Qual foi o resultado de programa piloto lançado há cinco anos para melhorar qualidade na escola?

Em janeiro de 2009, o jornal O Estado de S. Paulo publicou reportagem relatando a decisão do governo paulista de copiar uma iniciativa da prefeitura de Nova Iorque na área de educação e estudada pelo Instituto Fernand Braudel para melhorar a aprendizagem nos piores colégios públicos do estado.

Lá, o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, instituiu em 2001 um programa específico para as escolas mais problemáticas, que acumulavam uma lista de problemas como salas superlotadas, muitos estudantes acima da idade adequada para a série, currículos defasados, repetência e evasão elevadas e baixos índices de conclusão de curso. Eram também locais de brigas de gangues rotineiramente.

A ideia, segundo relatou o jornal, era que as escolas com piores indicadores recebessem “apoio técnico para criar mecanismos de gestão e supervisão do trabalho pedagógico e reforçar o compromisso de diretores, professores e pais com o desempenho dos alunos”. Além disso, especialistas em língua portuguesa e matemática ofereceriam orientação aos professores nas aulas. Frequência e rotatividade de docentes e alunos seriam monitoradas e casos de violência
seriam rapidamente encaminhado às autoridades.

Iniciativa fernand Braudel

Comparar resultados – Durante os meses de propaganda eleitoral, seria interessante voltar ao tema, verificar o que aconteceu, identificar quais escolas foram selecionadas e comparar os resultados anteriores e posteriores à instituição da iniciativa.

Um dos principais desafios da imprensa é oferecer aos leitores e telespectadores informações que demonstrem o resultado de iniciativas que os jornalistas acabam sendo porta-vozes ao reportarem os fatos no exercício diário da função.

É comum as pessoas, ao folhearem uma edição antiga de jornal ou revista, se questionarem sobre o resultado de um processo judicial ou do lançamento de um programa de grande repercussão no passado, mas que nunca mais leram uma linha depois de vários anos.

Dados abertos ajudam governos a combater o crime

mapa-violencia-2014O jornal O Globo divulgou dados da mais nova versão do Mapa da Violência, pesquisa que analisa estatísticas de crimes no Brasil, com apoio de dados públicos. Em 2012,  dois recordes: a taxa mais alta (29 mortos em cada 100 mil habitantes) e o maior número absoluto (56.337 homicídios).

Diversos motivos são listados para a persistente epidemia brasileira de violência. O baixo índice de solução – e consequentemente de punição – para os crimes é apontado como um dos principais.

IndicadoresJulio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência, estimou, em recente reportagem do Valor Econômico, que apenas 8% dos homicídios do país sejam solucionados. A mesma matéria trouxe uma reflexão: os níveis de renda e de escolaridade estão no pico histórico no Brasil, e a violência permanece elevada.

Fatores que interferem – A lista de fatores com correção ou interferência – o que não significa causalidade – nos indicadores de segurança pública são muitos: capacidade de coletar dados em tempo real, organização e transparência de estatísticas de crime, equipamentos (carros e outros itens) e tecnologia, evolução da economia e do nível educacional, capacidade do poder público prender, investigar, punir e educar, entre outros.

A realização da Copa do Mundo no Brasil, a partir de 12 de junho, deixará – em tese – melhorias na área de inteligência. Em tese porque, depois do evento, será necessário alocar recursos para operação e treinamento de recursos humanos.

Monitorar e capturar informação – O projeto, viabilizado graças à pressão do evento esportivo internacional, foi a construção de uma central de monitoramento de locais públicos, capaz de captar imagens de aproximadamente 500 câmeras que já operam em funções de segurança, transporte e trânsito. O governo federal investiu R$ 66 milhões, e o governo estadual paulista gastou R$ 2,25 milhões na reforma predial.

Não é só em São Paulo que projetos de inteligência serão inaugurados. A matriz de responsabilidades da Copa do Mundo, documento acordado entre os governos brasileiros, lista projetos em todas as cidades envolvidas no evento. Mas reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que, das 39 ações em segurança pública, 27 foram concluídas (69%) e 12 estão incompletas (31%).

Dados abertos – As políticas públicas de dados abertos também podem ajudar na prevenção ou combate aos crimes. De um lado, as autoridades públicas responsáveis pelos registros de ocorrências são publicidade aos dados, mantendo o sigilo das pessoas envolvidas. O que importa é onde, quando e que tipo de crime ocorreu. De outro lado, o cidadão tem à disposição mais informações para tomar decisões melhores.

