Se as enchentes em São Paulo, ao menos, se parecessem com essa …

Huntsville é uma cidade localizada no norte do Estado do Alabama, nos Estados Unidos, com 180 mil pessoas. Já o jornal tem uma tiragem de aproximadamente 60 mil exemplares diários. As enchentes, lá, parecem mais agradáveis que as de cá. Essa, estampada na capa do jornal, ocorreu dia 26.

The Huntsville Times 27jan12

Uma investigação jornalística nos Estados Unidos força governo a adotar correções. E aqui?

Dollars for Docs O jornal norte-americano The New York Times informou, dias atrás, que autoridades federais dos Estados Unidos devem determinar que as companhias farmacêuticas informem quanto e como pagam médicos por atividades como pesquisa, consultoria, palestras, viagens ou simplesmente entretenimento.

A medida é uma resposta à uma denúncia da imprensa – mais precisamente, do ProPublica, uma instituição independente de Nova Iorque que produz um tipo de jornalismo investigativo de fôlego, sem se pautar obrigatoriamente pela avalanche de anúncios e acontecimentos cotidianos.

Meses e meses – Os repórteres procuram as pautas, obtêm e perseguem pistas por semanas seguidas e publicam as matérias, algumas delas fruto de meses de investigação. Para amplificar a divulgação, costumam publicar as reportagens em parcerias com jornais, revistas e emissoras de TV tradicionais e de grande audiência.

Este modelo de jornalismo – ainda um pouco trôpego financeiramente, porque os recursos para praticá-lo chegam por doações, quase sempre intermitentes – já deu um prêmio Pulitzer inédito para o ProPublica em 2010.

A série de reportagens que o ProPublica publicou denomina-se “Dollars for Docs”, algo como “Dólares para os doutores”, uma menção ao pagamento encoberto e nada transparente feito pelas companhias farmacêuticas para custear as atividades de muitos médicos sem que o público fique sabendo dos intrincados conflitos de interesse que esse relacionamento acarreta.

Dados públicos – Tudo começou em outubro de 2010, quando os jornalistas compilaram as listas de pagamentos que as companhias farmacêuticas fazem aos médicos e montaram um banco de dados público disponível para pesquisas, de forma que os pacientes pudessem pesquisar o relacionamento dos doutores preferidos deles com as empresas que produzem e vendem os medicamentos. No Brasil, não há nada parecido com essa transparência que existe lá.

Vale um preâmbulo: uma investigação de fôlego como essa só é possível porque os dados, mesmo que desorganizados, estavam disponíveis. Os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, tem, há muito mais tempo, uma lei que determina a publicidade e a transparência em muitos tipos de informação pública. No Brasil, uma lei similar foi aprovada no fim de 2011 e ainda será testada na prática.

Precisa esperar dez anos para fazer essa matéria?

Na imprensa, um comportamento bastante comum é pesquisar temas que fazem aniversário para atualizar informações para o leitor depois de determinado período. O caso abaixo, publicado no jornal Folha de S.Paulo dia 16 de janeiro, é um bom exemplo. Relembra o assassinato do então prefeito da cidade de Santo André, na Grande São Paulo, Celso Daniel.

O crime até hoje está sem solução e está entre diversas suspeitas e conspirações. Entre os envolvidos no sequestro e assassinato do ex-prefeito, sete pessoas foram mortas ou assassinadas.

A pergunta que fica é: precisa esperar dez anos para lembrar o leitor sobre os desdobramentos dessa importante história? A resposta parece ser negativa. É claro que torna-se um marco negativo um caso como esse não ter solução depois de tanto tempo (o que amplifica o potencial de reverberação da notícia), mas um fato como esse, com variados e possíveis desdobramentos, precisa ser acompanhado constantemente pela mídia para não deixar a sociedade esquecer.

De qualquer forma, o jornal merece os parabéns, tanto pela idéia de relembrar o caso e atualizar o leitor quanto pelo projeto gráfico, que ficou muito bom.

Caso Celso Daniel

Uma página igual a essa todos os dias poderia mudar – para melhor – o rumo do Brasil

O jornal Folha de S.Paulo publicou uma boa reportagem dia 3 de janeiro. Pena que, em férias, boa parte dos leitores deixarão de lê-la. A matéria mostrou que a perda do cargo foi a única punição sofrida, até agora, pelos ministros que foram demitidos por causa de suspeitas de corrupção em 2011.

A imprensa brasileira, impressa, radiofônica ou televisiva, deveria divulgar uma reportagem dessa todos os dias – e as empresas de jornalismo deveriam concorrer entre si para ver quem faz melhor.

Quantas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), operações da polícia federal, investigações das corregedorias públicas ou denúncias da imprensa acabaram esquecidas porque faltou acompanhamento das empresas de jornais, rádios e programas de televisão?

