chamado Preto no Branco, para checar o que é dito pelos candidatos – e reproduz parte dessas avaliações na versão impressa do diário.

2014-08-31 11.52.25Outra ideia – A iniciativa é boa, mas poderia ir um pouco além. Os jornais fazem um esforço enorme para confrontar os números e fatos ditos pelos candidatos e publicar, na versão impressa do dia seguinte, o resultado dessa acareação. Pior ainda quando o fato político, o debate entre candidatos na televisão, ocorre à noite e termina muito tarde.

A solução é ignorar a temporalidade dos fatos e produzir um material consistente, de fácil visualização, para os dias seguintes ou para o fim de semana, quando o leitor está mais propício a receber reportagens atemporais e mais contextualizadas.

Duas boas ideias de infografias, mas detalhes e tempo exíguo comprometeram o resultado final

FlamengoGaza - Mortos e foguetes

Um dos principais desafios na elaboração de infografias no jornalismo é aliar o prazo exíguo para a produção das notícias e a complexidade de encontrar e coletar as estatísticas e produzir gráficos esclarecedores, contextualizados e relevadores.

Quando o jornalista termina a apuração dos fatos, geralmente há poucas horas – quando não, minutos – para que os infografistas pensem em uma solução e a coloque em prática. Na maioria das vezes, a única saída é escolher um gráfico simples, de barras ou colunas. São os desafios do ‘hard news’, expressão que indica as notícias que surgem no dia e precisam ser investigadas no mesmo dia, para constarem na edição do dia seguinte.

Nos últimos dias, duas reportagens chamaram a atenção por apresentarem duas infografias que são bonitas, funcionais, que contextualizam a notícia e revelam novas informações. No entanto, dois pequenos detalhes prejudicaram o resultado final, provavelmente fruto da pressa do dia a dia jornalístico. “Fecha! Fecha!”, é a ordem no fim do dia.

Carreira de Vanderlei Luxemburgo – Uma reportagem, da Folha de S. Paulo, informou, em pequeno texto, o retorno do técnico Vanderlei Luxemburgo ao Flamengo, equipe de futebol do Rio de Janeiro que se encontra em posição ruim no Campeonato Brasileiro de 2014. Nos últimos anos, o técnico tem acumulado críticas e resultados frustrantes.

De forma inteligente, os jornalistas criaram um gráfico de colunas que funciona como uma linha do tempo, mostrando uma estatística qualquer e pontuando momentos bons e ruins na carreira do treinador. “Uma estatística qualquer?” Sim, pois a bela infografia não indica ao leitor qual é a estatística expressa nas colunas. Pontos conquistados? Número de vitórias? Faltou a informação no eixo ‘y’, no rótulo de dados ou abaixo do título do gráfico. O que cada coluna mostra? Uma pena. Já a linha do tempo funciona perfeitamente, com setas e fotos de momentos diferentes da carreira de Luxemburgo.

Técnico Luxembrugo

Foguetes na Faixa de Gaza – Outra reportagem relata mais um dia de combates entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza. A ideia foi utilizar dois gráficos de colunas empilhadas para somar números de israelenses e palestinos mortos, em um gráfico, e quantidade de foguetes disparados pelo Hamas que foram interceptados ou não pelo exército de Israel. A soma das variáveis em cada gráfico deveria informar a quantidade total de mortos e de foguetes disparados, respectivamente.

No entanto, na legenda do gráfico que aborda os foguetes, a cor escura indica foguetes disparados e a cor clara indica foguetes que atingiram Israel. Na verdade, é a soma das duas informações que representam o total de foguetes disparados. Uma parte é a quantidade de foguetes interceptados, enquanto a parte restante é a quantidade de foguetes não interceptados que atingiram o solo israelense. Isso é o que se presume dos números. Uma pena, novamente.

Gaza - Mortos e foguetes 2

As duas ideias foram muito bem concebidas e até bem executadas, se considerar o tempo exíguo que os profissionais têm para coletar e organizar as estatísticas, planejar e produzir as infografias. Pequenos detalhes, no entanto, acabam dificultando o entendimento por parte do leitor.

Opinião a gente respeita. No pós-Copa, leitor volta a pensar mais na saúde e menos no futebol

Carta FSPApós o frenesi por causa da realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014 e por causa da imensa exposição que a mídia deu ao evento, os brasileiros começaram a dar atenção novamente para os temas do cotidiano, como segurança, saúde e educação, entre outros assuntos.

Uma das notícias que chamaram a atenção das pessoas foi o fechamento temporário do setor de pronto-socorro médico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o hospital mais antigo da cidade, aberto ao público em 1884. O setor realiza cerca de 1.500 atendimentos diários.

O hospital paulista tem orçamento anual de R$ 1,3 bilhão, dívidas acumuladas de R$ 350 milhões, 2.510 leitos e 18.000 funcionários. Ao ano, realiza 3,5 milhões de atendimentos médicos e 6,0 milhões de exames. No Brasil, há 383 Santas Casas, com uma dívida total acumulada de R$ 15 bilhões.

Os leitores avaliam que a mídia dá mais espaço ao novo técnico da seleção do que à crise no importante hosítal paulista. E que o dinheiro público deveria ir prioritariamente para hospitais, e não apra estádios de futebol.

Qual foi o resultado de programa piloto lançado há cinco anos para melhorar qualidade na escola?

Em janeiro de 2009, o jornal O Estado de S. Paulo publicou reportagem relatando a decisão do governo paulista de copiar uma iniciativa da prefeitura de Nova Iorque na área de educação e estudada pelo Instituto Fernand Braudel para melhorar a aprendizagem nos piores colégios públicos do estado.

Lá, o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, instituiu em 2001 um programa específico para as escolas mais problemáticas, que acumulavam uma lista de problemas como salas superlotadas, muitos estudantes acima da idade adequada para a série, currículos defasados, repetência e evasão elevadas e baixos índices de conclusão de curso. Eram também locais de brigas de gangues rotineiramente.

A ideia, segundo relatou o jornal, era que as escolas com piores indicadores recebessem “apoio técnico para criar mecanismos de gestão e supervisão do trabalho pedagógico e reforçar o compromisso de diretores, professores e pais com o desempenho dos alunos”. Além disso, especialistas em língua portuguesa e matemática ofereceriam orientação aos professores nas aulas. Frequência e rotatividade de docentes e alunos seriam monitoradas e casos de violência
seriam rapidamente encaminhado às autoridades.

Iniciativa fernand Braudel

Comparar resultados – Durante os meses de propaganda eleitoral, seria interessante voltar ao tema, verificar o que aconteceu, identificar quais escolas foram selecionadas e comparar os resultados anteriores e posteriores à instituição da iniciativa.

Um dos principais desafios da imprensa é oferecer aos leitores e telespectadores informações que demonstrem o resultado de iniciativas que os jornalistas acabam sendo porta-vozes ao reportarem os fatos no exercício diário da função.

É comum as pessoas, ao folhearem uma edição antiga de jornal ou revista, se questionarem sobre o resultado de um processo judicial ou do lançamento de um programa de grande repercussão no passado, mas que nunca mais leram uma linha depois de vários anos.