Mais que isso: empresas privadas, com acesso legal aos dados, passaram a oferecer serviços de organização, visualização, análise e treinamento. Exemplos: CrimeReport, SpotCrime e CrimeMapping. Nos Estados Unidos, há um conjunto enorme de companhias com esse objetivo, que fecham acordos com as autoridades e, ao mesmo tempo, oferecem consultorias e treinamento a elas, nas cidades ou condados. O cidadão pode acessar aplicativos para visualizar os tipos de crimes em um raio próximo aos locais de moradia ou trabalho.

Chicago himicidesSe os dados são públicos, a imprensa também ajuda. Programadores e jornalistas constroem mapas constantemente atualizados, encontram a melhor forma de visualizar a informação e oferecem reportagens associadas. O Chicago Tribune esclarece ao leitor que está comprometido a escrever uma história sobre cada assassinato e oferece mapas indicando onde pessoas levaram tiros ou foram assassinadas. O Los Angeles Times tem mapas com indicadores de crimes. O Everyblock, projeto de jornalismo local que que voltou a funcionar em janeiro, também oferece mapas de criminalidade baseados em dados públicos.

Para saber mais:

Lembram do filme Minority Report, no qual os investigadores passam a se antecipar aos crimes? Com base em estatísticas e algorítimos, alguma coisa parecida começa a surgir nos departamentos de polícia.

Acesse o banco de dados da ONU com taxas de homicídios (sem contar suicídios) em diversos países e ao longo de vários anos, em números absolutos e em taxa relativa (homicídios por 100.000 habitantes). Esse banco de dados é interessante porque também indica a fonte da estatística. No Brasil, a taxa de homicídios pode variar de 21 a 25 assassinatos a cada grupo de 100.000 habitantes, de acordo com a fonte (Ministério da Justiça ou Mapa da Violência).

Dica para tratar com dados e elaborar infografias

O infográfico abaixo é um dos primeiros que estou fazendo para o curso ministrado pelo Alberto CairoAlberto Cairo, na modalidade Massive Open Online Course (MOOC) pela Knight Center for Journalism in the Americas.

Em uma das tarefas, o objetivo é desenhar novamente um infográfico original considerado ruim pelo professor (um mapa mostrando o perfil de consumo em alguns países).

Alberto Cairo w3 2

O infográfico original (acima), considerado pouco eficiente pelo professor, traz um mapa com diversas etiquetas de compras trazendo informações específicas de cada país. Apesar de bonito e agradável, dificulta a tarefa do leitor, pois requer dele muito esforço para memorizar e, então, consequentemente, comparar os números apresentados.

A minha sugestão (abaixo) foi mostra três gráficos em barras empilhadas – e algumas observações complementares. As barras ou as colunas tornam mais fácil a vida do leitor para comparar os dados, eliminando a necessidade de memorizá-los antes.

A ideia foi contextualizar as estatísticas presentes do infográfico original. As cores mais escuras nas barras levam o leitor para ler os pequenos quadros abaixo, com uma foto e uma informação referente ao país destacado.

Alberto Cairo w3

Listo ainda três outros exemplos (abaixo), de dois outros alunos, que buscaram facilitar a vida do leitor no momento de comparar. Outra dica do professor, que foi utilizada em todos os infográficos, aborda a utilização de cores.

A melhor opção é utilizar cores em tons mais claros e que não agridam muito a imagem apresentada. Esse princípio ajuda, inclusive, nos casos em que o infográfico precisa ressaltar alguma estatística. Com cores mais neutras e claras, basta realçar o dado desejado com uma tonalidade mais escura da cor.

Infográfico complexo e interessante mostra o clima em 35 cidades mundiais, inclusive São Paulo

Global Weather SP

Uma visualização de dados bastante interessante e complexa: é assim que se pode caracterizar o infográfico “Global Weather Radials 2013”, feito pelo estúdio alemão Raureif para mostrar as ondas de calor e frio em 35 cidades de vários países em 2013.

O clima de cada cidade é representado em um círculo, formado por várias linhas verticais, cada uma para um dia do ano. Esse círculo lembra um relógio, indicando o clima transcorrendo ao longo dos 12 meses do ano.

Global Weather Radials 2013 - Cópia

Como ler o infográfico – A parte de baixo da linha mostra a temperatura mais baixa do dia – e quanto mais próximo do centro do círculo, mas frio foi a temperatura mínima daquele dia. Ao contrário, o topo da linha mostra a temperatura máxima registrada naquele dia.

As bolhas em tom azul claro indicam as precipitações – quanto maior, mais chuva ou neve. O centro da bolha está posicionado no meio da linha que representa o dia em que choveu ou nevou.