A falta de informação sobre julgamentos, condenações e cumprimento de sentenças para os milhares de envolvidos em casos de suspeitas de corrupção somente alimenta o sentimento de impunidade no Brasil – e faz crescer a descrença de boa parte dos brasileiros com relação aos governantes, políticos e gestores públicos.

FSP Que fim levou

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Brasil deveria ter painel igual ao Impostômetro para informar o que ocorreu com casos de corrupção?

Pauta e infografia eficientes ajudam leitor a ter compreensão abrangente sobre assuntos latentes

Dois dias depois da realização do plebiscito no Pará, para a população local opinar se gostaria que o estado fosse ou não dividido em três, o jornal Folha de S.Paulo aproveitou a oportunidade do tema para mostrar ao leitor que, longe dos holofotes, há outras propostas requerendo o mesmo.

A infografia mostra claramene como ficariam os desejados novos estados, dimensionando, em cada um, a população futura em cada um. Os mapas complementam a matéria com muita eficiência, não repetem o texto e ajudam o leitor a ter uma compreensão bastante abrangente sobre o assunto.

FSP 13dez11 divisão de estados

O que há ao redor da linha de ônibus que corta 33 km da Região Metropolitana de São Paulo?

A dica de pauta de hoje sugere que a imprensa percorra o trajeto da linha de ônibus intermunicipal que aparece na parte de baixo do mapa do metrô da capital paulista conhecida como Corredor Metropolitano de ônibus ABD.

Esse corredor de transporte coletivo começa em São Mateus, bairro localizado no extremo da Zona Leste da capital paulista, e termina também em São Paulo, na Zona Sul da cidade, no bairro do Jabaquara, cruzando os municípios de Santo André, São Bernardo e Diadema. São 111 paradas e 33 quilômetros de extensão. Ao que consta em fóruns na internet, os usuários aprovam o serviço por causa do conforto, da velocidade e da quantidade de localidades que podem acessar.

ABD 2 A mídia, tradicionalmente, faz matérias mostrando as dificuldades que passam os cidadãos no sistema de transporte coletivo público. Da mesma forma,  em diversas cidades e estados, não é novidade reportagens sobre as linhas de ônibus ou as avenidas mais extensas.

Aqui, vae desvendar o que tem no entorno desse corredor. Qual o PIB local por onde essa linha percorre? É possível conseguir microdados do IBGE sobre as proximidades? Nos bairros mais nobres ou nos mais pobres, quais pratos ou bebidas é possível encontrar nos cardápios dos bares e lanchonetes? Quantas faculdades ou igrejas são servidos pela linha de ônibus? A linha atende 210 mil pessoas diariamente. E nos fins de semana?

ABD 3 O corredor, por ser segregado, consegue transitar com velocidade média maior. Quanto tempo ele demora para percorrer todo o percurso? Quanto tempo um passageiro gastaria para fazer o mesmo trajeto caso optasse por utilizar carro próprio?

O princípio dessa matéria é fazer comparações e mostrar curiosidades no percurso. Então, muitas outras perguntas nesse sentido são possíveis.

Mapa transporte SP

Prefeitos e vereadores não estão acostumados a prestar serviços. Mas isso terá de mudar

O crescimento econômico tem uma consequência positiva que muitas vezes passa despercebida até pelos mais beneficiados por ele: aumenta a exigência e a cobrança das pessoas por mais e melhores serviços, independentemente se eles são prestados pelo setor público ou pela iniciativa privada. Modelos e estruturas de atendimento, sem dúvida, terão de ser adaptados. Empresas correm o risco de perder mercado. Governos podem ver desaparecer popularidade.

FSP 17jul cartas Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo ajuda a debater esse assunto. Uma pesquisa avaliou a qualidade que o cidadão paulistano percebe em diversos serviços e aspectos do cotidiano da cidade, desde segurança e habitação até barulho e mobilidade. Muitos, mas muitos mesmo, pioraram, na ótica dos contribuintes.

A imprensa não pode tirar esse assunto do radar de cobertura, sobretudo quando a lupa precisa recair sobre a prestação de serviços públicos. Felizmente, a mídia tem aproveitado fontes e indicadores disponíveis para mostrar o nível de satisfação ou de reclamação dos munícipes, pressionar por melhorias, apontar acertos e erros, bons e maus exemplos.

FSP 16jul cartas Veja alguns exemplos. Em agosto, o ‘Estadão’ mostrou que um bar é fechado por dia na capital paulista por causa de violações à lei do silêncio – e, mesmo assim, as reclamações persistem. Em julho, a Folha de S. Paulo preparou reportagem sobre a qualidade ruim dos serviços no sistema municipal de saúde, com base em relatório de avaliação do Tribunal de Contas do Município (TCM) de São Paulo. Os auditores constataram que não faltam recursos, mas sim gestão. Cartas foram trocadas entre as partes envolvidas e publicadas pelo jornal.