Rapidamente, o leitor pode perceber quais as cidades que tiveram estações mais quentes ou mais frias, qual a duração das ondas de calor e frio, bem como ocorrências específicas, que são informadas em texto atrelado à fina barra que representa a temperatura de determinado dia.

São Paulo – O clima das cidades de São Paulo e de Buenos Aires estão demonstrados no infográfico. Na capital paulista, em 2013, percebe-se as elevadas temperaturas em todas as estações do ano – mais intensamente entre janeiro e março e depois entre outubro e dezembro.

A visualização apenas confirma o que o paulistano ainda deve ter na memória – as elevadas temperaturas do último verão entre o fim de 2013 e início de 2014. Mas o leitor não consegue comparar as precipitações de chuvas entre os dois últimos verões, pois os dados indicam somente as ocorrências em 2013.

Os dados utilizados para elaborar essa visualização foram obtidos no projeto Open Weather Map, no Instituto Meteorológico da Noruega e no Weather Underground. Os eventos climáticos específicos, informados em texto, foram avaliados manualmente, a partir da leitura de jornais nas respectivas cidades.

Onde achar boas matérias? Colunistas continuam oferecendo boas pautas em um único parágrafo

Durante décadas, as seções, nos jornais impressos, que trazem pequenas notícias com caráter exclusivo e informações de bastidores dos mercados e dos governos – as chamadas “colunas de notinhas” – são consideradas pelos jornalistas como uma fonte importante para novas pautas e matérias.

Os colunistas, muitas vezes, recebem informações de fontes econômicas, governamentais ou políticas em ‘’”off”, ou seja, que não querem ter os nomes delas revelados. Cabe ao colunista ter um relacionamento confiável com a fonte da informação ou se esforçar para encontrar indícios, por outras consultas, que confirmem a informação exclusiva – ou os dois métodos juntos.

Critérios e controle – As “colunas de notinhas”, muitas vezes, podem ser usadas de forma descontrolada e sem critérios, sobretudo porque os jornalistas responsáveis por elas não dão atenção necessária para as intenções, latentes ou patentes, da fonte da notícia. A pergunta que deve ser feita é: porque a fonte da informação decidiu entregar a informação exclusiva para um jornalista? É sempre um cuidado necessário.

Resguardado esse cuidado, as “colunas de notinhas” são realmente fonte inestimável de pautas exclusivas. Veja o caso da coluna Direto da Fonte, da jornalista Sonia Racy. Traz à tona, dia 28 de março, no jornal O Estado de S. Paulo, que há um estudo, concluído no fim de 2013, com novos dados referentes ao antigo projeto de iniciar a despoluição do Rio Pinheiros.

COluna Sonia RacyVale lembrar que o que se discute, em âmbito governamental, é investir na despoluição, de forma direta, das águas sujas do rio. Isso significa instalar equipamentos para coletar a água suja e tratá-la. Outra forma, que vem sendo realizada pelo governo paulista ao longo dos últimos 20 anos, é aumentar a capacidade de tratar as águas do rio de forma indireta, ampliando a rede de tratamento de esgoto de forma que as águas que são despejadas no rio Pinheiros – e nos afluentes dele – não carreguem uma elevada carga de esgoto não tratado.

O caso da despoluição do rio Pinheiros – Essa história é longínqua. Começa em outubro de 1992, quando foi publicada uma resolução conjunta entre secretárias de Meio Ambiente e de Saúde do Estado de São Paulo (resolução SMA-SES 04/92) proibindo o bombeamento das águas do rio Pinheiros para a Billings, definindo como exceção somente casos de emergência, como o controle de enchentes. Com isso, a velocidade da vazão do rio diminuiu – e a circulação da água é uma forma natural – e uma das mais importantes – para aumentar dispersar poluentes e aumentar o nível de oxigênio na água.

As restrições para despejo das águas do rio Pinheiros no reservatório Billings foram ampliadas (1997) e o governo estadual começa a estudar quais tecnologias poderiam ser utilizadas para iniciar a despoluição do rio (1998). Um método, o de flotação, começa a ser testad0 (1999)  em pequena escala e a água resultante é utilizada para irrigar os canteiros de flores nas margens do rio e tanques de criação de peixes no local. ´

Um projeto com dimensões maiores foi lançado oficialmente (2001), mas, a partir deste momento, embates intermináveis entre governo e Ministério Público por causa de discordâncias em torno dos resultados dos testes resultaram no abandono do projeto (2011), após gastar cerca de R$ 160 milhões em investimentos e testes.  O governo paulista, então, abriu uma audiência pública (2013) para receber propostas de tecnologia para tratar as águas do rio.