A cobertura que a imprensa faz com que os contribuintes demandem mais respostas, cria pressão sobre os gestores públicos, oferece a oportunidade de eclodirem idéias e assim sucessivamente. É uma espiral de perguntas e respostas que se retroalimenta e trará amadurecimento para prefeitos, vereadores e munícipes.

Saiba mais:

1) Acesso o relatório completo do Tribunal de Contas do Município (TCM) de São Paulo que avalia a qualidade dos serviços prestados pela prefeitura aos munícipes.

2) O SACSP é um projeto interessante que ajuda cidadãos e jornalistas a perceberem facilmente quais os principais focos de reclamações na cidade de São Paulo. Foi produzido com dados da prefeitura.

Grandes duelos do futebol são oportunidade ímpar para mostrar quem são os melhores por infográfico

O Campeonato Brasileiro terminou com uma rodada repleta de clássicos entre clubes da mesma cidade. O título ficou com o Corinthians. O Vasco da gama ficou em segundo lugar. Logo em seguida, o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP), foi tomado por torcedores do Santos, cujo time embarcou solo japonês.

No Japão, daqui poucos dias, clubes representantes de todos os continentes começam o aquecimento para disputar mais uma edição do campeonato mundial organizado pela Fifa desde 2005. O que todos querem ver são as jogadas elásticas e rápidas de craques como Messi, do Barcelona, e Neymar, do Santos. É uma oportunidade para os jornais criarem infográficos que comparem os principais astros que entram em campo.

Afinal, todos querem saber o que provam os números e as estatísticas. Quem é melhor: Messe (Barcelona) ou Neymar (Santos)? Os fãs do basquete norte-americano já podem ver, conforme mostra o infográfico abaixo, a comparação entre dois dos maiores jogadores de todos os tempos da modalidade: Michael Jordan e Kobe Bryant.

Os dados podem estar desatualizados, pois Bryant (ainda em atividade) e Jordan (já aposentado) têm atualmente dois anos a mais.

The-Greatest-of-All-Time

O que os jornalistas disseram nos últimos dias

“Muito se falou quando da discussão do projeto da lei na questão do sigilo eterno, resolvida com a limitação a 50 anos para a liberação de documentos
tidos como secretos. Mas o principal ponto é a abertura de informações relativas ao cotidiano dos governos. Mudar isso, num ambiente em que o Estado se comporta como dono daquilo que de fato pertence ao cidadão, será algo equivalente a uma revolução.” (Dora Kramer, em “Outros quinhentos”, no O Estado de S. Paulo, dia 23/11/2011, sobre o desafio que será colocar em prática a lei de acesso à informações públicas, já aprovada e sancionada)

“A Itália está em crise. O Brasil não. A renda média de um italiano, de US$ 37 mil por ano, é quase três vezes a nossa. Se a renda per capita brasileira crescer 3% a cada 12 meses, vai levar 35 anos para atingir o ganho de hoje dos italianos.” (Vinicius Mota, em “O drama de cada um”, na Folha de S.Paulo, dia 28/11/2011, sobre o exagero da ascensão social brasileira e a crise entre os italianos, especificamente, e europeus, em geral)

“É sempre arriscado abrir espaços que possam tornar o cidadão refém do capricho de autoridades. Além disso, ao aprovar uma quantidade grande de lixo legislativo, isto é, normas inócuas ou criadas para não ser cumpridas, nós desvalorizamos a noção de lei.” (Hélio Schwartsman, em “Safanões pedagógicos”, na Folha de S.Paulo, dia 27 de novembro de 2011, contra palmadas, mas também contrário ao projeto de lei que pune pais por isso)

“Política industrial eficiente é aquela que reduz o Custo Brasil e prepara o país para os desafios futuros. Esse monte de remendo é apenas o atendimento aos lobbies que batem sempre em Brasília. Alguns governos são mais vulneráveis a essas pressões; outros, mais insensíveis. O atual faz parte do primeiro grupo.
O Brasil precisa de reduções mais fortes da carga de impostos através de uma verdadeira reforma tributária – sempre adiada.” (Miriam Leitão, em “Mais um arremedo”, em O Globo, dia 02/12/2011, criticando o princípio das medidas divulgadas no dia anterior pelo governo federal para estimular a economia)

Opinião a gente respeita. Leitor aceita ampliar consumo, desde que impostos diminuam

Carta FSP 27nov11 Dias atrás, diante do risco de a economia brasileira perder velocidade por causa da crise econômica internacional, que faz as autoridades governamentais dos países desenvolvidos apertarem cada vez mais os cintos, a presidente da República lembrou o ex-presidente da República e pediu que os brasileiros não deixem de consumir. O leitor topou. No entanto, quer contra-partida. Pediu menos impostos. Não suporta mais pagar uma das mais elevadas taxas tributárias no mundo e receber um dos mais desqualificados serviços públicos do planeta. Faz sentido.