Contexto e novidade – A novidade que a coluna Direto da Fonte revela é que há um desfecho para o último passo então conhecido – a abertura da audiência pública. Desde dezembro de 2013, há um relatório com o resultado dessa audiência pública. Vale ou não vale uma nova matéria?

A notícia surge em um momento de intenso debate em relação ao uso dos recursos hídricos para o abastecimento de água potável dos centros urbanos brasileiros em um cenário de falta de chuvas e rios poluídos.

Um simples quadro devolve ao leitor a noção de conjunto das informações

Quadro investigações

Em várias reportagens atualmente, há geralmente uma busca frenética para conseguir números e dados que ajudem a produzir uma infografia diferenciada para ajudar o leitor a contextualizar a informação principal. Isso nem sempre é necessário.

A imprensa tem produzido, de forma incessante, matérias sobre as investigações sobre possível cartel envolvendo empresas que fornecem equipamentos para obras de transporte sobre trilhos.

Recentemente, dia 25 de março, uma ação do Ministério Público paulista ofereceu à Justiça estadual a denúncia de 30 empresários envolvidos nas investigações. Já foram tantas as reportagens sobre os desdobramentos do caso que há chance enorme de o leitor perder a noção do conjunto dos fatos.

O jornal O Estado de S. Paulo conseguiu devolver ao leitor essa noção. Para isso, não precisou recorrer a alguma visualização de dados pirotécnica. Bastou um quadro, com informação textual, noticiando os casos ainda em investigação e quais os fatores mais importantes para cada um deles.

Esse tipo de solução é muito interessante para o leitor em assuntos políticos e de investigações que se desdobram por meses e meses e deveria ser utilizado em mais ocasiões.

Planejamento garante bons relatos e recursos visuais em matéria difícil com usuários de drogas

FSP diário do crackOs grupos de pessoas que moram ou trabalham nas ruas são sempre alvo de curiosidade da sociedade e dos jornalistas.

Sem enveredar para análises sociológicas, esses personagens costumam ser vistos como símbolos de rebeldia, de diferenciação ou exclusão social.

É a forma como são vistos, e isso não significa que eles realmente pensem assim ou que esse retrato seja verídico.

Não é fácil entrevistar esses personagens. O repórter precisa manter o distanciamento necessário, para não julgar o entrevistado, nem odiá-lo nem ter piedade dele. Esses sentimentos podem enviesar a forma como o profissional ouve e processa as respostas e prejudica a forma de conduzir as perguntas.

Problemas aos entrevistados – Muitas vezes, não querem falar, pois vivem em condições que, por necessidade ou vontade própria, ultrapassam regras legais ou têm hábitos que são criticados pela maioria das pessoas, de forma preconceituosa ou não.

Eles vivem em uma cidade que quase nunca está nas páginas dos jornais ou no noticiário da televisão. Por isso, geram curiosidade. É comum, após um depoimento em que assume uma atividade irregular ou não aceitável, o personagem da entrevista sofrer alguma retaliação das autoridades ou dos moradores. Falar com jornalista pode trazer algum problema.

Quando um repórter tenta uma entrevista com um morador de rua, usuário de droga, prostituta, mendigos ou bêbados, entre outros, não são raras as vezes em que o jornalista enfrenta medo, tensão, xingamentos ou agressões. De outro lado, há personagens que são gentis e atenciosos, pois o repórter é uma pessoa que quer ouvir o que ele tem a dizer.

Boa matéria – Por essas razões, é bastante valorosa a reportagem que o jornal Folha de S. Paulo publicou dia 26 de janeiro. Chama-se “Diário do crack” (para assinantes), de autoria de Aretha Yarak Fabrício Lobel. No subtítulo: “Por cinco dias, a Folha acompanhou três dependentes e registrou os percalços da adaptação ao programa da prefeitura que tenta recuperá-los”.

A ideia, bem cumprida, foi acompanhar com os primeiros dias de três personagens – dependentes químicos que moravam na rua e passaram a ser alvo de um programa social da Prefeitura de São Paulo e do governo paulista para tentar ajudar as pessoas a abandonarem o consumo do crack.

Texto rápido, uma infografia na forma de página de diário, com anotações rápidas informando como transcorreu cada dia de cada um dos três personagens que aceitaram ser acompanhados. A ideia inicial e o planejamento de pauta foram fundamentais, certamente.

Oportuno verificar também que há um equilíbrio eficiente entre informações que estão no texto da reportagem e no texto da infografia. Muitas vezes, quando este tipo de recurso visual é empregado, ele acaba apenas copiando ou resumindo o que já está no texto, desperdiçando espaço.